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A mostrar mensagens de abril, 2026

A Prova Doce

Dinâmica da Luz das Luzes com 5 palavras à escolha: Quarto, quinze, quente, quidim, queixo.  Com o gato e cadela no colo e o tablet, ao ajustar desapareceu-me o texto. Quando fui a ler, ainda não tinha encontrado.  Encontrei hoje de manhã, como rascunho do word.  Aqui está ele:     No velho prédio onde o tempo rangia mais do que as escadas, e rangia com gosto, havia um quarto que ninguém queria alugar. Não por fantasmas. Isso ainda dava prestígio. Era pior: havia insistência… doce. Por apenas quinze moedas e um sorriso que já tinha visto demasiadas histórias, o senhorio entregou a chave ao Artur. — Alguma coisa que eu deva saber? — perguntou. — Enquanto houver ploc , há futuro — disse o senhorio. — E enquanto houver futuro… há renda. O calor lá dentro era quente de um modo quase pessoal. Não aquecia — pressionava. Primeira noite: ploc… ploc… ploc . Na mesa: um quidim perfeito. — Falta alma — disse Artur, após provar, como se tivesse sido nomead...

Harriet

  Harriet (2019) é um drama biográfico que retrata a vida de Harriet Tubman , uma das figuras mais importantes da luta contra a escravidão nos EUA. O filme mostra: sua fuga da escravidão em 1849, o percurso de quase 160 km até a liberdade, o retorno clandestino ao sul para resgatar familiares, e sua atuação como líder no Underground Railroad , ajudando centenas de pessoas a escapar.

Bodas de Ouro - Chico e Inha

                 Cinquenta anos não são acaso.   São casa firme, construída devagar, são mãos que nunca largaram o laço, mesmo quando o mundo parecia desabar.   São passos dados lado a lado,   no sol ardente e na noite fria. É o “sim” mantido, renovado, na força simples de cada dia.   Sempre prontos. Sem alarde.   Sempre firmes. Sem vaidade. Presentes cedo, presentes tarde, fiéis à mesma verdade.   Não foram feitos de fantasia,   mas de trabalho, riso e cansaço. Foram coluna. Foram guia. Foram abrigo. Foram abraço.   E eu, que cresci à vossa beira,   desde o início desta jornada, trago-vos como raiz primeira, como porto seguro da minha estrada.   Foram padrinhos de promessa inteira,   segundos pais no gesto e no cuidado. Amigos de vida verdadeira, amor provado e confirmado.   Cinco décadas de chão vivido,   de lu...

Sementeira Vermelha

 

Subsolo Vivo

A semente veio escondida na terra — mas, olhando para trás, suspeito que já estivesse em mim. Antes disso, houve sinais. Uma comichão persistente nos dedos, sob as unhas. Sonhos viscosos, sem forma: terra húmida, dentes a romper no escuro. Acordava cansado. As mãos, sujas. Plantei-a na mesma. Talvez por hábito. Talvez por obediência. No primeiro dia, nada. No segundo, um rebento pálido. No terceiro, sangue — espesso, quente, familiar. Continuei a regar. Não por cuidado, mas por impulso. Um gesto antigo, automático, como se algo em mim reconhecesse o que nascia. As folhas surgiram com veias finas. Pulsavam. E eu comecei a sentir o mesmo. À noite, ouvia um som húmido. Mastigar lento. Dentro de mim, uma resposta. No quinto dia, acordei com dor. O dedo aberto, a carne exposta. A planta inclinava-se na minha direcção. Quase terna. Veio o medo. Logo depois, a raiva. Tentei arrancá-la. As raízes não eram raízes. Eram dedos — brancos, tensos, enterrados com desespero. Quando puxei, senti resis...

A Risada Culinária - Luz das Luzes

Eu acordei convencida de que era um génio… até tentar abrir uma lata com uma colher e quase declarar guerra à cozinha. A minha vida tem esse dom: transformar as tarefas simples em aventuras ridículas. A verdade é que acordei com aquela confiança inflamada que só dura até ao primeiro objeto doméstico se revoltar. A colher entortou como se estivesse a desistir da vida, a lata fez um som de escárnio e o gato, sentado na bancada, inclinou a cabeça com a superioridade moral de quem já viu demasiado. Ele é que lambe as paredes, e aparentemente se acha no direito de avaliar as minhas escolhas. Grécia apareceu-me no pensamento sem razão, talvez porque também lá inventaram tragédias, e eu estava prestes a protagonizar uma. Decidi cozinhar algo “sofisticado” e acabei a discutir com uma cebola, que me venceu claramente. Enquanto me fazia chorar com a crueldade de um vilão clássico, imaginei um coro grego a narrar o meu fracasso culinário. A cebola escorregava das mãos como se tivesse vida própr...

-O Rasgo para "Rasgar o Estado de Ser" - Ofélia em Poesia

 

O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10

   

O menino que guardava o mar

Era uma vez uma criança chamada Tomás, que vivia numa aldeia onde o horizonte era feito de montes suaves e campos dourados. Para ele, o mundo terminava ali — no ponto onde o céu parecia pousar sobre a terra. O avô falava-lhe muitas vezes do mar: descrevia-o como uma água sem fim, inquieta como um coração cheio de segredos. Tomás imaginava-o à noite, deitado na cama: ora um monstro azul a respirar devagar, ora um espelho gigante onde o céu se deitava para descansar. Nunca sabia ao certo se devia ter medo ou curiosidade. Um dia, a mãe disse-lhe: “Vamos viajar.” Havia um brilho diferente nos olhos dela, como se guardasse uma surpresa antiga. Partiram por estradas que pareciam não acabar, e Tomás, com uma concha pequena que o avô lhe dera — “para quando vires o mar” — apertada na mão, tentava adivinhar o que os esperava. O ar começou a mudar. Tornou-se mais salgado, mais vivo, como se tivesse memória. Tomás sentiu o coração bater mais depressa. Quando chegaram, a mãe pediu-lhe que fechasse...