O funeral estava marcado para as onze. Quando Helena chegou à capela, Sérgio esperava-a junto a um caixão fechado. — Quem morreu? — Não sei. Seis cadeiras vazias, flores sem dedicatória e um padre imóvel completavam a estranha cerimónia. Sobre uma mesa, um livro de presenças continha sete nomes. O último era o de Helena. — Vamos embora. Sérgio tentou abrir a porta. Do outro lado, havia apenas uma parede de pedra atravessada por raízes. — Falta o último adeus — anunciou o padre. O caixão estalou. Sérgio pousou a mão na tampa. Três pancadas responderam. Helena reconheceu o ritmo: era o sinal que usava em criança para chamar a mãe, morta havia vinte anos. O padre começou a rezar. As velas diminuíram, sem perder a cera. — Seja quem for, já morreu — disse Helena. — Ainda não. A tampa deslizou. Dentro, havia um vestido preto — o que Helena vestia — e uma fotografia dos dois, tirada naquela manhã. Atrás deles, o padre segurava uma pá. No fundo do caixão, havia ...
À meia-noite, Helena encontrou Sérgio sentado diante de uma mesa de madeira. Sobre ela, havia uma taça de água, três velas brancas e um livro encadernado em pele, sem título na capa. — O que estás a fazer? — perguntou. Sérgio passou o dedo por uma página amarelada, coberta de nomes escritos a tinta vermelha. Alguns estavam riscados. Outros pareciam ter sido escritos naquela noite. — Um ritual de Nomeação — murmurou. — Aquilo a que damos um nome deixa de poder esconder-se. Helena reconheceu o livro. Na semana anterior, encontrara-o aberto no quarto. Quando perguntara a Sérgio de quem era, ele jurara nunca o ter visto. — Que nome procuras? Ele demorou a responder. — O verdadeiro nome daquilo que nos persegue. Desde a morte daquela mulher, três meses antes, ouviam passos no corredor durante a noite. Por vezes, uma voz chamava Helena do interior dos armários. Outras vezes, Sérgio acordava com marcas de dedos no pescoço. Ele começou a ler os nomes em voz alta. A cada...