Há dias em que o mundo não desaba. Apenas perde peso. Acorda-se e tudo parece igual: a luz entra pela janela com a mesma inclinação, o ruído da rua mantém a sua rotina, o telemóvel acende com notificações que poderiam ser importantes noutro estado qualquer. Mas algo muda sem aviso — não no exterior, mas na forma como tudo chega. Chega longe. Chega fraco. Chega como se atravessasse água. E há quem se levante mesmo assim. Não por força nem esperança. Levanta-se porque o corpo ainda conhece o caminho quando a mente já não acompanha. A depressão não entra como evento. Não parte portas. Não anuncia chegada. Instala-se como alteração da distância entre a pessoa e o mundo. O mundo continua perto, mas já não toca. E esse intervalo não é visto. Nas ruas, tudo parece funcional. Pessoas entram e saem de transportes, trabalham, conversam, discutem preços, fazem planos. O mundo mantém disciplina exterior. Mas há quem caminhe dentro dele como se estivesse ligeiramente atrasado rela...
O homem abre a carteira… e o silêncio da tasca muda de temperatura. Foi como se alguém tivesse aberto o túmulo de um faraó. Até o ventilador velho, preso ao tecto com fé e ferrugem, pareceu abrandar para assistir ao acontecimento. A carteira era castanha, grossa, veterana das guerras fiscais e balcões de cafés. Tinha marcas de uso tão profundas que parecia um mapa topográfico da miséria nacional. O homem abriu-a devagar, com solenidade, como quem revela os segredos do universo. Lá dentro havia: um talão de combustível de 2009, uma fotografia desfocada de um cão triste, três moedas de um cêntimo, um botão e um papel dobrado que dizia: “Não esquecer de comprar pescada.” Dinheiro? Nem o cheiro dele. O empregado aproximou-se cauteloso. — Vai pagar em numerário ou em lágrimas? O homem ergueu os olhos, cansados, húmidos de dignidade. — Amigo… se eu tivesse dinheiro, achas que andava a comer tremoços ao jantar há três semanas? A tasca inteira assentiu em respeito. Aquilo j...