Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...