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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2025

Fazer catorze anos

É estar entre duas margens: uma já conhecida, a infância que se despede devagar, e outra que ainda assusta, a juventude que se anuncia com promessas e dúvidas. É sentir o corpo crescer antes de a alma estar pronta. É olhar-se ao espelho e perceber que o rosto muda, mas os olhos continuam à procura do mesmo abrigo. O tempo começa a correr de outra forma: mais veloz, mais exigente. Já não basta sonhar, é preciso escolher, decidir e errar.   As vozes dos adultos soam mais distantes, e o coração pede liberdade, mas teme o que ela traz. Há um certo encanto em fazer catorze anos: o mundo parece mais largo, mais profundo, mais intenso. As amizades ganham peso de eternidade, os amores nascem num olhar e morrem num silêncio. Tudo é exagerado: a alegria, a dor, o riso e a lágrima. Mas também há um despertar: a consciência de que o tempo não volta, que crescer é aprender a deixar ir. É começar a caminhar sozinho, com o medo de um lado e a esperança do outro, mantendo o equ...

Outono Interior

O Peso do Tempo Invisível

  O banco da praça rangia sob o peso de corpos que já carregavam décadas inteiras. A luz da tarde inclinava-se devagar, alongando sombras que pareciam mais antigas do que as pessoas que as projetavam. Havia rugas que não eram apenas marcas da pele, mas registos de vida acumulada — histórias sem audiência, memórias sem plateia. Alguns sorrisos surgiam com esforço contido. Outros já não surgiam. O tempo ali não corria. Instalava-se. Os idosos movem-se dentro de uma cidade que não acompanha o seu ritmo. As rotinas são estreitas: consultas médicas, farmácias, deslocações planeadas ao minuto. Cada saída de casa exige cálculo prévio, como se o espaço urbano tivesse de ser antecipado antes de ser atravessado. Os transportes não esperam. Os balcões são altos. Os sistemas são digitais. As filas são rápidas demais para quem já aprendeu a viver devagar. A cidade, na sua estrutura, parece feita para corpos em aceleração constante. E o corpo envelhecido não acelera. A solidão nã...

Revista Palavrar - A Melodia das Ruínas

O Ritmo da Memória

  No largo da aldeia, o sino não apenas marca a hora — dobra o tempo sobre si mesmo. Há momentos em que parece não anunciar o presente, mas chamar o passado de volta, como se ainda estivesse disponível, intacto. As barracas do mercado abrem-se em cores e cheiros que não pertencem apenas ao dia, mas a muitos dias sobrepostos. Vozes cruzam gerações sem pedir autorização. Cada gesto — o pão amassado, o vinho servido, a fruta exposta ao sol — não é apenas comércio. É repetição. E a repetição, aqui, é forma de continuidade. O passado não está atrás. Está embutido no gesto. Nas festas populares, nada começa verdadeiramente do zero. Tudo já foi visto antes, mas nunca exatamente da mesma forma. A comunidade reconhece isso no corpo antes de o reconhecer na consciência. O ritmo da dança, a batida do tambor, o movimento coletivo das ruas: tudo isso mede pertença mais do que qualquer palavra. A festa não é interrupção da vida. É a sua reorganização simbólica. As crianças aprendem c...

Fala

Na aldeia engolida pela névoa, ninguém falava depois do pôr do sol. Dizia-se que as palavras, libertas no ar frio, ganhavam corpo e voltavam famintas a procurar quem as soltou. Helena não acreditava. O pai ensinara-lhe a chamar o vento com o nome das coisas perdidas, a sombra de um cão, o riso da mãe, o som das campainhas ao longe. Às vezes parecia ouvir resposta. Nessa noite, cansada do medo dos outros, subiu à colina e gritou o nome dele. O chamamento regressou, denso, como se tivesse atravessado a terra húmida. — Helena. Não era eco. Era retorno. O ar tremeu. Da bruma ergueu-se algo que lembrava uma boca feita de sombra e vapor. O sussurro enchia-lhe o peito, puxava-lhe o fôlego para fora. — Deixa-me entrar. As sílabas tocaram-lhe a pele, quentes, viscosas. Escorriam-lhe pelo pescoço, entravam-lhe nos ouvidos, serpentinas de som à procura de abrigo. Tentou falar, mas o ar já não lhe pertencia. Na manhã seguinte, encontraram-na junto ao poço, imóvel. Os olhos, fixos na água, ...