Helena tinha sete anos quando a avó a levou pela primeira vez ao rio. Era Inverno. A água corria escura entre as pedras e a névoa pairava rente à margem, escondendo a outra banda numa massa branca e imóvel. — Nunca fiques aqui depois do pôr do sol — avisou a velha. Helena perguntou porquê, mas a avó demorou tanto tempo a responder que a menina acabou por esquecer a pergunta. Anos mais tarde, quando a avó morreu, Helena herdou a casa e as terras junto ao rio. Nunca mais pensou naquele aviso. Até à noite em que viu alguém na outra margem. Estava a fechar as portadas da sala quando reparou na figura. Era uma mulher, imóvel, com o rosto oculto pela névoa. Na noite seguinte, regressou. E na outra também. Sempre à mesma hora. Sempre em silêncio. Quando comentou o assunto com Sérgio, ele aproximou-se da janela e espreitou a margem. — Não está lá ninguém. Helena não respondeu. A mulher continuava ali. Na quarta noite, pegou numa lanterna e desceu até ao rio. O frio mo...
Helena nunca saía de casa sem tocar três vezes no medalhão que trazia ao pescoço. A mãe colocara-lho quando ela ainda era criança. — Enquanto o usares, ninguém te encontra. Durante anos, nunca questionou aquelas palavras. O gesto tornou-se um hábito tão natural como fechar a porta ao sair ou apagar a luz antes de adormecer. Só deu pela falta do medalhão numa tarde chuvosa de outubro. Levou a mão ao peito. O cordão desaparecera. Voltou atrás, refez o caminho, revistou bolsos, gavetas e até o carro. Não o encontrou. Nessa noite sonhou com um corredor interminável. Caminhava sozinha por uma sucessão de portas fechadas enquanto, atrás de si, alguém avançava no mesmo ritmo. Nunca acelerava. Nunca falava. Limitava-se a segui-la. Acordou antes de o ver. Na manhã seguinte encontrou uma fotografia caída no chão da sala. Não se lembrava de a ter visto antes. Mostrava a casa onde crescera. As janelas estavam escuras e o jardim parecia abandonado. À primeira vista não havia nada de e...