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Mensagens

A Prova Doce

Dinâmica da Luz das Luzes com 5 palavras à escolha: Quarto, quinze, quente, quidim, queixo.  Com o gato e cadela no colo e o tablet, ao ajustar desapareceu-me o texto. Quando fui a ler, ainda não tinha encontrado.  Encontrei hoje de manhã, como rascunho do word.  Aqui está ele:     No velho prédio onde o tempo rangia mais do que as escadas, e rangia com gosto, havia um quarto que ninguém queria alugar. Não por fantasmas. Isso ainda dava prestígio. Era pior: havia insistência… doce. Por apenas quinze moedas e um sorriso que já tinha visto demasiadas histórias, o senhorio entregou a chave ao Artur. — Alguma coisa que eu deva saber? — perguntou. — Enquanto houver ploc , há futuro — disse o senhorio. — E enquanto houver futuro… há renda. O calor lá dentro era quente de um modo quase pessoal. Não aquecia — pressionava. Primeira noite: ploc… ploc… ploc . Na mesa: um quidim perfeito. — Falta alma — disse Artur, após provar, como se tivesse sido nomead...
Mensagens recentes

Bodas de Ouro - Chico e Inha

                 Cinquenta anos não são acaso.   São casa firme, construída devagar, são mãos que nunca largaram o laço, mesmo quando o mundo parecia desabar.   São passos dados lado a lado,   no sol ardente e na noite fria. É o “sim” mantido, renovado, na força simples de cada dia.   Sempre prontos. Sem alarde.   Sempre firmes. Sem vaidade. Presentes cedo, presentes tarde, fiéis à mesma verdade.   Não foram feitos de fantasia,   mas de trabalho, riso e cansaço. Foram coluna. Foram guia. Foram abrigo. Foram abraço.   E eu, que cresci à vossa beira,   desde o início desta jornada, trago-vos como raiz primeira, como porto seguro da minha estrada.   Foram padrinhos de promessa inteira,   segundos pais no gesto e no cuidado. Amigos de vida verdadeira, amor provado e confirmado.   Cinco décadas de chão vivido,   de lu...

Entre Goa e o tempo

  Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...

Sementeira Vermelha

 

Subsolo Vivo

A semente veio escondida na terra — mas, olhando para trás, suspeito que já estivesse em mim. Antes disso, houve sinais. Uma comichão persistente nos dedos, sob as unhas. Sonhos viscosos, sem forma: terra húmida, dentes a romper no escuro. Acordava cansado. As mãos, sujas. Plantei-a na mesma. Talvez por hábito. Talvez por obediência. No primeiro dia, nada. No segundo, um rebento pálido. No terceiro, sangue — espesso, quente, familiar. Continuei a regar. Não por cuidado, mas por impulso. Um gesto antigo, automático, como se algo em mim reconhecesse o que nascia. As folhas surgiram com veias finas. Pulsavam. E eu comecei a sentir o mesmo. À noite, ouvia um som húmido. Mastigar lento. Dentro de mim, uma resposta. No quinto dia, acordei com dor. O dedo aberto, a carne exposta. A planta inclinava-se na minha direcção. Quase terna. Veio o medo. Logo depois, a raiva. Tentei arrancá-la. As raízes não eram raízes. Eram dedos — brancos, tensos, enterrados com desespero. Quando puxei, senti resis...

A Guerra e o Poder

  A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto. Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável. O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença. Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos. Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já est...

A Risada Culinária - Luz das Luzes

Eu acordei convencida de que era um génio… até tentar abrir uma lata com uma colher e quase declarar guerra à cozinha. A minha vida tem esse dom: transformar as tarefas simples em aventuras ridículas. A verdade é que acordei com aquela confiança inflamada que só dura até ao primeiro objeto doméstico se revoltar. A colher entortou como se estivesse a desistir da vida, a lata fez um som de escárnio e o gato, sentado na bancada, inclinou a cabeça com a superioridade moral de quem já viu demasiado. Ele é que lambe as paredes, e aparentemente se acha no direito de avaliar as minhas escolhas. Grécia apareceu-me no pensamento sem razão, talvez porque também lá inventaram tragédias, e eu estava prestes a protagonizar uma. Decidi cozinhar algo “sofisticado” e acabei a discutir com uma cebola, que me venceu claramente. Enquanto me fazia chorar com a crueldade de um vilão clássico, imaginei um coro grego a narrar o meu fracasso culinário. A cebola escorregava das mãos como se tivesse vida própr...

Os Pequenos que Observam o Mundo

As praças e ruas cheias de crianças são mapas invisíveis de desigualdade. Há quem corra livre entre árvores e bancos, mochila ao ombro, riso solto no ar. E há quem conheça apenas corredores estreitos de prédios, quintais vazios, ruas onde o som dos passos se repete sempre igual. O espaço não é neutro. Cada brinquedo, cada campo de jogo, cada biblioteca aberta é uma possibilidade. Cada ausência é uma decisão já tomada. Antes de saber pedir, o mundo já distribui o possível. A infância aprende cedo que nem todos os corpos ocupam o mesmo lugar. No parque, algumas crianças falam de aulas de música, viagens, atividades depois da escola. Outras ocupam o tempo com o que existe: pedras que viram jogos, muros que viram pistas, paus que desenham caminhos no chão. Nada disso aparece como injustiça imediata. Mas acumula-se como diferença. Fora da escola, a aprendizagem continua noutro registo. A rua ensina leitura de ambientes. A casa ensina responsabilidade precoce. Os irmãos mais no...

-O Rasgo para "Rasgar o Estado de Ser" - Ofélia em Poesia

 

O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10