Na aldeia, ninguém falava do ritual depois do pôr do sol. Chamavam-lhe apenas a Coroação. Helena e Sérgio perseguiam lendas juntos desde pequenos. Numa noite de outubro, decidiram visitar o castelo abandonado onde, segundo os antigos, dois vivos eram chamados de cem em cem anos. Encontraram as portas abertas, tochas acesas e um trono negro. Sobre ele repousava uma coroa de ouro envelhecido. As portas fecharam-se atrás deles. Uma figura encapuzada surgiu da escuridão. Ergueu um braço na direção de Helena. As chamas inclinaram-se, obedientes. Depois, apontou para Sérgio. — O reino recorda-se. A coroa ergueu-se e pousou sobre a cabeça de Helena. Por um instante, ela viu centenas de rostos: crianças afogadas, soldados esquecidos, mulheres enterradas sem nome. Todos a observavam em silêncio, aguardando uma decisão que ela não compreendia. Sérgio caiu de joelhos, sufocado por mãos invisíveis. — Não! — gritou Helena. A figura aproximou-se. — Escolhe. — Não escolho ning...
Helena e Sérgio amavam-se desde a adolescência. Na noite em que decidiram selar o futuro, regressaram à capela abandonada onde, em crianças, tinham inventado um ritual: um corte na palma da mão, três gotas de sangue sobre a pedra do altar e um juramento de fidelidade até à morte. — Se um de nós partir primeiro, o outro não ficará sozinho — prometeu Sérgio, apertando-lhe os dedos. Helena sorriu e repetiu as palavras. Do lado de fora, o vento percorreu os pinheiros com um murmúrio estranho, mas nenhum dos dois lhe deu importância. Dez anos depois, Sérgio morreu num acidente de automóvel. Na noite do funeral, Helena não suportou o silêncio da casa. As fotografias pareciam olhar para ela. A cama era demasiado grande. O futuro, demasiado vazio. Sem saber bem porquê, voltou à velha capela. Levava uma faca no bolso e uma dor que mal conseguia respirar. Ajoelhou-se diante do altar de pedra, abriu novamente a palma da mão e deixou cair três gotas de sangue sobre a superfície escurec...