A chuva chicoteava as janelas da velha casa paroquial. Helena abriu o livro de exorcismos enquanto Sérgio observava a mulher amarrada à cama. Não havia compaixão no seu olhar, apenas a curiosidade metódica de quem examina um espécime raro. — Vade retro, Satana — começou Helena. — Essa passagem vem depois — corrigiu Sérgio, sem desviar os olhos da vítima. — A ordem importa. Sobretudo quando alguém está a mentir. A mulher estremeceu. Não perante o crucifixo, mas quando Sérgio se aproximou. — Afasta-o de mim! — gritou. Ele sorriu. — Interessante. De que tens medo, exatamente? A mulher começou a rir. A voz que saiu da sua garganta era grave, quase humana. — Chamas-lhe demónio porque é mais fácil do que lhe chamar memória. Helena interrompeu a oração. — Que memória? Sérgio pousou dois dedos sobre o pulso da mulher, como um médico a avaliar um doente. — A culpa é uma doença curiosa. Alguns pacientes preferem inventar monstros a reconhecer o que fizeram. A mulher deb...
O funeral estava marcado para as onze. Quando Helena chegou à capela, Sérgio esperava-a junto a um caixão fechado. — Quem morreu? — Não sei. Seis cadeiras vazias, flores sem dedicatória e um padre imóvel completavam a estranha cerimónia. Sobre uma mesa, um livro de presenças continha sete nomes. O último era o de Helena. — Vamos embora. Sérgio tentou abrir a porta. Do outro lado, havia apenas uma parede de pedra atravessada por raízes. — Falta o último adeus — anunciou o padre. O caixão estalou. Sérgio pousou a mão na tampa. Três pancadas responderam. Helena reconheceu o ritmo: era o sinal que usava em criança para chamar a mãe, morta havia vinte anos. O padre começou a rezar. As velas diminuíram, sem perder a cera. — Seja quem for, já morreu — disse Helena. — Ainda não. A tampa deslizou. Dentro, havia um vestido preto — o que Helena vestia — e uma fotografia dos dois, tirada naquela manhã. Atrás deles, o padre segurava uma pá. No fundo do caixão, havi...