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A mostrar mensagens com a etiqueta Observacoes do Quotidiano

Entre Goa e o tempo

  Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...

A Guerra e o Poder

  A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto. Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável. O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença. Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos. Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já est...

Os Pequenos que Observam o Mundo

As praças e ruas cheias de crianças são mapas invisíveis de desigualdade. Há quem corra livre entre árvores e bancos, mochila ao ombro, riso solto no ar. E há quem conheça apenas corredores estreitos de prédios, quintais vazios, ruas onde o som dos passos se repete sempre igual. O espaço não é neutro. Cada brinquedo, cada campo de jogo, cada biblioteca aberta é uma possibilidade. Cada ausência é uma decisão já tomada. Antes de saber pedir, o mundo já distribui o possível. A infância aprende cedo que nem todos os corpos ocupam o mesmo lugar. No parque, algumas crianças falam de aulas de música, viagens, atividades depois da escola. Outras ocupam o tempo com o que existe: pedras que viram jogos, muros que viram pistas, paus que desenham caminhos no chão. Nada disso aparece como injustiça imediata. Mas acumula-se como diferença. Fora da escola, a aprendizagem continua noutro registo. A rua ensina leitura de ambientes. A casa ensina responsabilidade precoce. Os irmãos mais no...

Ecos na Mente

O mundo moderno move-se depressa demais, e a mente tenta acompanhá-lo com passos curtos, partidos, como se nunca chegassem a formar caminho inteiro. Nas ruas, nos transportes, nos cafés, os rostos parecem ocupados antes mesmo de estarem presentes. Há sempre qualquer coisa a acontecer por dentro, mesmo quando por fora nada se move. Nos ecrãs, tudo chama ao mesmo tempo. Pequenas urgências sem hierarquia. E a mente responde, uma atrás da outra, como se não pudesse recusar nenhuma. Em casa, o silêncio existe, mas não descansa. Está cheio. Cheio de pensamentos que não acabam, de repetições discretas, de coisas que voltam sem aviso. Há um peso que não se vê. Não se mede. Mas sente-se. Respirações que não chegam ao fim. Ideias interrompidas a meio. Noites em que o corpo se deita, mas a cabeça continua em pé. A ansiedade não chega como visitante. Já está. E começa a empurrar o tempo para a frente, mesmo quando ele não precisa de ser empurrado. Obriga a mente a viver em dois lugar...

Corpos e Identidades

Desde cedo, o mundo ensina mapas invisíveis: linhas que separam o que se espera de rapazes e raparigas, homens e mulheres, corpos que aprendem a caber em caixas que nunca pediram. Não são mapas desenhados em papel — são repetidos em gestos, palavras e silêncios quotidianos. Nos gestos mais simples, nas frases ditas sem reflexão, nos olhares que aprovam ou corrigem sem explicação, reproduz-se uma geografia silenciosa de direitos e limites. No recreio, as meninas aprendem cedo que ocupar demasiado espaço pode ser interpretado como excesso. Que a voz alta pode ser lida como desajuste. Que correr, disputar ou insistir não é apenas ação — é julgamento. Os rapazes aprendem outra disciplina: conter o choro, evitar a hesitação, transformar fragilidade em algo que não se mostra. A aprendizagem não é formal. É contínua. Cada gesto corrigido, cada riso interrompido, cada elogio condicionado constrói uma ideia de normalidade sem assinatura, mas amplamente reconhecida. No trabalho, a desi...

A Estrada Não Perdoa

As estradas podem ser boas ou más. Há as novas, lisas, confiantes. Há as gastas, cheias de remendos e memória. Mas nenhuma estrada corrige a distração de quem conduz. O que decide nunca é apenas o piso, é o gesto. Um olhar que falha. Um segundo a mais. Um segundo basta. Conduz-se hoje como se o carro pensasse por nós. Entra-se, roda-se a chave, e parte-se. Poucos verificam pneus, óleo, travões. Confia-se que tudo funcione porque ontem funcionou. A máquina anda, logo está segura. Mas a segurança não é automática. É um hábito consciente que se renova todos os dias e que muitos deixaram cair. Na chuva e no nevoeiro, a estrada enche-se de sombras em movimento. Carros sem luzes. Outros apenas com mínimos, invisíveis atrás, como se não existissem. Avançam a velocidades incompatíveis com o que os olhos conseguem realmente captar. Pergunto-me se veem o caminho ou conduzem-se por memória, como quem atravessa um quarto escuro de olhos fechados, convencido de que nada mudou desde ontem. Os ...

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...

O Segundo Apagão

       Vivemos convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.      Até ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que escurece o céu e pesa por dentro.      A luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.      Na rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão está ali, ainda quente. A água também. Mas não h...