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A Abundância Possível

Há uma ideia que, de vez em quando, me atravessa o pensamento: será que podemos ter várias coisas boas ao mesmo tempo?   Parece uma pergunta simples. Talvez. Mas basta olhar à nossa volta para perceber que muitas vezes vivemos como se existisse uma espécie de contabilidade invisível, onde nada nos é dado sem que alguma coisa tenha de ser retirada. Se temos amor, já é muito. Se temos saúde, não podemos pedir mais. Se temos dinheiro suficiente para viver, não devemos desejar sorte. Se temos uma família, não podemos queixar-nos da solidão.   Se temos trabalho, não devemos desejar tempo.   E, se alguma coisa corre demasiado bem, há sempre aquela voz, dentro ou fora de nós, que parece dizer: cuidado, porque alguma coisa virá cobrar a diferença. Talvez tenhamos aprendido isto desde cedo. Aprendemos a desconfiar da felicidade demasiado prolongada. A dizer "não me posso queixar" mesmo quando alguma coisa nos dói. A esconder um desejo porque alguém pode achar que já temos mais do ...

Quatro Dias numa Aldeia

 

VOLTA: Entre a Boa Intenção e a Realidade

       Há ideias que parecem certas à partida. Tão certas que quase não ousamos questioná-las. Reciclar é uma delas. Devolver uma embalagem, recuperar o dinheiro que pagámos por ela e permitir que volte a ser matéria-prima parece, à primeira vista, uma solução simples, justa e até antiga. O sistema Volta nasceu precisamente dessa lógica: pagar um depósito por determinadas garrafas e latas, devolvê-las depois e recuperar os dez cêntimos. Uma ideia que, curiosamente, não é assim tão moderna. Em Portugal, já conhecemos há décadas o princípio da garrafa que se devolvia, porque tinha valor. O que mudou foi a tecnologia, a escala e, sobretudo, o tipo de embalagens. A intenção é boa. Mas uma boa intenção não chega para fazer funcionar um sistema. Quando colocamos uma garrafa numa máquina Volta, ela é identificada pelo código de barras, aceite e compactada. Depois segue para centros de contagem e triagem e, posteriormente, para reciclagem. O objetivo é conseguir matéri...

O Oficio da Esperança - para o tema: Consagrar o Pensamento

 

Publicação de um conto meu: Melhores Contos da Fábrica de Terror - IV

 Lançamento no Motelx - 12 de Setembro 

As Pegadas Invisiveis

   #aluzdasletras.e.outrasartes  

Publicação de um conto meu: "O Expresso dos Brinquedos Luminosos"

À meia-noite, quando a casa dormia como pedra antiga aquecida pelo tempo, Leo ouviu um tilintar na janela. Espreitou e ficou sem palavras: um pequeno comboio feito de luz e memória deslizava no ar, como se o céu tivesse aprendido a andar sobre carris invisíveis, deixando um rasto de luz que parecia respirar. Na frente, uma placa brilhava: Expresso dos Brinquedos Luminosos — Viagem aos Corações Esquecidos. A porta abriu-se sozinha. Tobias, o ursinho, agora vivo e de olhar sério, observou-o: — Nem todos conseguem entrar, só quem ainda sabe lembrar com o coração desperto. Leo hesitou. O chão lá dentro parecia feito de ecos. Mesmo assim, entrou. O comboio seguia cheio de vida: bonecos murmuravam segredos, carrinhos riam em corridas sem destino e livros folheavam-se como quem procura o próprio nome. Mas havia um silêncio estranho à frente deles. O Armazém das Coisas Esquecidas era frio e cheirava a madeira parada, como se o tempo ali tivesse deixado de respirar. Lá dentro, br...

Réplicas

 

Mérito Reconhecido - Frase Roubada

#luzdasletras.e.outrasartes    

A Vida Falsa

 Para a dinâmica da Fábrica de Terror, cujo tema é: Uma Voz

"Deitada na Areia" Observar o céu do Tempo de Ofélia em Poesia

 

O Tempo de Paz

 

O Enigma das Sete Partes

  Ninguém sabia de onde vinha o velho Mestre. Uns diziam que passara a vida entre bibliotecas esquecidas; outros juravam tê-lo visto atravessar desertos, mosteiros e cidades onde as palavras pareciam mais antigas do que as próprias pedras. Mas todos concordavam numa coisa: quem aceitasse um dos seus desafios nunca mais voltava a olhar para a língua portuguesa da mesma maneira. Numa tarde de verão, pousou sobre a mesa um pequeno cofre de madeira escura. Não tinha fechadura, dobradiças visíveis nem qualquer sinal de chave. Apenas uma inscrição gravada na tampa: «Abre-me com sete partes do corpo humano.» Pela janela entreaberta entravam os sons da praça. Ao longe, uma melodia elevava-se da velha igreja. Os acordes eram tão profundos que pareciam fazer respirar as paredes de pedra e espalhavam-se pelas ruas como um fio invisível, fazendo vibrar o silêncio. — Parece fácil... — comentou um rapaz. O Mestre sorriu. — Os enigmas mais difíceis são aqueles que se apresentam com a si...