Helena encontrou o manuscrito numa arca que pertencera à avó, escondido sob roupas consumidas pela humidade e retratos de familiares cujos rostos tinham sido cuidadosamente riscados. Entre páginas manchadas e margens cobertas de símbolos indecifráveis, uma frase permanecia intacta, como se tivesse resistido ao tempo por vontade própria: "Nunca chames pelo nome aquilo que não estás preparada para perder." Três meses antes, o irmão de Helena morrera afogado num lago junto à aldeia. Desde então, ela carregava a culpa de uma discussão que nunca tiveram oportunidade de resolver. Na noite marcada para o ritual, sentaram-se frente a frente na sala escura. Apenas quatro velas iluminavam o círculo desenhado no chão. Helena pronunciou o nome do irmão. Uma vez. Duas. Três. O ar tornou-se pesado. As paredes estremeceram. E uma voz ergueu-se sob o soalho. — Helena... porque me abandonaste? As lágrimas surgiram imediatamente. Era a voz dele. Não uma imitação, mas a voz ...
Helena e Sérgio partiram antes do amanhecer, levando consigo uma dor que, ao longo dos últimos cinco anos, se instalara em cada divisão da casa, à mesa durante as refeições e até entre os lençóis, onde o silêncio se tornara mais pesado do que qualquer palavra. Desde o acidente que lhes roubara a filha, nenhum dos dois conseguira verdadeiramente regressar à vida, e a peregrinação fora ideia de Helena, convencida de que uma antiga promessa de família, escrita num caderno herdado da avó, os conduziria finalmente ao descanso. Segundo aquelas páginas amareladas, quem levasse a própria culpa até ao santuário poderia encontrar a paz que os vivos já não conseguiam oferecer. Ao cair da tarde, quando as pernas começavam a ceder ao cansaço, avistaram uma menina junto a uma capela abandonada. Vestia um casaco vermelho e segurava uma boneca sem cabeça, cuja saia esvoaçava ao vento. Helena parou de repente, sentindo o coração bater-lhe contra as costelas, porque reconheceu naquele rosto a mesma ...