À meia-noite, Helena encontrou Sérgio sentado diante de uma mesa de madeira. Sobre ela, havia uma taça de água, três velas brancas e um livro encadernado em pele, sem título na capa. — O que estás a fazer? — perguntou. Sérgio passou o dedo por uma página amarelada, coberta de nomes escritos a tinta vermelha. Alguns estavam riscados. Outros pareciam ter sido escritos naquela noite. — Um ritual de Nomeação — murmurou. — Aquilo a que damos um nome deixa de poder esconder-se. Helena reconheceu o livro. Na semana anterior, encontrara-o aberto no quarto. Quando perguntara a Sérgio de quem era, ele jurara nunca o ter visto. — Que nome procuras? Ele demorou a responder. — O verdadeiro nome daquilo que nos persegue. Desde a morte daquela mulher, três meses antes, ouviam passos no corredor durante a noite. Por vezes, uma voz chamava Helena do interior dos armários. Outras vezes, Sérgio acordava com marcas de dedos no pescoço. Ele começou a ler os nomes em voz alta. A cada...
À meia-noite, Helena encontrou Sérgio na cave, ajoelhado diante de um círculo de velas negras. No centro, repousava um espelho antigo, coberto de manchas escuras que pareciam mover-se sob o vidro. — O que estás a fazer? — perguntou ela. Sérgio ergueu o rosto. Tinha os olhos vermelhos e as mãos cobertas de terra. — A tentar corrigir o que fiz. Há três meses, uma mentira sua destruíra uma família. Helena conhecia a verdade, mas nunca denunciara Sérgio. Amava-o demasiado para o entregar à justiça. Desde então, ambos viviam assombrados por aquilo que tinham permitido acontecer. — Que ritual é este? — Expiação. Encontrei-o num livro antigo. Diz que toda a culpa exige um preço. O espelho estremeceu. Do outro lado do vidro, uma mulher bateu com os punhos, desesperada. Tinha a boca cosida por fios negros. Helena aproximou-se. Primeiro, reconheceu os olhos. Depois, a cicatriz junto à sobrancelha. Só então percebeu quem estava presa do outro lado do vidro. A mulher que, na últi...