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Saborear o Momento - Ofélia em Poesia

 
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Meu Pequeno Resmungão

Sentavas-te no alto, como quem vigiava um reino que só tu conhecias. A janela era o teu posto. O sofá, o teu trono. E aquele olhar meio fechado, entre sério e desconfiado, era a tua maneira de dizer: "Está tudo em ordem. Eu estou a tomar conta." Nunca foste o gato que pedia colo nem mimos. Nem o que seguia cada passo nosso. Eras feito de vontade própria, de aventuras inesperadas, de arranhadelas, de resmungos e de uma personalidade impossível de esquecer. Houve dias em que nos fizeste rir. Outros em que nos pregaste partidas. E muitos em que fingias que não precisavas de ninguém. Mas precisavas. E nós também. A vida foi deixando marcas no teu corpo. Mazelas que nunca escolheste. Batalhas silenciosas que foste enfrentando sem nunca perderes aquilo que fazia de ti... um Ginger Lince. O teu resmungo. Que tantas vezes nos fazia sorrir e que hoje daríamos tudo para voltar a ouvir. Lutaste o tempo que conseguiste.Nós lutámos contigo. Fomos contigo ao veterinár...

Correspondência no Escuro

  Na zona antiga da cidade, onde as paredes acumulavam sal e memórias que já ninguém sabia nomear, existia uma associação discreta instalada num piso alto. As janelas estreitas deixavam entrar uma luz filtrada, que parecia ter atravessado demasiados invernos. O interior cheirava a papel envelhecido, madeira encerada e chá leve. Ali não se falava alto. Tudo existia com a paciência de quem sabe que certas coisas só duram quando não são apressadas. Uma vez por ano reunia-se um pequeno grupo de pessoas vindas de geografias diferentes para um exercício pouco comum: escrever a alguém desconhecido. Chamavam-lhe "Amigo Secreto". A regra era antiga na sua simplicidade. Cada participante recebia um nome ao acaso, retirado de um envelope creme, dobrado da mesma forma que todos os outros. Durante três meses, escreviam-se cartas semanais. Sem assinatura. Sem pistas evidentes. Apenas linguagem entregue a um desconhecido. O compromisso era a regularidade. O resto pertencia ao es...