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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Purificação

Helena insistia que a casa precisava de ser purificada. Desde a mudança, acordava todas as noites com o mesmo cheiro a terra molhada. Jurava ouvir passos húmidos nos corredores e uma respiração lenta junto à cama. Sérgio não acreditava em assombrações, mas aceitou ajudá-la. A receita estava num caderno antigo herdado da avó: água, sal grosso e alecrim. Segundo as notas amareladas, a mistura expulsava tudo o que não pertencia àquela casa. Quando começaram a limpar o quarto principal, a água da bacia escureceu. Sérgio espreitou o reflexo. Não viu o próprio rosto. Do fundo da água, um homem magro observava-o. Os olhos eram completamente brancos. A boca estava cosida com fios negros. Assustado, deixou cair a bacia. A água espalhou-se pelo soalho. Mas não escorreu. Subiu. Deslizou pelas paredes e pelo tecto como se a gravidade tivesse mudado de ideias, deixando marcas compridas que pareciam dedos. Helena prosseguiu o ritual. A voz tornou-se mais grave, mais antiga. — S...
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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Beleza

Helena sempre acreditara que a beleza era uma forma de sobrevivência. A avó ensinara-lho desde pequena, nas noites em que lhe penteava o cabelo diante de um espelho antigo coberto por um pano negro. Quando surgiu a primeira ruga, Helena desenterrou a receita guardada entre fotografias de família. A mistura era espessa, escura, com um perfume adocicado a flores apodrecidas. Nessa noite, Sérgio ajudou-a a aplicá-la. Na manhã seguinte, Helena parecia dez anos mais nova. Mas havia algo errado. A sua pele estava fria. Demasiado fria. E, durante o pequeno-almoço, Sérgio sentiu uma estranha ardência no rosto. As semanas passaram. Helena tornava-se cada vez mais bela. Sérgio, pelo contrário, parecia definhar. Olheiras profundas, pele baça, cabelos embranquecidos junto às têmporas. Até que uma noite acordou com ruídos vindos da casa de banho. Encontrou Helena diante do espelho. Com dedos trémulos, ela puxava uma película translúcida do rosto. A máscara soltou-se lentamente, ...

Eu estava feliz

Eu estava feliz, com a cadela a meu lado, e o gato dormindo, num sono encantado. A casa era um reino de ronrons e alegria, onde o tempo se esquecia de contar cada dia. Uma pata que toca, um focinho que vem, tantas formas de amor que não pedem vintém. Eu estava feliz, sem precisar de razão, com quatro patas a aquecer-me o coração. E se o mundo lá fora trouxesse amargura, em casa esperava-me a mais doce ternura.

As três Portas

 

Carta de Apresentação — Artista de Cruzeiro e Especialista em Gargalhadas

  Exmos. Senhores, Apresento a minha candidatura espontânea para integrar na vossa equipa de entretenimento num cruzeiro com partida do Funchal, idealmente um navio estável, mas aceito também embarcações que abanem ligeiramente, desde que o público não abane mais do que eu. Sou humorista por vocação, improvisadora por necessidade e dançarina por acidente feliz. Transformo silêncios em gargalhadas, imprevistos em números cómicos e momentos embaraçosos em histórias que os passageiros recordarão muito depois de desembarcarem. Se me pedirem para contar uma anedota, conto três; se me pedirem para dançar, danço; se me pedirem para fazer tudo ao mesmo tempo, prometo um espetáculo inesquecível, embora não necessariamente coordenado. Disponibilizo-me para funções de comédia, animação, dança, apresentação ou qualquer outro papel que envolva um palco, um microfone e um público disposto a correr riscos. Garanto entretenimento para todas as idades, incluindo aqueles que afirmam não gostar...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Exorcismo

A chuva chicoteava as janelas da velha casa paroquial. Helena abriu o livro de exorcismos enquanto Sérgio observava a mulher amarrada à cama. Não havia compaixão no seu olhar, apenas a curiosidade metódica de quem examina um espécime raro. — Vade retro, Satana — começou Helena. — Essa passagem vem depois — corrigiu Sérgio, sem desviar os olhos da vítima. — A ordem importa. Sobretudo quando alguém está a mentir. A mulher estremeceu. Não perante o crucifixo, mas quando Sérgio se aproximou. — Afasta-o de mim! — gritou. Ele sorriu. — Interessante. De que tens medo, exatamente? A mulher começou a rir. A voz que saiu da sua garganta era grave, quase humana. — Chamas-lhe demónio porque é mais fácil do que lhe chamar memória. Helena interrompeu a oração. — Que memória? Sérgio pousou dois dedos sobre o pulso da mulher, como um médico a avaliar um doente. — A culpa é uma doença curiosa. Alguns pacientes preferem inventar monstros a reconhecer o que fizeram. A mulher deb...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Funeral

  O funeral estava marcado para as onze. Quando Helena chegou à capela, Sérgio esperava-a junto a um caixão fechado. — Quem morreu? — Não sei. Seis cadeiras vazias, flores sem dedicatória e um padre imóvel completavam a estranha cerimónia. Sobre uma mesa, um livro de presenças continha sete nomes. O último era o de Helena. — Vamos embora. Sérgio tentou abrir a porta. Do outro lado, havia apenas uma parede de pedra atravessada por raízes. — Falta o último adeus — anunciou o padre. O caixão estalou. Sérgio pousou a mão na tampa. Três pancadas responderam. Helena reconheceu o ritmo: era o sinal que usava em criança para chamar a mãe, morta havia vinte anos. O padre começou a rezar. As velas diminuíram, sem perder a cera. — Seja quem for, já morreu — disse Helena. — Ainda não. A tampa deslizou. Dentro, havia um vestido preto — o que Helena vestia — e uma fotografia dos dois, tirada naquela manhã. Atrás deles, o padre segurava uma pá. No fundo do caixão, havi...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Nomeação

  À meia-noite, Helena encontrou Sérgio sentado diante de uma mesa de madeira. Sobre ela, havia uma taça de água, três velas brancas e um livro encadernado em pele, sem título na capa. — O que estás a fazer? — perguntou. Sérgio passou o dedo por uma página amarelada, coberta de nomes escritos a tinta vermelha. Alguns estavam riscados. Outros pareciam ter sido escritos naquela noite. — Um ritual de Nomeação — murmurou. — Aquilo a que damos um nome deixa de poder esconder-se. Helena reconheceu o livro. Na semana anterior, encontrara-o aberto no quarto. Quando perguntara a Sérgio de quem era, ele jurara nunca o ter visto. — Que nome procuras? Ele demorou a responder. — O verdadeiro nome daquilo que nos persegue. Desde a morte daquela mulher, três meses antes, ouviam passos no corredor durante a noite. Por vezes, uma voz chamava Helena do interior dos armários. Outras vezes, Sérgio acordava com marcas de dedos no pescoço. Ele começou a ler os nomes em voz alta. A ca...

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Expiação

À meia-noite, Helena encontrou Sérgio na cave, ajoelhado diante de um círculo de velas negras. No centro, repousava um espelho antigo, coberto de manchas escuras que pareciam mover-se sob o vidro. — O que estás a fazer? — perguntou ela. Sérgio ergueu o rosto. Tinha os olhos vermelhos e as mãos cobertas de terra. — A tentar corrigir o que fiz. Há três meses, uma mentira sua destruíra uma família. Helena conhecia a verdade, mas nunca denunciara Sérgio. Amava-o demasiado para o entregar à justiça. Desde então, ambos viviam assombrados por aquilo que tinham permitido acontecer. — Que ritual é este? — Expiação. Encontrei-o num livro antigo. Diz que toda a culpa exige um preço. O espelho estremeceu. Do outro lado do vidro, uma mulher bateu com os punhos, desesperada. Tinha a boca cosida por fios negros. Helena aproximou-se. Primeiro, reconheceu os olhos. Depois, a cicatriz junto à sobrancelha. Só então percebeu quem estava presa do outro lado do vidro. A mulher que, na úl...

Sempre livre

   A poesia não tem prisão,  nem grades que lhe calem a voz  nasce livre no coração  e abre caminhos dentro de nós.  Não pede licença ao pensar,  nem teme a noite ou a solidão  transforma o silêncio em mar  e cada palavra em canção.  Pode ser sonho ou verdade,  ou vento solto pelo ar  é liberdade sem idade,  sempre pronta a recomeçar.  

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Celebração

Helena e Sérgio tinham uma tradição peculiar: todos os anos, na noite de 31 de outubro, preparavam um pequeno ritual para celebrar a vida. Não era superstição, diziam, mas uma forma de agradecer tudo aquilo que tinham conseguido preservar, apesar das dificuldades. A doença de Helena, o desemprego de Sérgio, a casa que quase perderam — tudo ficara para trás, ou assim gostavam de acreditar. Nesse ano, Sérgio encontrou uma caixa de madeira numa feira de antiguidades. Dentro havia uma fotografia desbotada, um molho de chaves enferrujadas e um bilhete: Nunca agradeças três vezes àquilo que não consegues ver. Helena achou a frase estranha. Sérgio, divertido, decidiu incorporá-la no ritual. À meia-noite, apagaram as luzes, acenderam uma vela e fizeram três brindes ao futuro. No primeiro, ouviram um estalido no corredor. No segundo, a porta da cozinha abriu-se lentamente. No terceiro, alguém bateu à porta da rua. Sérgio espreitou pelo óculo. Não viu ninguém. Quando se afastou, ...

Depois do Finais

 

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Nascimento

À meia-noite, as velas acenderam-se sozinhas. Na cave, sete pessoas formaram um círculo em redor de um berço vazio. No centro, uma mulher de branco segurava um espelho antigo, coberto por manchas escuras. Ninguém pronunciava o seu nome. Naquela aldeia, acreditava-se que o ritual do Nascimento permitia trazer de volta aquilo que nunca deveria ter partido. — Quando ouvirem o primeiro choro, não olhem para o berço — avisou a mulher. As palavras foram acompanhadas por três pancadas vindas do interior da madeira. Uma. Duas. Três. O chão estremeceu. As velas apagaram-se, e um cheiro a terra molhada invadiu a cave. Então, ouviu-se um choro de bebé. Todos baixaram a cabeça. Todos, menos Tomás. O rapaz espreitou para o berço e viu uma criança minúscula, de pele cinzenta e olhos completamente negros. A criatura sorriu-lhe. Não tinha dentes, mas Tomás ouviu-os ranger dentro da própria cabeça. — Mãe? — perguntou a criança. A mulher de branco deixou cair o espelho. O vid...