Eu estava feliz, com a cadela a meu lado, e o gato dormindo, num sono encantado. A casa era um reino de ronrons e alegria, onde o tempo se esquecia de contar cada dia. Uma pata que toca, um focinho que vem, tantas formas de amor que não pedem vintém. Eu estava feliz, sem precisar de razão, com quatro patas a aquecer-me o coração. E se o mundo lá fora trouxesse amargura, em casa esperava-me a mais doce ternura.
A chuva chicoteava as janelas da velha casa paroquial. Helena abriu o livro de exorcismos enquanto Sérgio observava a mulher amarrada à cama. Não havia compaixão no seu olhar, apenas a curiosidade metódica de quem examina um espécime raro. — Vade retro, Satana — começou Helena. — Essa passagem vem depois — corrigiu Sérgio, sem desviar os olhos da vítima. — A ordem importa. Sobretudo quando alguém está a mentir. A mulher estremeceu. Não perante o crucifixo, mas quando Sérgio se aproximou. — Afasta-o de mim! — gritou. Ele sorriu. — Interessante. De que tens medo, exatamente? A mulher começou a rir. A voz que saiu da sua garganta era grave, quase humana. — Chamas-lhe demónio porque é mais fácil do que lhe chamar memória. Helena interrompeu a oração. — Que memória? Sérgio pousou dois dedos sobre o pulso da mulher, como um médico a avaliar um doente. — A culpa é uma doença curiosa. Alguns pacientes preferem inventar monstros a reconhecer o que fizeram. A mulher deb...