Publicação: Revista Ofélia A casa dormia de olhos fechados. O soalho guardava o frio dos passos. As paredes, húmidas de murmúrios, respiravam o sal das histórias caladas. Lá fora, o mundo estendia-se imóvel, um campo aberto à espera do tempo. As espigas curvavam-se sem vento, como se escutassem um segredo antigo. Uma silhueta avançava devagar, feita de neblina e retorno. Não era sombra nem carne, mas o eco de algo por nascer. Nos braços, trazia o corpo do sonho, ainda quente, ainda a tremer, como um pássaro indeciso entre o voo e a petrificação. O chão reconhecia-lhe o peso, a memória de passos por vir. Mas o sonho começava a fixar-se e no contorno, ardia a dúvida. Seria milagre ou perda? Se se tornasse real, perder-se-ia a chama. A casa estremeceu no soalho. Veio um cheiro a laranja e terra molhada. As janelas abriram-se devagar, como pulmões a reaprender o ar. No rosto da silhueta, um traço de luz o breve milagre entre o antes e o depois....
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...