Helena encontrou a fotografia entre os escombros de uma casa reduzida a pedra, cinza e madeira queimada. Mostrava uma família sentada à mesa. Pai, mãe e duas crianças. Sorriam para a câmara como se o mundo ainda fosse um lugar seguro. No verso havia apenas uma data antiga e uma palavra escrita a lápis: Ucrânia. Guardou-a no bolso do casaco e continuou a caminhar pela rua devastada. O ar tinha o cheiro acre do fumo, misturado com o odor húmido da terra revolvida pelas explosões. Ao longe, ouviam-se os ecos surdos da artilharia. Sérgio aguardava junto à entrada de um abrigo subterrâneo. — Temos de sair daqui. Não falta muito para voltarem a bombardear. Helena mostrou-lhe a fotografia. — Achas que sobreviveram? Ele observou os rostos durante alguns instantes. — Nesta guerra? Duvido. Desceram para o abrigo. Lá dentro, dezenas de pessoas permaneciam encostadas às paredes. Algumas choravam em silêncio. Outras limitavam-se a olhar para o vazio, como se já não esp...
Todas as noites, antes de adormecer, Helena repetia a oração que a avó lhe ensinara em criança. Fazia o sinal da cruz, apertava o terço entre os dedos e murmurava as palavras que sabia de cor. A velha nunca lhe explicara o significado, mas deixara-lhe um aviso que repetia sempre no final. — Reza antes da meia-noite. Depois da última badalada, não pronuncies uma única palavra da oração. Durante anos, Helena cumprira a promessa. Até à noite em que Sérgio não regressou a casa. Esperou junto à janela, vendo a chuva escorrer pelos vidros e consultando o relógio de poucos em poucos minutos. Quando faltavam apenas segundos para a meia-noite, abriu a gaveta da sala e retirou o terço da avó. Queria terminar a oração antes das doze. Não conseguiu. O relógio começou a bater quando ainda lhe faltavam as últimas palavras. — Senhor, guarda os que partiram, acolhe os que sofrem e não deixes que os esquecidos se percam no escuro. Que encontrem o caminho de volta, mas não se esqueçam...