A Lapa não é para todos. Casas antigas, de outro tempo, onde o pé-direito alto obriga a levantar o olhar e a baixar o tom. Sancas desenhadas à mão, portas pesadas, janelas de madeira que já viram décadas. Paredes cheias, não minimalistas, mas vividas. Quadros, pinturas, bonecos herdados, fotografias a preto e branco, pratos decorativos, livros gastos, CDs arrumados como quem ainda acredita no objeto. Tapetes de Arraiolos no chão. E, como centro moral da sala, um piano de cauda. Ali não há pressa. Há história. Jantar demorado, comida feita com intenção pelas mãos do filho, nada de invenções vazias, tudo delicioso. Conversa limpa, olhos atentos, gente que sabe estar. Encanto não se compra, constrói-se assim, camada sobre camada. E depois, silêncio. Francisco Sassetti (famoso pianista), ao piano com duas músicas e “Amélie”. As primeiras notas, delicadas, mas firmes. Não é música para impressionar, é música para tocar onde dói e onde cura. O piano respira. A sala encolhe...
A gaveta estava ali havia anos. Imóvel. Fechada. Silenciosa como um funcionário público às 16h59. Pertencia à cómoda da sala, aquela que a minha mãe dizia ser “de boa qualidade”, expressão que no nosso país significa apenas que pesa o suficiente para não ser roubada. Ninguém abria a terceira gaveta. A primeira tinha toalhas. A segunda, documentos importantes e três carregadores de telemóvel que não pertenciam a aparelho algum. Mas a terceira… era território proibido. Sempre que alguém perguntava “O que está na gaveta?”, a resposta vinha seca: “Depois vês.” Cresci com esse “depois vês” a ecoar na cabeça como um feitiço doméstico. Podia significar tudo, desde “há um tesouro” até “há contas por pagar”. A imaginação fazia o resto: mapas do tesouro, cartas de amor capazes de destruir casamentos, talvez o mítico ouro que o tio Patinhas jurava ter visto, mas que ninguém confirmou. Um domingo, depois do almoço, altura sagrada em que todos dormem a sesta e até o relógio pa...