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A mostrar mensagens com a etiqueta Observacoes do Quotidiano

O Pacto com o Imperfeito

  Há decisões que não são leves. São a arquitetura silenciosa da vida. E uma vez erguidas, já não voltam ao que eram, apenas continuam. Adotar — seja uma criança, um idoso, um animal — não é preencher um espaço vazio. É abrir a casa por dentro. E quando a casa se abre, o tempo muda de forma. O silêncio muda de lugar dentro da casa, como se tivesse sido deslocado por mãos invisíveis. O sono deixa de ser inteiro. Fica fragmentado, como quem aprende a dividir-se. A rotina perde a sua linha reta. Tudo o que era previsível começa a respirar de outra maneira. E é precisamente quando o corpo fraqueja que a fantasia se desfaz. O problema não está no cansaço. O cansaço é antigo, humano, inevitável. O problema está na ideia de que o afeto entra sem perturbar as paredes. Mas nenhuma parede permanece intacta quando uma vida nova encosta o ombro. Depois vem o choque do real. O inesperado atravessa a casa como corrente de ar. Não pede licença. Instala-se. E fica. Há noites em que...

A Sobrevivência em Silêncio

  Há dias em que o mundo não desaba. Apenas perde peso. Acorda-se e tudo parece igual: a luz entra pela janela com a mesma inclinação, o ruído da rua mantém a sua rotina, o telemóvel acende com notificações que poderiam ser importantes noutro estado qualquer. Mas algo muda sem aviso — não no exterior, mas na forma como tudo chega. Chega longe. Chega fraco. Chega como se atravessasse água. E há quem se levante mesmo assim. Não por força nem esperança. Levanta-se porque o corpo ainda conhece o caminho quando a mente já não acompanha. A depressão não entra como evento. Não parte portas. Não anuncia chegada. Instala-se como alteração da distância entre a pessoa e o mundo. O mundo continua perto, mas já não toca. E esse intervalo não é visto. Nas ruas, tudo parece funcional. Pessoas entram e saem de transportes, trabalham, conversam, discutem preços, fazem planos. O mundo mantém disciplina exterior. Mas há quem caminhe dentro dele como se estivesse ligeiramente atrasado rela...

Entre Goa e o tempo

  Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...

A Guerra e o Poder

  A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto. Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável. O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença. Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos. Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já est...

Os Pequenos que Observam o Mundo

As praças e ruas cheias de crianças são mapas invisíveis de desigualdade. Há quem corra livre entre árvores e bancos, mochila ao ombro, riso solto no ar. E há quem conheça apenas corredores estreitos de prédios, quintais vazios, ruas onde o som dos passos se repete sempre igual. O espaço não é neutro. Cada brinquedo, cada campo de jogo, cada biblioteca aberta é uma possibilidade. Cada ausência é uma decisão já tomada. Antes de saber pedir, o mundo já distribui o possível. A infância aprende cedo que nem todos os corpos ocupam o mesmo lugar. No parque, algumas crianças falam de aulas de música, viagens, atividades depois da escola. Outras ocupam o tempo com o que existe: pedras que viram jogos, muros que viram pistas, paus que desenham caminhos no chão. Nada disso aparece como injustiça imediata. Mas acumula-se como diferença. Fora da escola, a aprendizagem continua noutro registo. A rua ensina leitura de ambientes. A casa ensina responsabilidade precoce. Os irmãos mais no...

Ecos na Mente

O mundo moderno move-se depressa demais, e a mente tenta acompanhá-lo com passos curtos, partidos, como se nunca chegassem a formar caminho inteiro. Nas ruas, nos transportes, nos cafés, os rostos parecem ocupados antes mesmo de estarem presentes. Há sempre qualquer coisa a acontecer por dentro, mesmo quando por fora nada se move. Nos ecrãs, tudo chama ao mesmo tempo. Pequenas urgências sem hierarquia. E a mente responde, uma atrás da outra, como se não pudesse recusar nenhuma. Em casa, o silêncio existe, mas não descansa. Está cheio. Cheio de pensamentos que não acabam, de repetições discretas, de coisas que voltam sem aviso. Há um peso que não se vê. Não se mede. Mas sente-se. Respirações que não chegam ao fim. Ideias interrompidas a meio. Noites em que o corpo se deita, mas a cabeça continua em pé. A ansiedade não chega como visitante. Já está. E começa a empurrar o tempo para a frente, mesmo quando ele não precisa de ser empurrado. Obriga a mente a viver em dois lugar...