Dinâmica para Luz das Letras, sobre signo. Peixes, esse signo de água que parece ter nascido entre sonhos molhados e intuições que chegam antes da realidade. Diz-se que a mulher pisciana do segundo decanato — com aquela pitada extra de sensibilidade e imaginação — vive com um pé no mundo e outro algures num universo paralelo onde até as regras têm licença poética. No papel, tudo encaixa como um horóscopo bem escrito: empatia, romantismo, criatividade, aquela tendência quase ancestral de sentir tudo antes de pensar. Na prática… contigo a história parece ter seguido outro protocolo. Ou o mapa astral foi devolvido por “endereço insuficiente”. Dizem que Peixes chora com música triste e se dissolve em devaneios ao ver o mar. Mas há aqui uma contradição curiosa: és peixe de água, sim, mas não de águas profundas. O fundo do mar não te chama, assusta-te. E não de forma metafórica bonita… mais daquele medo silencioso que aparece só de pensar. Basta imaginar a imensidão escura por ba...
Na aldeia, a procissão surgia ao crepúsculo, pés nus no pó frio. As caretas de cortiça rangiam, cheirando a resina e hálito velho. Segui a avó; a mão ossuda fechou-se no meu pulso. Os sinos chamavam quem não devia ouvir. No adro, a fogueira arquejava, cuspindo fagulhas. Os cânticos torciam-se como lã molhada a ser espremida. Em vez de um animal, trouxeram um boneco de centeio, entranhas de espinhos, boca cosida a fio negro. A lâmina abriu-lhe o ventre seco. O vento engasgou-se. A cinza correu e o chão estalou como barro antigo a ceder ao sol. A avó inclinou-se. Cheirava a fumo e hortelã morta. Os olhos, vazios, não me reconheceram. Empurrou-me e as caretas viraram-se. As pernas falharam, o estômago subiu. A fogueira rasgou-se num túnel. Atravessei-o a tropeçar. Ao amanhecer, a aldeia respirava intacta. As caretas dormiam nas arcas. Os sinos morderam-me o som, afinaram-no. Desde então carrego o ritual nos ossos, à espera da lua que me chamará outra vez.