Era uma vez uma criança chamada Tomás, que vivia numa aldeia onde o horizonte era feito de montes suaves e campos dourados. Para ele, o mundo terminava ali — no ponto onde o céu parecia pousar sobre a terra. O avô falava-lhe muitas vezes do mar: descrevia-o como uma água sem fim, inquieta como um coração cheio de segredos. Tomás imaginava-o à noite, deitado na cama: ora um monstro azul a respirar devagar, ora um espelho gigante onde o céu se deitava para descansar. Nunca sabia ao certo se devia ter medo ou curiosidade. Um dia, a mãe disse-lhe: “Vamos viajar.” Havia um brilho diferente nos olhos dela, como se guardasse uma surpresa antiga. Partiram por estradas que pareciam não acabar, e Tomás, com uma concha pequena que o avô lhe dera — “para quando vires o mar” — apertada na mão, tentava adivinhar o que os esperava. O ar começou a mudar. Tornou-se mais salgado, mais vivo, como se tivesse memória. Tomás sentiu o coração bater mais depressa. Quando chegaram, a mãe pediu-lhe que fechasse...
À beira dos cinquenta caminho assim, Com histórias guardadas em mim. Algumas de riso, outras de batalha, Dias de sol, noites de falha. Carrego no peito o que não arrefeceu, Sonhos antigos que o tempo não perdeu A vida rascunha em passos e trilhos, Entre erros, coragem e pequenos brilhos. Não sou ainda o homem do fim da estrada, Sou ponte entre o ontem e a nova jornada. E às vezes descubro, quase sem saber, Que ainda há muito de mim para conhecer. Se alguns fios brancos vierem pousar, Serão como neve, a chegar devagar Sobre os caminhos que a vida gravou, Marcas discretas de tudo o que sou. Escrevo memórias em dias serenos, Da casa, da vida, dos laços pequenos. E percebo, afinal, quase sem notar, Foi isto que sempre quis guardar. À beira dos cinquenta, não no fim, mas onde o curso abranda dentro de mim. Meio século feito, sem pedir perdão, e ainda caminho, com o resto na mão.