À meia-noite, Helena encontrou Sérgio na cave, ajoelhado diante de um círculo de velas negras. No centro, repousava um espelho antigo, coberto de manchas escuras que pareciam mover-se sob o vidro. — O que estás a fazer? — perguntou ela. Sérgio ergueu o rosto. Tinha os olhos vermelhos e as mãos cobertas de terra. — A tentar corrigir o que fiz. Há três meses, uma mentira sua destruíra uma família. Helena conhecia a verdade, mas nunca denunciara Sérgio. Amava-o demasiado para o entregar à justiça. Desde então, ambos viviam assombrados por aquilo que tinham permitido acontecer. — Que ritual é este? — Expiação. Encontrei-o num livro antigo. Diz que toda a culpa exige um preço. O espelho estremeceu. Do outro lado do vidro, uma mulher bateu com os punhos, desesperada. Tinha a boca cosida por fios negros. Helena aproximou-se. Primeiro, reconheceu os olhos. Depois, a cicatriz junto à sobrancelha. Só então percebeu quem estava presa do outro lado do vidro. A mulher que, na últi...
Helena e Sérgio tinham uma tradição peculiar: todos os anos, na noite de 31 de outubro, preparavam um pequeno ritual para celebrar a vida. Não era superstição, diziam, mas uma forma de agradecer tudo aquilo que tinham conseguido preservar, apesar das dificuldades. A doença de Helena, o desemprego de Sérgio, a casa que quase perderam — tudo ficara para trás, ou assim gostavam de acreditar. Nesse ano, Sérgio encontrou uma caixa de madeira numa feira de antiguidades. Dentro havia uma fotografia desbotada, um molho de chaves enferrujadas e um bilhete: Nunca agradeças três vezes àquilo que não consegues ver. Helena achou a frase estranha. Sérgio, divertido, decidiu incorporá-la no ritual. À meia-noite, apagaram as luzes, acenderam uma vela e fizeram três brindes ao futuro. No primeiro, ouviram um estalido no corredor. No segundo, a porta da cozinha abriu-se lentamente. No terceiro, alguém bateu à porta da rua. Sérgio espreitou pelo óculo. Não viu ninguém. Quando se afastou, ...