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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2025

O Silêncio Depois do Ruído

  Há um ruído constante no mundo — discursos, bandeiras, mapas riscados a linhas duras como se fossem destinos inevitáveis. Fala-se de estratégia, de poder, de equilíbrio global. Mas raramente se fala do silêncio que fica depois. Porque no fim, quando os holofotes se apagam e os analistas passam ao próximo tema, quem permanece são as pessoas. As mesmas que acordam cedo, que levam filhos à escola — se ainda houver escola —, que fazem contas no fim do mês com números que já não chegam. Não decidiram guerras, não desenharam alianças, não assinaram tratados. Mas vivem com as consequências como quem herda uma dívida antiga que nunca contraiu. Entre o ruído e a vida real há sempre uma distância invisível. E é nessa distância que tudo pesa mais. Há algo de profundamente injusto neste ciclo. O poder move-se como se fosse eterno, jogando peças num tabuleiro vasto, enquanto a vida real é frágil, concreta, feita de dias pequenos. Um aumento no preço do combustível não é uma abstração ...

A Teia das Bênçãos e das Maldições

 A aldeia despertava sempre envolta num véu húmido, como se a noite exalasse um suspiro que ninguém ousava decifrar. Os habitantes moviam-se com cuidado, evitando certas janelas, portas que permaneciam fechadas desde sempre, como se respeitassem um pacto silencioso. Na casa mais antiga, de telhado cansado e janelas estreitas, Clara descobriu um rosário enterrado sob o soalho. Cada conta parecia conter uma gota de água presa no tempo, translúcida e fria, ou um fragmento de unha antiga que provocava arrepios. Ao tocá-lo, sentiu um calor estranho que lhe percorreu o braço. O silêncio da casa tornou-se denso, atento, carregado de uma presença que se contorcia nas sombras. Lá fora, o vento murmurava pelos campos, e dentro tudo parecia escutar-se a si mesmo. Nos dias que se seguiram, bênçãos pequenas começaram a surgir. A água do poço subiu, clara como nunca. As galinhas, antes inúteis, encheram o cesto com ovos. Até o animal gasto pelo tempo recobrou forças, movendo-se com cautela mas...

A Lentidão da Cura

  Há tempos em que se aprende a medir o corpo não pelo que sente, mas pelo tempo que espera. Cada consulta, cada exame, cada ligação perdida ao hospital transforma-se num compasso silencioso, lento, pesado. O corpo pede ação. O sistema responde com intervalo. As listas de espera têm um som próprio: o murmúrio de nomes, números e datas que nunca coincidem com o relógio interno de quem sofre. A vulnerabilidade cresce com cada adiamento. A paciência deixa de ser virtude e torna-se território de resistência involuntária. O corpo aprende a ouvir-se sem resposta. Passei por salas frias, corredores longos, paredes brancas que parecem absorver qualquer emoção. A frase dita sem hesitação — “Vai correr bem” — não aquece nem arrefece; apenas acompanha o tempo suspenso. Cada gesto clínico, cada decisão administrativa, revela a densidade de um sistema onde a vida individual precisa de caber em procedimentos. A vida nunca se ajusta completamente ao sistema. É o sistema que exige adaptaçã...