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A mostrar mensagens com a etiqueta Observacoes do Quotidiano

O Calor e a Paisagem que Construímos

  Todos os verões parecem trazer a mesma frase: "Nunca esteve tanto calor." Logo a seguir chegam os mapas pintados de vermelho, os alertas, as reportagens e as manchetes que anunciam ondas de calor como se o verão tivesse deixado de ser uma estação para passar a ser uma ameaça permanente. Mas será mesmo assim? Quem tem memória lembra-se de outros verões. Dias de 35 ou 40 graus não nasceram agora. Houve ondas de calor em 1981, em 1991, em 2003 e noutras ocasiões. Houve secas que estalaram a terra, tempestades que derrubaram árvores e inundações que transformaram ruas em rios. Os extremos sempre fizeram parte da natureza. O tempo nunca foi uma linha reta. Talvez a grande diferença não esteja no céu. Talvez esteja na terra que fomos construindo. Há dias em que Lisboa parece uma frigideira esquecida ao lume. O ar não circula. Fica ali, parado. Como se também estivesse cansado. Ao meio-dia, até o som parece abrandar. O zumbido constante do trânsito mistura-se com o che...

Pais sem Manuais e Filhos sem Mapas

Há uma forma de silêncio que não é ausência de palavra, é acumulação de tudo o que ficou por dizer dentro de casa. Entre pais e filhos, esse silêncio instala-se muitas vezes depois de uma tensão: a porta que bate, o tom que sobe, o olhar que se desvia por orgulho ou cansaço. Durante alguns instantes, parece que algo se partiu de forma irreversível. Mas quase nunca é assim. A maioria das zangas familiares não nasce de grandes acontecimentos. Nasce do pequeno: uma resposta atravessada, uma regra que soa injusta, uma decisão tomada sem explicação. Coisas que, dentro de casa, ganham um peso que não têm fora dela, porque ali tudo é vivido com mais densidade. Depois vem o intervalo, esse tempo suspenso em que cada um espera que o outro dê o primeiro passo. Carrega-se a certeza de ter razão, misturada com a dúvida de ter sido duro demais. É um tempo imóvel por fora, mas inquieto por dentro. Os pais, muitas vezes, não sabem como reparar o que foi dito. Não por falta de amor, mas porque t...

O Pacto com o Imperfeito

Há decisões que não são leves. São a arquitetura silenciosa da vida. E uma vez erguidas, já não voltam ao que eram, apenas continuam. Adotar — seja uma criança, um idoso, um animal — não é preencher um espaço vazio. É abrir a casa por dentro. E quando a casa se abre, o tempo muda de forma. O silêncio muda de lugar dentro da casa, como se tivesse sido deslocado por mãos invisíveis. O sono deixa de ser inteiro. Fica fragmentado, como quem aprende a dividir-se. A rotina perde a sua linha reta. Tudo o que era previsível começa a respirar de outra maneira. E é precisamente quando o corpo fraqueja que a fantasia se desfaz. O problema não está no cansaço. O cansaço é antigo, humano, inevitável. O problema está na ideia de que o afeto entra sem perturbar as paredes. Mas nenhuma parede permanece intacta quando uma vida nova encosta o ombro. Depois vem o choque do real. O inesperado atravessa a casa como corrente de ar. Não pede licença. Instala-se. E fica. Há noites em que a casa ...

A Sobrevivência em Silêncio

  Há dias em que o mundo não desaba. Apenas perde peso. Acorda-se e tudo parece igual: a luz entra pela janela com a mesma inclinação, o ruído da rua mantém a sua rotina, o telemóvel acende com notificações que poderiam ser importantes noutro estado qualquer. Mas algo muda sem aviso — não no exterior, mas na forma como tudo chega. Chega longe. Chega fraco. Chega como se atravessasse água. E há quem se levante mesmo assim. Não por força nem esperança. Levanta-se porque o corpo ainda conhece o caminho quando a mente já não acompanha. A depressão não entra como evento. Não parte portas. Não anuncia chegada. Instala-se como alteração da distância entre a pessoa e o mundo. O mundo continua perto, mas já não toca. E esse intervalo não é visto. Nas ruas, tudo parece funcional. Pessoas entram e saem de transportes, trabalham, conversam, discutem preços, fazem planos. O mundo mantém disciplina exterior. Mas há quem caminhe dentro dele como se estivesse ligeiramente atrasado rela...

Entre Goa e o tempo

  Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...

A Guerra e o Poder

  A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto. Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável. O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença. Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos. Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já est...

Os Pequenos que Observam o Mundo

As praças e ruas cheias de crianças são mapas invisíveis de desigualdade. Há quem corra livre entre árvores e bancos, mochila ao ombro, riso solto no ar. E há quem conheça apenas corredores estreitos de prédios, quintais vazios, ruas onde o som dos passos se repete sempre igual. O espaço não é neutro. Cada brinquedo, cada campo de jogo, cada biblioteca aberta é uma possibilidade. Cada ausência é uma decisão já tomada. Antes de saber pedir, o mundo já distribui o possível. A infância aprende cedo que nem todos os corpos ocupam o mesmo lugar. No parque, algumas crianças falam de aulas de música, viagens, atividades depois da escola. Outras ocupam o tempo com o que existe: pedras que viram jogos, muros que viram pistas, paus que desenham caminhos no chão. Nada disso aparece como injustiça imediata. Mas acumula-se como diferença. Fora da escola, a aprendizagem continua noutro registo. A rua ensina leitura de ambientes. A casa ensina responsabilidade precoce. Os irmãos mais no...