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A mostrar mensagens com a etiqueta Escrita em Acção

Não Abrir - desafio a 4 mãos, 2 autoras

  A dentadura reapareceu na gaveta das meias, três dias depois de ter desaparecido. Ninguém sabia explicar como tinha ido ali parar, muito menos de onde vinha aquele som do mar — ondas a rebentar contra a areia, cada vez mais próximas, embora a praia mais perto ficasse a dezenas de quilómetros Rita entrou de manhã para limpar o quarto, como fazia todos os dias. Levava o pano do pó no bolso do avental branco e a vassoura na mão. Ouviu um ruído ao pisar e, quando olhou para o chão, viu-o coberto de areia. O som persistente das ondas chegava-lhe aos ouvidos e, surpreendida, disse em voz alta: — Estou a ouvir o mar! Ficou imóvel, apertando o cabo da vassoura. O som vinha de dentro do quarto, mas não havia janela aberta, nem vento, nem explicação para a areia espalhada pelo chão. Ajoelhou-se para a apanhar e viu algo a brilhar junto à cama. Era uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo. Pegou-lhe com cuidado e limpou a areia com o polegar. Na imagem, uma mulher estava sentada prec...

O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10

   

Revista Palavrar - A Melodia das Ruínas

Obrigada a mim

  O sol nascia no quarto creme. A luz filtrava-se pelas persianas, desenhando sombras no chão. O ar cheirava a desinfetante e silêncio. O lençol, áspero contra a pele marcada, colava-se à carne como se quisesse lembrar onde doía. E eu, presa entre tubos e cicatrizes frescas, olhava o tecto como quem olha um céu escuro. O silêncio era denso. Só quebrado pelo bip das máquinas, esse compasso metálico da sobrevivência. Ali, o tempo não era tempo. Era espera. Era dor com nome e hora marcada. Não me lembro da última vez que respirei sem dor. O meu corpo era um campo de batalha. A pele, trincheira. Os músculos, soldados exaustos. E as cicatrizes… As cicatrizes eram fronteiras. Terreno conquistado. Cada linha na carne contava o avanço de uma ofensiva vencida a custo. Uma emboscada superada. Um regresso possível.  Lutei. Sozinha. Mas não como nos filmes. Sem música. Sem frases de efeito. Lutei em silêncio. Com o maxilar cerrado. Com a raiva sussurrada para dentro. C...

O Dia do Rei - Alcácer do Sal, outono de 1158

O vento quente que soprava do sul trazia o cheiro a especiarias e mar, mas no campo português, o ar sabia apenas a ferro e suor. O acampamento estendia-se como um animal agachado, feito de tendas, lanças e cavalos impacientes. Um crepúsculo tingia o céu de púrpura e ouro, refletindo-se nos elmos e nas cotas de malha dos homens que afiavam espadas e rezavam em voz baixa. Afonso Henriques observava-os em silêncio. Desde a alvorada que sentia aquela inquietação no peito, não de medo, porque o receio era um luxo de homens fracos, mas algo mais profundo, um pressentimento de que aquela noite ficaria gravada na pedra da história. Virou-se para Pedro Pais da Maia, que surgira à entrada da tenda, o rosto endurecido pelo cansaço e pela expectativa. — O que dizem os batedores? Pedro hesitou um instante, depois deu um passo à frente. — Os mouros esperam um cerco longo. Têm mantimentos para meses e reforçaram os portões com ferro. Há patrulhas a cada duas horas e os caldeirões de azeite ...

Dinamica Dezembro

Auguste Rodin foi um escultor francês do século XIX que revolucionou a escultura moderna. Para além das reconhecidas modulações das superfícies, de inspiração impressionista, também desenvolveu a escultura parcelar, ou seja, que não era a figura humana na totalidade ou o tradicional busto. "A mão de Deus"é um desses fantásticos objetos pétreos. Também na literatura o discurso pode ser modelado a partir de uma parcela corporal, como as mãos, a mão solitária, quase sem sujeito. DESAFIO: - TEMA: a mão; - TAREFA: escrever uma breve ficção apenas narrando uma mão; - O sujeito da mão não pode ser descrito física ou psiquicamente; - Uma mão tem 5 dedos, 5x9=45, 45+9=56; 56+5+6= 67; Usar 67 palavras exatas; - O narrador é na primeira pessoa (eu), pode ser a mão ou o sujeito da mão, e fala com um destinatário que trata na segunda pessoa (tu); - DESAFIO: não pode usar nenhuma letra T; Eu deslizo por superfícies enrugadas, os dedos dobrados e linhas marcadas de jornadas. Na minha presen...

Ronrons e mimos!

Vou escrevendo um conto e a medida que for dizendo Stop muda de letra do alfabeto: FHGI.   F- Foram momentos pensativos. Tiro meio-dia de férias, há que pensar na saúde dos que nos querem bem. Fui para casa da minha mãe, abri a janela, para entrar o sol, fraquinho, mas que ainda tinha força para aquecer. E o cheiro das flores... H- Há momentos em que tudo o que desejamos é aliviar o peso das dores alheias. Quando vemos alguém a sofrer, uma vontade urgente nos invade, arrancar-lhes os sorrisos, oferecer conforto e distrair das aflições, mesmo que por breves instantes. Tentamos contar anedotas, improvisar uma atmosfera leve e carregar o ambiente com um bom humor quase forçado, mas genuíno no afeto. Hoje, o consolo veio pela cozinha. Preparei uma canja simples, mas feita com cuidado, uma galinha desfiada sem ossos, nadando em caldo quente com massa de cotovelos, aquele tipo que parece abraçar o paladar. Para o prato principal, um bife grelhado, não perfeito, mas honesto, tão firme qua...

O Espelho Proibido

  No mundo de Kaelar, os espelhos eram mais do que objetos banidos, eram portais para o inexplicável. As lendas sussurravam sobre os reflexos que não refletiam, mas simulavam, os habitantes de um reino invertido, à espera de uma fraqueza, de um momento para se cruzarem. Ninguém ousava desafiar a proibição, exceto Teryn, um aprendiz de alquimista, o qual a curiosidade era tão afiada quanto perigosa. Num mercado clandestino, encontrou um pequeno espelho de moldura corroída pelo tempo. Entre as moedas trocadas e os olhares furtivos, sentiu o peso do objeto nas suas mãos, como se algo ali o observasse. Ignorou o arrepio. “Medo irracional,” pensou. No seu quarto, à luz trémula de uma vela, Teryn ergueu o espelho. A princípio, viu-se como sempre, uns olhos verdes atentos e pele pálida. Mas, algo rompeu a normalidade. O reflexo piscou. Ele, não. Teryn estremeceu. Largou o espelho, mas a imagem não desapareceu. Pelo contrário, sorriu. Um sorriso largo, desafinado e expondo os dentes afiado...

Pais das Maravilhas

Vou escrevendo um conto e a medida que for dizendo Stop muda de letra do alfabeto: ABCDE. A-Atirei o pau ao gato, mas ele não se mexeu. Apenas fixava no queijo em cima da mesa, com os olhos a brilhar de desejo. Passava a língua pelos lábios, com vontade de atacar o dito cujo sem perder tempo. Mas, hesitou. Olhou de relance para o lado e viu o presunto. Queijo ou presunto? Parecia ponderar como um ladrão indeciso, planeando o próximo roubo. Os seus olhos arregalados brilhavam de gula, e um fio de baba já lhe escorria pelo canto da boca. B-Borboleta cheia de cores voava inquieta, procurando onde fazer o seu casulo, preparando-se para, curiosamente, transformar-se... em lagarta. Talvez seja aquela lagarta do País das Maravilhas que fumava como um Lorde ou Lady.  A menina loira de olhos azuis e vestido branco e azul surgiu correndo, perseguindo um coelho branco de relógio na mão. Ela caiu num poço profundo e aterrou num estranho labirinto com muitas portas e uma sala gigantesca...

Amarrar o burro

Luz das letras 1.    A céu aberto: ao ar livre 2.    Abandonar o barco: desistir de uma situação difícil 3.    Abotoar o paletó: morrer 4.    Abrir mão de alguma coisa: renunciar alguma coisa 5.    Abrir o coração: desabafar, declarar-se sinceramente 6.    Abrir o jogo: denunciar ou revelar detalhes 7.    Abrir os olhos a alguém: alertar ou convencer alguém de alguma coisa 8.    Acabar em pizza: quando uma situação não resolvida acaba encerrada (especialmente em casos de corrupção, quando ninguém é punido) 9.    Acertar na lata: acertar com precisão, adivinhar de primeira 10. Acertar na mosca: acertar com precisão, adivinhar de primeira 11. Adoçar a boca: conseguir um favor de alguém com elogios 12. Agarrar com unhas e dentes: agir de forma extrema para não perder algo ou alguém 13. Agora é que são elas: momento em que começa a dificuldade 14. Água que...

Enumeração

Parto amanhã rumo ao Santiago de Compostela, onde as melhores aventuras acontecem. LEVO:  Uma bússola pequena para encontrar caminhos secretos ( para orientação); Um mapa real para descobrir estradas escondidas (me diz onde estou e para onde vou); Duas botas impermeáveis para alguns terrenos imprevisíveis (uma em cada pé); Duas cordas resistentes para atravessar abismos inclinados (um para descer, outro para subir); Três livros antigos para desvendar enigmas ocultos (um que conta, outro que nega e outro confirma); Quatro lanternas luminosas para noites mais escuras (para cada ponto cardeal); Cinco frascos mágicos para curar ferimentos estranhos (mazelas com olhos, nariz, ouvidos, coração e pés); Seis amuletos protectores para espantar criaturas ferozes (para seis bichos); Sete lápis encantados para enviar mensagens necessárias (as cores do arco-íris).

Deseducando com as Mãos

   As mãos da mãe Júlia, marcadas pelo tempo e pelas responsabilidades, eram firmes, mas guardavam uma suavidade intrínseca, aquela que somente o amor incondicional consegue preservar. Elas seguravam um frágil barco de papel com uma precisão cuidadosa, consciente de que, apesar da sua leveza, carregava os sonhos preciosos. Cada movimento era impregnado de ternura, como se soubesse que aquele pequeno objeto era mais do que papel: era a chave para um mundo que ela mesma ajudava a criar. As mãos do filho João, pequenas, inquietas e cheias de uma energia vibrante, tocavam no barco com uma ansiedade de quem está a desvendar os mistérios do universo pela primeira vez. O toque infantil, desajeitado, mas cheio de vida, dava forma a novas aventuras a cada instante. Os seus dedos percorriam as dobras do papel como se explorassem um mapa desconhecido, em cada linha era um caminho a seguir, um destino a conquistar. Entre as mãos da mãe e do filho, o barco de papel transformava-se. D...