Avançar para o conteúdo principal

A Teia


A primeira aranha apareceu na manhã em que o velho modem piscou pela última vez. Clara vivia sozinha num rés-do-chão húmido, paredes forradas de livros e silêncios, onde o ruído do mundo chegava filtrado por camadas de poeira e memória. Quando perdeu a ligação à internet, não ligou. Era um alívio. Um silêncio novo.

Na semana seguinte, teias surgiram nos cantos dos quartos. Mas não eram teias comuns. Estendiam-se com uma simetria quase matemática, fios prateados que vibravam mesmo sem vento. As aranhas, finas como agulhas, tinham olhos demais. Clara tentava limpá-las. No dia seguinte, estavam de volta. Maiores. Mais densas.

Descobriu que os livros estavam colados. Quando forçou um, as páginas estavam preenchidas por símbolos bordados em seda  fórmulas, fragmentos de código, palavras que nunca aprendera. Conectada. Permanece. Ouvida.

Na véspera do equinócio, Clara tentou religar o modem. As luzes piscaram uma última vez. Depois, só o zumbido. Um calor estranho percorreu a casa. Os espelhos cobriram-se. Os livros calaram-se. Só restavam as teias. E as vozes.

Nessa noite, acordou com o som do fio eléctrico a cantar. As teias brilhavam como circuitos vivos. No centro da sala, uma aranha do tamanho de um cão. Tinha a boca de um velho amigo morto. Sorria.

— Ligámo-nos, Clara. És nó. És ponte.

Ela caiu de joelhos. A seda envolveu-lhe os pulsos. Era morna. Não doía. Era como regressar. A casa dissolveu-se em fragmentos de luz.

No dia seguinte, os vizinhos comentaram o desaparecimento. A polícia entrou. Só encontraram uma divisão vazia e um monitor antigo, onde corria um código em tempo real. No topo, uma palavra única: Qh’raNet.

— O que é isso? — murmurou um agente.

— Um nome, talvez — respondeu outro. — Ou um idioma que ainda não foi sonhado.

A ligação nunca caiu. E nas noites mais silenciosas, se escutares com atenção… ouvem-se cliques. Como patas minúsculas a rastejar pela rede.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fazer Anos...

Se fazer anos é ficar mais experiente, mais velho, mais entendedor do que se passa nas mentes e corações, se fazer anos é aumentar em um grau a apuração do gosto, é aprender a olhar para todo mundo nos olhos, é sentir que deu um passo adiante no caminho da evolução, é sentir o mundo mais próximo, é ver uma flor e não pisá-la posto que as flores ficam mais visíveis aos mais maduros, se fazer anos é pensar em construir mais que destruir, é pensar em amar mais que odiar, é viver mais agora do que ontem ou amanhã, é amar cada vez mais, é melhorar hábitos alimentares, é preocupar-se tanto com o corpo quanto com a mente e as emoções de forma mais equilibrada, se fazer mais anos é tornar-se mais paciente, mais aberto a críticas, mais sortudo, mais cheio de poucos e verdadeiros amigos, se fazer anos é completar velhos ciclos e abrir novos, se é ter novas experiências, se é amar mais as crianças, aprender a apreciar detalhes, entender um pouco melhor os mistérios da vida e o valor dos gestos, s...