A gaze húmida colava-se à pele, morna como se guardasse um resto de sonho. No quarto, o cheiro a desinfetante velho misturava-se com algo mais antigo. 03:17. Ela não dormia havia dias, mas não era bem insónia. Era outra coisa. Uma vigília involuntária, alguém dentro dela precisava que ela ficasse acordada. Os pontos puxavam devagar, num ritmo que não era o do seu corpo. Às vezes pousava os dedos sobre a cicatriz para sentir o calor dali. Não era febre. Era presença. Lembrou-se da enfermeira antes da anestesia. “Vai correr bem.” Mas a voz soava agora como eco dum corredor que nunca existiu. Naquela noite, acordou com a sensação de que o quarto respirava. As cortinas não se mexiam. O roupeiro não se mexia. A cadeira no canto não se mexia. Mas o ar tinha pulso. Depois sentiu o húmido. A cicatriz abrira um pouco. Uma linha fina. Escura. Mas não sangrava, parecia mais uma fenda no tecido de qualquer coisa maior. Ela não gritou. O silêncio do quarto era tão den...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...