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Entre Goa e o tempo

 

Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas.

O meu avô foi lá buscar a minha avó.

Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta.

Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas.

A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem descreve o clima. Mas a minha mãe começou a recusar essa ideia.

Primeiro foram pequenas recusas. Depois uma firmeza que não precisava de explicação. Um dia disse apenas que não.

Não houve porta a bater nem grito de rutura. Houve silêncio na mesa, o tipo de silêncio que não se levanta, mas pesa. Durante meses, o nome dela circulou menos. Depois voltou a circular de outra forma. Conheceu o meu pai numa vida já fora desse contexto. Gostou dele sem dramatismo, sem destino anunciado. E casou.

Na família houve resistência, sim, mas também um acordo tácito que não se dizia em voz alta: ele era goês. Isso bastava para manter uma linha de continuidade, mesmo que já não fosse a mesma.

Quando chegou a minha vez, já ninguém falava em destinos como antes. Mas o hábito das perguntas permaneceu. O meu pai olhou para mim como quem repete uma pergunta que nunca foi sua:

— Se pretendes casar pela igreja, antes de viver com alguém?

A frase ficou suspensa entre nós. Não havia ninguém na equação. Só a ideia dela. Uma estrutura antiga à espera de resposta nova. Eu olhei para a mesa, para o copo de água, para o espaço entre nós. E disse que não.

Disse que queria primeiro viver o quotidiano — o banal, o repetido, o que não cabe em cerimónias. Queria saber como é alguém quando não está a tentar ser visto. Queria perceber o que sobra quando a expectativa desaparece, no mundo fora do pais das tradições, aonde ouvimos tantas maldades.

E assim foi. Vivi com quem escolhi. Aprendi os ritmos pequenos: a loiça deixada de lado, o silêncio de manhã, o modo como duas pessoas ocupam o mesmo espaço sem se anularem. Só mais tarde, penso no casamento, não como destino, mas como consequência.

Agora olho para as minhas primas. Duas irmãs. Que sempre habitaram a mesma casa, que tiveram a mesma educação e passagem das tradições do próprio pais.

Uma está noiva por proposta. Vi o anel antes de ouvir a história. O gesto já tinha acontecido antes da narrativa chegar a mim.

A outra saiu do pais, para estudar, formar. E agora vive com o homem que escolheu. Mas ainda fala em casamento como quem fala de uma porta que não sabe se abre ou se fecha. Algo que existe, mas ainda não decidiu o seu lugar.

E percebo, com uma clareza lenta, que nada desapareceu.

Só mudou de forma.

O meu avô trouxe uma mulher de Goa como destino.

A minha mãe recusou esse destino, não de forma violenta, mas definitiva.

Eu não rompi nem repeti. Negociei.

E as minhas primas vivem nesse espaço onde já não há imposição, mas ainda há gravidade. Onde a escolha existe, mas nunca é totalmente leve.

Entre Goa, Moçambique e a Europa, não há rutura.

E talvez seja isso a tradição: não o que permanece igual, mas o que continua sem decidir o destino.

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