Helena tinha dez anos quando prometeu à mãe que nunca abriria a porta do quarto ao fundo do corredor. — Mesmo que ouças alguém chamar por ti — dissera-lhe, ajoelhada diante dela. — Mesmo que reconheças a voz. A mãe morreu nessa mesma semana. Durante anos, Helena evitou aquele quarto. A porta permanecia fechada, sem fechadura visível, e Sérgio nunca perguntara o que existia do outro lado. Até à noite em que começaram as pancadas. Três golpes secos. Sempre à mesma hora: duas e treze da madrugada. Na quarta noite, Helena acordou com uma voz que não ouvia desde a infância. — Minha filha. Sentou-se na cama, gelada. Sérgio continuava a dormir ao seu lado. — Helena, abre-me a porta. A voz vinha do fundo do corredor. Era a voz da mãe, com a mesma doçura cansada, a mesma maneira de prolongar a última sílaba do seu nome. Levantou-se e caminhou até à porta proibida. Sob a madeira, uma linha de luz tremia no soalho. — Prometeste — murmurou, tentando convencer-se de que ainda estava a sonhar. Do ou...
Helena encontrou a fotografia entre os escombros de uma casa reduzida a pedra, cinza e madeira queimada. Mostrava uma família sentada à mesa. Pai, mãe e duas crianças. Sorriam para a câmara como se o mundo ainda fosse um lugar seguro. No verso havia apenas uma data antiga e uma palavra escrita a lápis: Ucrânia. Guardou-a no bolso do casaco e continuou a caminhar pela rua devastada. O ar tinha o cheiro acre do fumo, misturado com o odor húmido da terra revolvida pelas explosões. Ao longe, ouviam-se os ecos surdos da artilharia. Sérgio aguardava junto à entrada de um abrigo subterrâneo. — Temos de sair daqui. Não falta muito para voltarem a bombardear. Helena mostrou-lhe a fotografia. — Achas que sobreviveram? Ele observou os rostos durante alguns instantes. — Nesta guerra? Duvido. Desceram para o abrigo. Lá dentro, dezenas de pessoas permaneciam encostadas às paredes. Algumas choravam em silêncio. Outras limitavam-se a olhar para o vazio, como se já não esp...