Há uma forma de silêncio que não é ausência de palavra, é acumulação de tudo o que ficou por dizer dentro de casa. Entre pais e filhos, esse silêncio instala-se muitas vezes depois de uma tensão: a porta que bate, o tom que sobe, o olhar que se desvia por orgulho ou cansaço. Durante alguns instantes, parece que algo se partiu de forma irreversível. Mas quase nunca é assim. A maioria das zangas familiares não nasce de grandes acontecimentos. Nasce do pequeno: uma resposta atravessada, uma regra que soa injusta, uma decisão tomada sem explicação. Coisas que, dentro de casa, ganham um peso que não têm fora dela, porque ali tudo é vivido com mais densidade. Depois vem o intervalo, esse tempo suspenso em que cada um espera que o outro dê o primeiro passo. Carrega-se a certeza de ter razão, misturada com a dúvida de ter sido duro demais. É um tempo imóvel por fora, mas inquieto por dentro. Os pais, muitas vezes, não sabem como reparar o que foi dito. Não por falta de amor, mas porque t...
Quando regressou a casa, a caixa de veludo esperava-a sobre a cama. Dentro, um colar de diamantes capturava a luz da janela e espalhava-a pelas paredes vazias. Ela pousou a tampa e foi até à cozinha, sem pressa. No centro da mesa, num frasco antigo, três rosas inclinavam-se umas para as outras, com gotas a tremer à beira das pétalas. Passou a mão pelo vidro frio, onde a água turva deixava ver os caules cruzados. A casa guardava o cheiro húmido e doce das flores. Sentou-se e deixou os dedos perderem-se na delicadeza amarrotada das pétalas, onde a infância cheirava a terra e às mãos da avó. O colar ficou a brilhar sozinho, perdido no quarto distante. As flores respiravam com o ar da casa, as pedras permaneciam imóveis. Levou a mão ao peito, num gesto assertivo, firme. E foi às rosas que o corpo lhe respondeu. Nada mais pediu. No instagram: #aluzdasletras.a.outrasartes