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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Juramento

Helena e Sérgio amavam-se desde a adolescência. Na noite em que decidiram selar o futuro, regressaram à capela abandonada onde, em crianças, tinham inventado um ritual: um corte na palma da mão, três gotas de sangue sobre a pedra do altar e um juramento de fidelidade até à morte. — Se um de nós partir primeiro, o outro não ficará sozinho — prometeu Sérgio, apertando-lhe os dedos. Helena sorriu e repetiu as palavras. Do lado de fora, o vento percorreu os pinheiros com um murmúrio estranho, mas nenhum dos dois lhe deu importância. Dez anos depois, Sérgio morreu num acidente de automóvel. Na noite do funeral, Helena não suportou o silêncio da casa. As fotografias pareciam olhar para ela. A cama era demasiado grande. O futuro, demasiado vazio. Sem saber bem porquê, voltou à velha capela. Levava uma faca no bolso e uma dor que mal conseguia respirar. Ajoelhou-se diante do altar de pedra, abriu novamente a palma da mão e deixou cair três gotas de sangue sobre a superfície escurec...
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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Passagem

Helena tinha sete anos quando a avó a levou pela primeira vez ao rio. Era Inverno. A água corria escura entre as pedras e a névoa pairava rente à margem, escondendo a outra banda numa massa branca e imóvel. — Nunca fiques aqui depois do pôr do sol — avisou a velha. Helena perguntou porquê, mas a avó demorou tanto tempo a responder que a menina acabou por esquecer a pergunta. Anos mais tarde, quando a avó morreu, Helena herdou a casa e as terras junto ao rio. Nunca mais pensou naquele aviso. Até à noite em que viu alguém na outra margem. Estava a fechar as portadas da sala quando reparou na figura. Era uma mulher, imóvel, com o rosto oculto pela névoa. Na noite seguinte, regressou. E na outra também. Sempre à mesma hora. Sempre em silêncio. Quando comentou o assunto com Sérgio, ele aproximou-se da janela e espreitou a margem. — Não está lá ninguém. Helena não respondeu. A mulher continuava ali. Na quarta noite, pegou numa lanterna e desceu até ao rio. O frio mo...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Proteção

Helena nunca saía de casa sem tocar três vezes no medalhão que trazia ao pescoço. A mãe colocara-lho quando ela ainda era criança. — Enquanto o usares, ninguém te encontra. Durante anos, nunca questionou aquelas palavras. O gesto tornou-se um hábito tão natural como fechar a porta ao sair ou apagar a luz antes de adormecer. Só deu pela falta do medalhão numa tarde chuvosa de outubro. Levou a mão ao peito. O cordão desaparecera. Voltou atrás, refez o caminho, revistou bolsos, gavetas e até o carro. Não o encontrou. Nessa noite sonhou com um corredor interminável. Caminhava sozinha por uma sucessão de portas fechadas enquanto, atrás de si, alguém avançava no mesmo ritmo. Nunca acelerava. Nunca falava. Limitava-se a segui-la. Acordou antes de o ver. Na manhã seguinte encontrou uma fotografia caída no chão da sala. Não se lembrava de a ter visto antes. Mostrava a casa onde crescera. As janelas estavam escuras e o jardim parecia abandonado. À primeira vista não havia nada de e...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Promessa

Helena tinha dez anos quando prometeu à mãe que nunca abriria a porta do quarto ao fundo do corredor. — Mesmo que ouças alguém chamar por ti — dissera-lhe, ajoelhada diante dela. — Mesmo que reconheças a voz. A mãe morreu nessa mesma semana. Durante anos, Helena evitou aquele quarto. A porta permaneceu fechada. Não tinha chave, nem fechadura visível. Sérgio nunca perguntara o que existia do outro lado. Até à noite em que começaram as pancadas. Três golpes secos. Sempre à mesma hora. Duas e treze da madrugada. Na quarta noite, Helena acordou com uma voz que não ouvia desde a infância. — Minha filha. Sentou-se na cama, com o coração a bater descompassado. Sérgio continuava a dormir ao seu lado. — Helena, abre-me a porta. A voz vinha do fundo do corredor. Era a voz da mãe. A mesma doçura cansada. A mesma forma de prolongar a última sílaba do seu nome. Levantou-se e caminhou até ao quarto proibido. Por baixo da porta, uma linha de luz tremia sobre o soalho. — Prometeste —...