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Mensagens

A Carteira

O homem abre a carteira… e o silêncio da tasca muda de temperatura. Foi como se alguém tivesse aberto o túmulo de um faraó. Até o ventilador velho, preso ao tecto com fé e ferrugem, pareceu abrandar para assistir ao acontecimento. A carteira era castanha, grossa, veterana das guerras fiscais e balcões de cafés. Tinha marcas de uso tão profundas que parecia um mapa topográfico da miséria nacional. O homem abriu-a devagar, com solenidade, como quem revela os segredos do universo. Lá dentro havia: um talão de combustível de 2009, uma fotografia desfocada de um cão triste, três moedas de um cêntimo, um botão e um papel dobrado que dizia: “Não esquecer de comprar pescada.” Dinheiro? Nem o cheiro dele. O empregado aproximou-se cauteloso. — Vai pagar em numerário ou em lágrimas? O homem ergueu os olhos, cansados, húmidos de dignidade. — Amigo… se eu tivesse dinheiro, achas que andava a comer tremoços ao jantar há três semanas? A tasca inteira assentiu em respeito. Aquilo j...
Mensagens recentes

A pisciana que não se afoga

Dinâmica para Luz das Letras, sobre signo.   Peixes, esse signo de água que parece ter nascido entre sonhos molhados e intuições que chegam antes da realidade. Diz-se que a mulher pisciana do segundo decanato — com aquela pitada extra de sensibilidade e imaginação — vive com um pé no mundo e outro algures num universo paralelo onde até as regras têm licença poética. No papel, tudo encaixa como um horóscopo bem escrito: empatia, romantismo, criatividade, aquela tendência quase ancestral de sentir tudo antes de pensar. Na prática… contigo a história parece ter seguido outro protocolo. Ou o mapa astral foi devolvido por “endereço insuficiente”. Dizem que Peixes chora com música triste e se dissolve em devaneios ao ver o mar. Mas há aqui uma contradição curiosa: és peixe de água, sim, mas não de águas profundas. O fundo do mar não te chama, assusta-te. E não de forma metafórica bonita… mais daquele medo silencioso que aparece só de pensar. Basta imaginar a imensidão escura por ba...
  Na aldeia, a procissão surgia ao crepúsculo, pés nus no pó frio. As caretas de cortiça rangiam, cheirando a resina e hálito velho. Segui a avó; a mão ossuda fechou-se no meu pulso. Os sinos chamavam quem não devia ouvir. No adro, a fogueira arquejava, cuspindo fagulhas. Os cânticos torciam-se como lã molhada a ser espremida. Em vez de um animal, trouxeram um boneco de centeio, entranhas de espinhos, boca cosida a fio negro. A lâmina abriu-lhe o ventre seco. O vento engasgou-se. A cinza correu e o chão estalou como barro antigo a ceder ao sol. A avó inclinou-se. Cheirava a fumo e hortelã morta. Os olhos, vazios, não me reconheceram. Empurrou-me e as caretas viraram-se. As pernas falharam, o estômago subiu. A fogueira rasgou-se num túnel. Atravessei-o a tropeçar. Ao amanhecer, a aldeia respirava intacta. As caretas dormiam nas arcas. Os sinos morderam-me o som, afinaram-no. Desde então carrego o ritual nos ossos, à espera da lua que me chamará outra vez.

Inacabado - "Ser ser ser"- - Ofélia em Poesia

 

Mãe, Canto de Raiz e Tempo

Poema publicado na Antologia "A Cartografia do Colo", Casa do Povo – Antologias Poéticas, para o Dia da Mãe  

A Prova Doce

Dinâmica da Luz das Luzes com 5 palavras à escolha: Quarto, quinze, quente, quidim, queixo.  Com o gato e cadela no colo e o tablet, ao ajustar desapareceu-me o texto. Quando fui a ler, ainda não tinha encontrado.  Encontrei hoje de manhã, como rascunho do word.  Aqui está ele:     No velho prédio onde o tempo rangia mais do que as escadas, e rangia com gosto, havia um quarto que ninguém queria alugar. Não por fantasmas. Isso ainda dava prestígio. Era pior: havia insistência… doce. Por apenas quinze moedas e um sorriso que já tinha visto demasiadas histórias, o senhorio entregou a chave ao Artur. — Alguma coisa que eu deva saber? — perguntou. — Enquanto houver ploc , há futuro — disse o senhorio. — E enquanto houver futuro… há renda. O calor lá dentro era quente de um modo quase pessoal. Não aquecia — pressionava. Primeira noite: ploc… ploc… ploc . Na mesa: um quidim perfeito. — Falta alma — disse Artur, após provar, como se tivesse sido nomead...