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A Hora em Que a Casa Respira

 O relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse.

A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido.

Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir.

Amélia não sorriu.

Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares.

Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibrou levemente, como se respondesse a uma pergunta que não fora feita.

A cadeira em frente recebeu peso sem movimento.

— Chegaste — disse Amélia.

A presença não tinha forma certa. Cheirava a terra húmida e a talco barato, como quartos onde se espera demasiado. A voz não vinha de lado nenhum.

— Ainda insistes?

Amélia levou o líquido frio à boca. Engoliu com esforço.

— Insistir é continuar de pé.

A janela abriu-se. O jardim parecia mais fundo, como se o chão tivesse cedido alguns centímetros durante a noite. As roseiras estavam secas, mas sangravam cor. Amélia lembrava-se de as podar com mãos firmes. Agora, a terra colava-se-lhe aos dedos, insistente, reconhecendo-a.

Foi ao quarto. Na gaveta: fotografias sem datas, cartas nunca dobradas, um dente embrulhado em papel fino. Escolheu uma imagem de si, direita, inteira. Dobrou-a até partir.

Quando voltou, a cadeira estava vazia. A porcelana, toda ela ferida.

A noite caiu de uma vez. Amélia deitou-se no sofá. A casa acolheu-lhe o peso, abriu espaço onde antes era sólido. Mãos antigas — as suas — puxaram-na para dentro das paredes, do chão, do tempo parado.

Não resistiu.

De manhã, o espelho devolveu a sala sem atraso. No jardim, a terra estava lisa, como quem finalmente se deitou à hora certa.

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