Helena e Sérgio partiram antes do amanhecer, levando consigo uma dor que, ao longo dos últimos cinco anos, se instalara em cada divisão da casa, à mesa durante as refeições e até entre os lençóis, onde o silêncio se tornara mais pesado do que qualquer palavra. Desde o acidente que lhes roubara a filha, nenhum dos dois conseguira verdadeiramente regressar à vida, e a peregrinação fora ideia de Helena, convencida de que uma antiga promessa de família, escrita num caderno herdado da avó, os conduziria finalmente ao descanso. Segundo aquelas páginas amareladas, quem levasse a própria culpa até ao santuário poderia encontrar a paz que os vivos já não conseguiam oferecer. Ao cair da tarde, quando as pernas começavam a ceder ao cansaço, avistaram uma menina junto a uma capela abandonada. Vestia um casaco vermelho e segurava uma boneca sem cabeça, cuja saia esvoaçava ao vento. Helena parou de repente, sentindo o coração bater-lhe contra as costelas, porque reconheceu naquele rosto a mesma ...
Helena desejava um filho havia tanto tempo que já não conseguia entrar num quarto vazio sem sentir a ausência de alguém. Quando uma mulher desconhecida lhe falou de um antigo ritual de fertilidade, aceitou sem hesitar. À meia-noite, enterrou um vestido de bebé junto à figueira do jardim. Sérgio derramou água sobre a terra enquanto ela repetia as palavras ensinadas pela estranha. — O que a terra recebe, a terra devolve. Naquela noite, Helena sonhou com uma criança que a chamava mãe. Um mês depois, estava grávida. A felicidade durou pouco. A barriga crescia depressa demais. Os movimentos eram violentos, quase desesperados. Por vezes, sentia pequenas mãos a pressionar-lhe as costelas pelo lado de dentro. Ao quinto mês, acordou a gritar. Sobre a pele do ventre formavam-se relevos. Dedos. Rostos. Bocas. Como se várias crianças procurassem saída ao mesmo tempo. Sérgio levou-a ao hospital. Os médicos não encontraram explicação. Nessa noite, Helena desenterrou o vestido de bebé. De...