À meia-noite, as velas acenderam-se sozinhas. Na cave, sete pessoas formaram um círculo em redor de um berço vazio. No centro, uma mulher de branco segurava um espelho antigo, coberto por manchas escuras. Ninguém pronunciava o seu nome. Naquela aldeia, acreditava-se que o ritual do Nascimento permitia trazer de volta aquilo que nunca deveria ter partido. — Quando ouvirem o primeiro choro, não olhem para o berço — avisou a mulher. As palavras foram acompanhadas por três pancadas vindas do interior da madeira. Uma. Duas. Três. O chão estremeceu. As velas apagaram-se, e um cheiro a terra molhada invadiu a cave. Então, ouviu-se um choro de bebé. Todos baixaram a cabeça. Todos, menos Tomás. O rapaz espreitou para o berço e viu uma criança minúscula, de pele cinzenta e olhos completamente negros. A criatura sorriu-lhe. Não tinha dentes, mas Tomás ouviu-os ranger dentro da própria cabeça. — Mãe? — perguntou a criança. A mulher de branco deixou cair o espelho. O vid...
Na aldeia, ninguém falava do ritual depois do pôr do sol. Chamavam-lhe apenas a Coroação. Helena e Sérgio perseguiam lendas juntos desde pequenos. Numa noite de outubro, decidiram visitar o castelo abandonado onde, segundo os antigos, dois vivos eram chamados de cem em cem anos. Encontraram as portas abertas, tochas acesas e um trono negro. Sobre ele repousava uma coroa de ouro envelhecido. As portas fecharam-se atrás deles. Uma figura encapuzada surgiu da escuridão. Ergueu um braço na direção de Helena. As chamas inclinaram-se, obedientes. Depois, apontou para Sérgio. — O reino recorda-se. A coroa ergueu-se e pousou sobre a cabeça de Helena. Por um instante, ela viu centenas de rostos: crianças afogadas, soldados esquecidos, mulheres enterradas sem nome. Todos a observavam em silêncio, aguardando uma decisão que ela não compreendia. Sérgio caiu de joelhos, sufocado por mãos invisíveis. — Não! — gritou Helena. A figura aproximou-se. — Escolhe. — Não escolho ning...