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-O Rasgo para "Rasgar o Estado de Ser" - Ofélia em Poesia

 
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O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10

   

O menino que guardava o mar

Era uma vez uma criança chamada Tomás, que vivia numa aldeia onde o horizonte era feito de montes suaves e campos dourados. Para ele, o mundo terminava ali — no ponto onde o céu parecia pousar sobre a terra. O avô falava-lhe muitas vezes do mar: descrevia-o como uma água sem fim, inquieta como um coração cheio de segredos. Tomás imaginava-o à noite, deitado na cama: ora um monstro azul a respirar devagar, ora um espelho gigante onde o céu se deitava para descansar. Nunca sabia ao certo se devia ter medo ou curiosidade. Um dia, a mãe disse-lhe: “Vamos viajar.” Havia um brilho diferente nos olhos dela, como se guardasse uma surpresa antiga. Partiram por estradas que pareciam não acabar, e Tomás, com uma concha pequena que o avô lhe dera — “para quando vires o mar” — apertada na mão, tentava adivinhar o que os esperava. O ar começou a mudar. Tornou-se mais salgado, mais vivo, como se tivesse memória. Tomás sentiu o coração bater mais depressa. Quando chegaram, a mãe pediu-lhe que fechasse...

Meio Século

À beira dos cinquenta caminho assim, Com histórias guardadas em mim. Algumas de riso, outras de batalha, Dias de sol, noites de falha.         Carrego no peito o que não arrefeceu, Sonhos antigos que o tempo não perdeu A vida rascunha em passos e trilhos, Entre erros, coragem e pequenos brilhos.   Não sou ainda o homem do fim da estrada, Sou ponte entre o ontem e a nova jornada. E às vezes descubro, quase sem saber, Que ainda há muito de mim para conhecer.   Se alguns fios brancos vierem pousar, Serão como neve, a chegar devagar Sobre os caminhos que a vida gravou, Marcas discretas de tudo o que sou.   Escrevo memórias em dias serenos, Da casa, da vida, dos laços pequenos. E percebo, afinal, quase sem notar, Foi isto que sempre quis guardar.   À beira dos cinquenta, não no fim, mas onde o curso abranda dentro de mim. Meio século feito, sem pedir perdão, e ainda caminho, com o resto na mão. ...

Mistério no Mar (88 palavras)

De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.

Mar de Fundo

Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurante ...