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Mensagens

Fazer anos

Fazer anos é ganhar tempo dentro da alma. É aprender a olhar melhor as pessoas, a entender um pouco mais os silêncios do coração e os mistérios simples da vida. É descobrir que vale mais construir do que destruir, amar mais do que odiar, e viver o agora, porque é nele que a vida realmente acontece. Fazer anos é ver flores no caminho e escolher não pisá- las. É tornar- se mais paciente, mais generoso com o mundo e mais humilde consigo mesmo. É fechar ciclos antigos e abrir portas para novas experiências. É perceber que poucos amigos verdadeiros valem mais do que multidões. Hoje, dia 13, sexta- feira , um dia especial na minha vida,  agradeço. Agradeço pela vida que tenho, pela família, pelos amigos que vivem no meu coração e pelos anjinhos que sempre me acompanham. Que hoje se acenda mais uma pequena luz no caminho de mais um ano de vida. Com paz, gratidão e felicidade.
Mensagens recentes

A Herança das Mulheres

Hoje, as mulheres caminham com os pulsos livres. Nem sempre foi assim. O celular vibra na palma, o autocarro passa sem esperar, o dia corre antes de nós. Mas há ecos que chegam de longe, de corpos que antes suportavam tudo em silêncio, de mãos calejadas de sabão e frio, de ombros curvados pelo peso que nunca se dizia, de vozes caladas. As avós, as bisavós, as mulheres que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, conheciam outra medida do tempo. O corpo era território de comando alheio: tarefas sem fim, filhos para cuidar, trabalho sem contrato, silêncio imposto. O cansaço não era desculpa; era lei. Aprendiam cedo que obedecer era sobreviver, que sorrir era negociar dignidade. Cada gesto de resistência era mínimo: um olhar que durava, um passo que se recusava a dobrar-se, uma mão que segurava outra em segredo. Pequenos atos que, somados, criaram história. Ainda sentimos a herança no corpo. No trabalho, microagressões atravessam o dia. Elogios que escondem exigência...

Puzzle - a peça do desafio das letras

A antiga peça apareceu sobre a mesa numa madrugada imóvel, como se tivesse sido deixada por mãos que recusavam ser lembradas.  Era redonda, do tamanho exato de uma moeda grande, discreta demais para dominar o tabuleiro, mas impossível de ignorar.  A superfície mostrava um vermelho desbotado, atravessado por uma linha dourada que não conduzia a lado nenhum. Ao toque, era fria, feita de cartão espesso, com as bordas gastas como se tivesse viajado por lugares que ninguém ousaria nomear. Em redor, quase completo revelava um céu estranho, um sol pálido, uma lua vigilante e sombras que lembravam criaturas antigas.  No centro, porém, permanecia o vazio reservado àquela peça circular, deslocada de todas as outras, como se tivesse sido criada para um enigma diferente.   Cada tentativa de encaixe falhava antes mesmo de começar.  A peça rodava, recusava, parecia antecipar o erro das mãos que a guiavam. Havia nela uma resistência silenciosa, uma recusa que não era físi...

Agarrar o sonho

 

Um obrigada a quem proporcionou uma noite maravilhosa

A Lapa não é para todos.  Casas antigas, de outro tempo, onde o pé-direito alto obriga a levantar o olhar e a baixar o tom. Sancas desenhadas à mão, portas pesadas, janelas de madeira que já viram décadas. Paredes cheias, não minimalistas, mas vividas. Quadros, pinturas, bonecos herdados, fotografias a preto e branco, pratos decorativos, livros gastos, CDs arrumados como quem ainda acredita no objeto. Tapetes de Arraiolos no chão. E, como centro moral da sala, um piano de cauda. Ali não há pressa. Há história. Jantar demorado, comida feita com intenção pelas mãos do filho, nada de invenções vazias, tudo delicioso. Conversa limpa, olhos atentos, gente que sabe estar. Encanto não se compra, constrói-se assim, camada sobre camada. E depois, silêncio. Francisco Sassetti (famoso pianista), ao piano com duas músicas e “Amélie”. As primeiras notas, delicadas, mas firmes. Não é música para impressionar, é música para tocar onde dói e onde cura. O piano respira. A sala encolhe...

Duplicada

Desafio da FDT - Partilhas:              Clara entrou no laboratório. O ar parecia sólido, mas quente demais, grudando na pele. À frente, cápsulas alinhadas, cada uma com uma versão dela, imóveis, perfeitas demais. Um sussurro atravessou a sala. Não vinha de lugar algum. Era sua própria voz, mas dizendo coisas que ela nunca pensara, lembranças que não eram suas. Ela piscou. Uma das cópias piscou meio segundo antes dela. O chão tremia, ou seria sua cabeça? Passos ecoaram, mas nenhum som chegou aos ouvidos. Tocou o vidro da última cápsula. Uma mão fria agarrou seu ombro. Virou-se. Não era uma presença, eram muitas. Olhos imóveis, atentos, pesando cada gesto, aguardando o instante exato. Os pensamentos estilhaçaram-se, dispersos como cinza ao vento. Quem delas sou? Quem vai permanecer? O riso dela, mas não dela, percorreu o ar. Na escuridão crescente, a primeira réplica falou, lenta: “Você sempre foi a última a perceber.” 

O que está dentro da gaveta?

A gaveta estava ali havia anos. Imóvel. Fechada. Silenciosa como um funcionário público às 16h59. Pertencia à cómoda da sala, aquela que a minha mãe dizia ser “de boa qualidade”, expressão que no nosso país significa apenas que pesa o suficiente para não ser roubada. Ninguém abria a terceira gaveta. A primeira tinha toalhas. A segunda, documentos importantes e três carregadores de telemóvel que não pertenciam a aparelho algum. Mas a terceira… era território proibido. Sempre que alguém perguntava “O que está na gaveta?”, a resposta vinha seca: “Depois vês.” Cresci com esse “depois vês” a ecoar na cabeça como um feitiço doméstico. Podia significar tudo, desde “há um tesouro” até “há contas por pagar”. A imaginação fazia o resto: mapas do tesouro, cartas de amor capazes de destruir casamentos, talvez o mítico ouro que o tio Patinhas jurava ter visto, mas que ninguém confirmou. Um domingo, depois do almoço, altura sagrada em que todos dormem a sesta e até o relógio pa...

A Estrada Não Perdoa

As estradas podem ser boas ou más. Há as novas, lisas, confiantes. Há as gastas, cheias de remendos e memória. Mas nenhuma estrada corrige a distração de quem conduz. O que decide nunca é apenas o piso, é o gesto. Um olhar que falha. Um segundo a mais. Um segundo basta. Conduz-se hoje como se o carro pensasse por nós. Entra-se, roda-se a chave, e parte-se. Poucos verificam pneus, óleo, travões. Confia-se que tudo funcione porque ontem funcionou. A máquina anda, logo está segura. Mas a segurança não é automática. É um hábito consciente que se renova todos os dias e que muitos deixaram cair. Na chuva e no nevoeiro, a estrada enche-se de sombras em movimento. Carros sem luzes. Outros apenas com mínimos, invisíveis atrás, como se não existissem. Avançam a velocidades incompatíveis com o que os olhos conseguem realmente captar. Pergunto-me se veem o caminho ou conduzem-se por memória, como quem atravessa um quarto escuro de olhos fechados, convencido de que nada mudou desde ontem. Os ...

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...

O Segundo Apagão

       Vivemos convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.      Até ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que escurece o céu e pesa por dentro.      A luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.      Na rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão está ali, ainda quente. A água também. Mas não h...

A Hora em Que a Casa Respira

 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...