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Mensagens

O Mapa e a Lanterna

Havia uma estrada antiga que atravessava uma floresta. Era estreita, feita de pedras gastas e silêncio. Em alguns trechos, desaparecia quase por completo debaixo das folhas húmidas. Noutros, as raízes levantavam o chão, obrigando quem passava a escolher com cuidado onde pousava os pés. De um lado, corria água. Acompanhava a estrada devagar, como quem caminha ao lado sem pedir atenção. À superfície, o céu surgia em fragmentos entre as copas. Bastava um sopro de vento para desfazer o reflexo em pequenas ondas que morriam junto à margem. Do outro lado, erguiam-se árvores muito altas. Os troncos subiam direitos e escuros, perdendo-se na folhagem. Eram tão altos que escondiam o horizonte. Ao longe, entre os troncos, brilhava uma pequena luz. Não se sabia de onde vinha. Nem para onde levava. Duas pessoas caminhavam pela estrada. Tinham chegado ali vindas de caminhos diferentes, mas há muito que aprenderam a caminhar juntas. Cada uma trazia consigo uma história que a outra não...
Mensagens recentes

O Movimento do ser

 dia 26 de setembro, pelas 18H, no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada O sexto volume das Revistas OFÉLIA está no mundo! Numa coletânea que junta mais de 50 vozes, com o tema “as flutuações do ser”, esta nova revista é prova de que a poesia continua viva. Titulo do meu poema: "O Movimento do ser"

Não Abrir - desafio a 4 mãos, 2 autoras

  A dentadura reapareceu na gaveta das meias, três dias depois de ter desaparecido. Ninguém sabia explicar como tinha ido ali parar, muito menos de onde vinha aquele som do mar — ondas a rebentar contra a areia, cada vez mais próximas, embora a praia mais perto ficasse a dezenas de quilómetros Rita entrou de manhã para limpar o quarto, como fazia todos os dias. Levava o pano do pó no bolso do avental branco e a vassoura na mão. Ouviu um ruído ao pisar e, quando olhou para o chão, viu-o coberto de areia. O som persistente das ondas chegava-lhe aos ouvidos e, surpreendida, disse em voz alta: — Estou a ouvir o mar! Ficou imóvel, apertando o cabo da vassoura. O som vinha de dentro do quarto, mas não havia janela aberta, nem vento, nem explicação para a areia espalhada pelo chão. Ajoelhou-se para a apanhar e viu algo a brilhar junto à cama. Era uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo. Pegou-lhe com cuidado e limpou a areia com o polegar. Na imagem, uma mulher estava sentada prec...

A Abundância Possível

Há uma ideia que, de vez em quando, me atravessa o pensamento: será que podemos ter várias coisas boas ao mesmo tempo?   Parece uma pergunta simples. Talvez. Mas basta olhar à nossa volta para perceber que muitas vezes vivemos como se existisse uma espécie de contabilidade invisível, onde nada nos é dado sem que alguma coisa tenha de ser retirada. Se temos amor, já é muito. Se temos saúde, não podemos pedir mais. Se temos dinheiro suficiente para viver, não devemos desejar sorte. Se temos uma família, não podemos queixar-nos da solidão.   Se temos trabalho, não devemos desejar tempo.   E, se alguma coisa corre demasiado bem, há sempre aquela voz, dentro ou fora de nós, que parece dizer: cuidado, porque alguma coisa virá cobrar a diferença. Talvez tenhamos aprendido isto desde cedo. Aprendemos a desconfiar da felicidade demasiado prolongada. A dizer "não me posso queixar" mesmo quando alguma coisa nos dói. A esconder um desejo porque alguém pode achar que já temos mais do ...

Quatro Dias numa Aldeia

 

VOLTA: Entre a Boa Intenção e a Realidade

       Há ideias que parecem certas à partida. Tão certas que quase não ousamos questioná-las. Reciclar é uma delas. Devolver uma embalagem, recuperar o dinheiro que pagámos por ela e permitir que volte a ser matéria-prima parece, à primeira vista, uma solução simples, justa e até antiga. O sistema Volta nasceu precisamente dessa lógica: pagar um depósito por determinadas garrafas e latas, devolvê-las depois e recuperar os dez cêntimos. Uma ideia que, curiosamente, não é assim tão moderna. Em Portugal, já conhecemos há décadas o princípio da garrafa que se devolvia, porque tinha valor. O que mudou foi a tecnologia, a escala e, sobretudo, o tipo de embalagens. A intenção é boa. Mas uma boa intenção não chega para fazer funcionar um sistema. Quando colocamos uma garrafa numa máquina Volta, ela é identificada pelo código de barras, aceite e compactada. Depois segue para centros de contagem e triagem e, posteriormente, para reciclagem. O objetivo é conseguir matéri...