À beira dos cinquenta caminho assim, Com histórias guardadas em mim. Algumas de riso, outras de batalha, Dias de sol, noites de falha. Carrego no peito o que não arrefeceu, Sonhos antigos que o tempo não perdeu A vida rascunha em passos e trilhos, Entre erros, coragem e pequenos brilhos. Não sou ainda o homem do fim da estrada, Sou ponte entre o ontem e a nova jornada. E às vezes descubro, quase sem saber, Que ainda há muito de mim para conhecer. Se alguns fios brancos vierem pousar, Serão como neve, a chegar devagar Sobre os caminhos que a vida gravou, Marcas discretas de tudo o que sou. Escrevo memórias em dias serenos, Da casa, da vida, dos laços pequenos. E percebo, afinal, quase sem notar, Foi isto que sempre quis guardar. À beira dos cinquenta, não no fim, mas onde o curso abranda dentro de mim. Meio século feito, sem pedir perdão, e ainda caminho, com o resto na mão.
De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.