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O Oficio da Esperança - para o tema: Consagrar o Pensamento

 

Publicação de um conto meu: Melhores Contos da Fábrica de Terror - IV

 Lançamento no Motelx - 12 de Setembro 

As Pegadas Invisiveis

     #aluzdasletras.e.outrasartes  

Publicação de um conto meu: "O Expresso dos Brinquedos Luminosos"

À meia-noite, quando a casa dormia como pedra antiga aquecida pelo tempo, Leo ouviu um tilintar na janela. Espreitou e ficou sem palavras: um pequeno comboio feito de luz e memória deslizava no ar, como se o céu tivesse aprendido a andar sobre carris invisíveis, deixando um rasto de luz que parecia respirar. Na frente, uma placa brilhava: Expresso dos Brinquedos Luminosos — Viagem aos Corações Esquecidos. A porta abriu-se sozinha. Tobias, o ursinho, agora vivo e de olhar sério, observou-o: — Nem todos conseguem entrar, só quem ainda sabe lembrar com o coração desperto. Leo hesitou. O chão lá dentro parecia feito de ecos. Mesmo assim, entrou. O comboio seguia cheio de vida: bonecos murmuravam segredos, carrinhos riam em corridas sem destino e livros folheavam-se como quem procura o próprio nome. Mas havia um silêncio estranho à frente deles. O Armazém das Coisas Esquecidas era frio e cheirava a madeira parada, como se o tempo ali tivesse deixado de respirar. Lá dentro, br...

Réplicas

 

Mérito Reconhecido - Frase Roubada

#luzdasletras.e.outrasartes    

A Tranquilidade Que Não se Vê

  Há pessoas que passam a vida inteira à procura de felicidade. Outras procuram sucesso, reconhecimento ou riqueza. Mas existe um grupo de pessoas cuja maior ambição é muito mais discreta: procuram apenas tranquilidade. À primeira vista, parece pouco. Na verdade, é muito. Porque só quem viveu demasiado tempo em alerta compreende o verdadeiro valor de um dia comum. O silêncio depois de fechar a porta de casa. O som da chave a rodar na fechadura — aquele breve estalido que, para alguns, vale mais do que qualquer promessa de segurança. O café que se bebe devagar, enquanto o aroma enche a cozinha. O instante em que os ombros, quase sem darmos por isso, deixam de estar tensos. O momento em que o corpo se afunda no sofá e percebe, finalmente, que ali, naquele lugar, não há perigo. São gestos tão simples que passam despercebidos à maioria das pessoas. Para outras, são pequenas conquistas. Quem cresce num ambiente onde o medo, a diferença, a doença, a perda ou o julgamento fazem pa...

A Vida Falsa

 Para a dinâmica da Fábrica de Terror, cujo tema é: Uma Voz

"Deitada na Areia" Observar o céu do Tempo de Ofélia em Poesia

 

Quando as Aparências Enganam

Há pessoas que entram numa sala como quem acende uma luz. Oiço isso muitas vezes — “que simpatia”, “que energia boa”, “que pessoa tão agradável”. E é verdade: há quem saiba sorrir no momento certo, quem tenha sempre uma palavra gentil, quem ofereça ajuda antes de ser preciso pedi-la. A primeira impressão é tão perfeita que quase parece impossível que exista outra camada por baixo. Numa tarde qualquer, num café de bairro, vi isso acontecer. Ele chegou, cumprimentou toda a gente, fez duas piadas, ofereceu-se para ajudar a senhora da mesa ao lado a levantar uma cadeira. A sala inteira pareceu gostar dele. Eu também. É natural — confiamos no que vemos. Mas a vida tem uma maneira curiosa de nos ensinar que o visível é apenas a superfície. A mulher que estava com ele demorava sempre um segundo a mais antes de responder. Um segundo quase impercetível, mas suficiente para mostrar que procurava autorização no olhar dele. Quando falava, segurava o copo com força, como quem tenta conter uma...

O Tempo de Paz

 

O Enigma das Sete Partes

  Ninguém sabia de onde vinha o velho Mestre. Uns diziam que passara a vida entre bibliotecas esquecidas; outros juravam tê-lo visto atravessar desertos, mosteiros e cidades onde as palavras pareciam mais antigas do que as próprias pedras. Mas todos concordavam numa coisa: quem aceitasse um dos seus desafios nunca mais voltava a olhar para a língua portuguesa da mesma maneira. Numa tarde de verão, pousou sobre a mesa um pequeno cofre de madeira escura. Não tinha fechadura, dobradiças visíveis nem qualquer sinal de chave. Apenas uma inscrição gravada na tampa: «Abre-me com sete partes do corpo humano.» Pela janela entreaberta entravam os sons da praça. Ao longe, uma melodia elevava-se da velha igreja. Os acordes eram tão profundos que pareciam fazer respirar as paredes de pedra e espalhavam-se pelas ruas como um fio invisível, fazendo vibrar o silêncio. — Parece fácil... — comentou um rapaz. O Mestre sorriu. — Os enigmas mais difíceis são aqueles que se apresentam com a si...

Pão e Circo: Quando o Ruído Ocupa o Lugar da Realidade

  Há mais de dois mil anos, Juvenal escreveu panem et circenses — "pão e circo". Criticava uma sociedade que se deixava apaziguar com alimento e espetáculo, desviando o olhar do que realmente importava. O contexto transformou‑se. A inquietação permanece. Hoje, o "circo" já não ocupa os anfiteatros romanos. Surge nos estádios cheios, nos Jogos Olímpicos, nos grandes concertos, nos fenómenos virais que atravessam continentes em poucos minutos ou nas transmissões que, durante dias, parecem suspender o resto do mundo. O problema nunca foi o entretenimento. O ser humano sempre precisou de celebrar, de competir, de contar histórias, de criar momentos de alegria partilhada. O espetáculo também faz parte da cultura e da identidade das sociedades. O problema começa quando o espetáculo ocupa quase todo o espaço do olhar. Enquanto milhões acompanham uma final desportiva, algures continuam a cair bombas. Há hospitais sem medicamentos, populações deslocadas, incêndios...