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Pares Improváveis

    A ver no Instagram: aluzdasletras.e.outrasartes   

O Calor e a Paisagem que Construímos

  Todos os verões parecem trazer a mesma frase: "Nunca esteve tanto calor." Logo a seguir chegam os mapas pintados de vermelho, os alertas, as reportagens e as manchetes que anunciam ondas de calor como se o verão tivesse deixado de ser uma estação para passar a ser uma ameaça permanente. Mas será mesmo assim? Quem tem memória lembra-se de outros verões. Dias de 35 ou 40 graus não nasceram agora. Houve ondas de calor em 1981, em 1991, em 2003 e noutras ocasiões. Houve secas que estalaram a terra, tempestades que derrubaram árvores e inundações que transformaram ruas em rios. Os extremos sempre fizeram parte da natureza. O tempo nunca foi uma linha reta. Talvez a grande diferença não esteja no céu. Talvez esteja na terra que fomos construindo. Há dias em que Lisboa parece uma frigideira esquecida ao lume. O ar não circula. Fica ali, parado. Como se também estivesse cansado. Ao meio-dia, até o som parece abrandar. O zumbido constante do trânsito mistura-se com o che...

Saborear o Momento - Ofélia em Poesia

 

O Som que Regressa

Peguem num objeto comum (uma caneca, uma chave ou uma caneta) e descrevam-no. Dediquem parágrafos separados apenas para detalhar o tato, o som, o peso e o cheiro do objeto, trabalhando a técnica de mostrar em vez de apenas dizer.  

Correspondência no Escuro

  Na zona antiga da cidade, onde as paredes acumulavam sal e memórias que já ninguém sabia nomear, existia uma associação discreta instalada num piso alto. As janelas estreitas deixavam entrar uma luz filtrada, que parecia ter atravessado demasiados invernos. O interior cheirava a papel envelhecido, madeira encerada e chá leve. Ali não se falava alto. Tudo existia com a paciência de quem sabe que certas coisas só duram quando não são apressadas. Uma vez por ano reunia-se um pequeno grupo de pessoas vindas de geografias diferentes para um exercício pouco comum: escrever a alguém desconhecido. Chamavam-lhe "Amigo Secreto". A regra era antiga na sua simplicidade. Cada participante recebia um nome ao acaso, retirado de um envelope creme, dobrado da mesma forma que todos os outros. Durante três meses, escreviam-se cartas semanais. Sem assinatura. Sem pistas evidentes. Apenas linguagem entregue a um desconhecido. O compromisso era a regularidade. O resto pertencia ao es...