Helena e Sérgio tinham uma tradição peculiar: todos os anos, na noite de 31 de outubro, preparavam um pequeno ritual para celebrar a vida. Não era superstição, diziam, mas uma forma de agradecer tudo aquilo que tinham conseguido preservar, apesar das dificuldades. A doença de Helena, o desemprego de Sérgio, a casa que quase perderam — tudo ficara para trás, ou assim gostavam de acreditar. Nesse ano, Sérgio encontrou uma caixa de madeira numa feira de antiguidades. Dentro havia uma fotografia desbotada, um molho de chaves enferrujadas e um bilhete: Nunca agradeças três vezes àquilo que não consegues ver. Helena achou a frase estranha. Sérgio, divertido, decidiu incorporá-la no ritual. À meia-noite, apagaram as luzes, acenderam uma vela e fizeram três brindes ao futuro. No primeiro, ouviram um estalido no corredor. No segundo, a porta da cozinha abriu-se lentamente. No terceiro, alguém bateu à porta da rua. Sérgio espreitou pelo óculo. Não viu ninguém. Quando se afastou, ...
À meia-noite, as velas acenderam-se sozinhas. Na cave, sete pessoas formaram um círculo em redor de um berço vazio. No centro, uma mulher de branco segurava um espelho antigo, coberto por manchas escuras. Ninguém pronunciava o seu nome. Naquela aldeia, acreditava-se que o ritual do Nascimento permitia trazer de volta aquilo que nunca deveria ter partido. — Quando ouvirem o primeiro choro, não olhem para o berço — avisou a mulher. As palavras foram acompanhadas por três pancadas vindas do interior da madeira. Uma. Duas. Três. O chão estremeceu. As velas apagaram-se, e um cheiro a terra molhada invadiu a cave. Então, ouviu-se um choro de bebé. Todos baixaram a cabeça. Todos, menos Tomás. O rapaz espreitou para o berço e viu uma criança minúscula, de pele cinzenta e olhos completamente negros. A criatura sorriu-lhe. Não tinha dentes, mas Tomás ouviu-os ranger dentro da própria cabeça. — Mãe? — perguntou a criança. A mulher de branco deixou cair o espelho. O vid...