De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.
Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurant...