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A mostrar mensagens com a etiqueta Observacoes do Quotidiano

A Abundância Possível

Há uma ideia que, de vez em quando, me atravessa o pensamento: será que podemos ter várias coisas boas ao mesmo tempo?   Parece uma pergunta simples. Talvez. Mas basta olhar à nossa volta para perceber que muitas vezes vivemos como se existisse uma espécie de contabilidade invisível, onde nada nos é dado sem que alguma coisa tenha de ser retirada. Se temos amor, já é muito. Se temos saúde, não podemos pedir mais. Se temos dinheiro suficiente para viver, não devemos desejar sorte. Se temos uma família, não podemos queixar-nos da solidão.   Se temos trabalho, não devemos desejar tempo.   E, se alguma coisa corre demasiado bem, há sempre aquela voz, dentro ou fora de nós, que parece dizer: cuidado, porque alguma coisa virá cobrar a diferença. Talvez tenhamos aprendido isto desde cedo. Aprendemos a desconfiar da felicidade demasiado prolongada. A dizer "não me posso queixar" mesmo quando alguma coisa nos dói. A esconder um desejo porque alguém pode achar que já temos mais do ...

VOLTA: Entre a Boa Intenção e a Realidade

       Há ideias que parecem certas à partida. Tão certas que quase não ousamos questioná-las. Reciclar é uma delas. Devolver uma embalagem, recuperar o dinheiro que pagámos por ela e permitir que volte a ser matéria-prima parece, à primeira vista, uma solução simples, justa e até antiga. O sistema Volta nasceu precisamente dessa lógica: pagar um depósito por determinadas garrafas e latas, devolvê-las depois e recuperar os dez cêntimos. Uma ideia que, curiosamente, não é assim tão moderna. Em Portugal, já conhecemos há décadas o princípio da garrafa que se devolvia, porque tinha valor. O que mudou foi a tecnologia, a escala e, sobretudo, o tipo de embalagens. A intenção é boa. Mas uma boa intenção não chega para fazer funcionar um sistema. Quando colocamos uma garrafa numa máquina Volta, ela é identificada pelo código de barras, aceite e compactada. Depois segue para centros de contagem e triagem e, posteriormente, para reciclagem. O objetivo é conseguir matéri...

Pão e Circo: Quando o Ruído Ocupa o Lugar da Realidade

  Há mais de dois mil anos, Juvenal escreveu panem et circenses — "pão e circo". Criticava uma sociedade que se deixava apaziguar com alimento e espetáculo, desviando o olhar do que realmente importava. O contexto transformou‑se. A inquietação permanece. Hoje, o "circo" já não ocupa os anfiteatros romanos. Surge nos estádios cheios, nos Jogos Olímpicos, nos grandes concertos, nos fenómenos virais que atravessam continentes em poucos minutos ou nas transmissões que, durante dias, parecem suspender o resto do mundo. O problema nunca foi o entretenimento. O ser humano sempre precisou de celebrar, de competir, de contar histórias, de criar momentos de alegria partilhada. O espetáculo também faz parte da cultura e da identidade das sociedades. O problema começa quando o espetáculo ocupa quase todo o espaço do olhar. Enquanto milhões acompanham uma final desportiva, algures continuam a cair bombas. Há hospitais sem medicamentos, populações deslocadas, incêndios...

Pais sem Manuais e Filhos sem Mapas

Há uma forma de silêncio que não é ausência de palavra, é acumulação de tudo o que ficou por dizer dentro de casa. Entre pais e filhos, esse silêncio instala-se muitas vezes depois de uma tensão: a porta que bate, o tom que sobe, o olhar que se desvia por orgulho ou cansaço. Durante alguns instantes, parece que algo se partiu de forma irreversível. Mas quase nunca é assim. A maioria das zangas familiares não nasce de grandes acontecimentos. Nasce do pequeno: uma resposta atravessada, uma regra que soa injusta, uma decisão tomada sem explicação. Coisas que, dentro de casa, ganham um peso que não têm fora dela, porque ali tudo é vivido com mais densidade. Depois vem o intervalo, esse tempo suspenso em que cada um espera que o outro dê o primeiro passo. Carrega-se a certeza de ter razão, misturada com a dúvida de ter sido duro demais. É um tempo imóvel por fora, mas inquieto por dentro. Os pais, muitas vezes, não sabem como reparar o que foi dito. Não por falta de amor, mas porque t...

O Pacto com o Imperfeito

Há decisões que não são leves. São a arquitetura silenciosa da vida. E uma vez erguidas, já não voltam ao que eram, apenas continuam. Adotar — seja uma criança, um idoso, um animal — não é preencher um espaço vazio. É abrir a casa por dentro. E quando a casa se abre, o tempo muda de forma. O silêncio muda de lugar dentro da casa, como se tivesse sido deslocado por mãos invisíveis. O sono deixa de ser inteiro. Fica fragmentado, como quem aprende a dividir-se. A rotina perde a sua linha reta. Tudo o que era previsível começa a respirar de outra maneira. E é precisamente quando o corpo fraqueja que a fantasia se desfaz. O problema não está no cansaço. O cansaço é antigo, humano, inevitável. O problema está na ideia de que o afeto entra sem perturbar as paredes. Mas nenhuma parede permanece intacta quando uma vida nova encosta o ombro. Depois vem o choque do real. O inesperado atravessa a casa como corrente de ar. Não pede licença. Instala-se. E fica. Há noites em que a casa ...

A Sobrevivência em Silêncio

  Há dias em que o mundo não desaba. Apenas perde peso. Acorda-se e tudo parece igual: a luz entra pela janela com a mesma inclinação, o ruído da rua mantém a sua rotina, o telemóvel acende com notificações que poderiam ser importantes noutro estado qualquer. Mas algo muda sem aviso — não no exterior, mas na forma como tudo chega. Chega longe. Chega fraco. Chega como se atravessasse água. E há quem se levante mesmo assim. Não por força nem esperança. Levanta-se porque o corpo ainda conhece o caminho quando a mente já não acompanha. A depressão não entra como evento. Não parte portas. Não anuncia chegada. Instala-se como alteração da distância entre a pessoa e o mundo. O mundo continua perto, mas já não toca. E esse intervalo não é visto. Nas ruas, tudo parece funcional. Pessoas entram e saem de transportes, trabalham, conversam, discutem preços, fazem planos. O mundo mantém disciplina exterior. Mas há quem caminhe dentro dele como se estivesse ligeiramente atrasado rela...