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Burlas e enganos


O relógio marcava as três da manhã quando Pedro verificou as mensagens no telemóvel. "Mais um cliente ansioso para investir", pensou, sorrindo, enquanto os dedos deslizaram pelo ecrã, frios e calculistas. Nos últimos anos, tinha refinado a sua arte, fingia ser agente imobiliário, vendendo sonhos que nunca se tornariam realidade. Uma mentira bem contada valia milhares de euros. E ele contava-as sem pestanejar.
Desta vez, o alvo era Henriques, um jovem casal desesperado por encontrar casa própria. Pedro usou as mesmas estratégias de sempre, fotografias de casas luxuosas, contratos falsificados, um site profissional que sumiria assim que recebesse o pagamento. "É a oportunidade da vossa vida. Se não aproveitarem agora, amanhã já não há hipótese", insistiu, injetando urgência na sua voz. Henrique hesitou, mas o medo de perder a suposta oportunidade venceu. Em poucos minutos, os 15.000 euros estavam na conta de Pedro.
Na manhã seguinte, apagou todos os vestígios da sua existência digital e partiu para outra cidade, levando a sua família consigo. Era assim que operava, saltava de região em região, um fantasma no mundo dos negócios. Mas desta vez, algo estava errado. Desde que saíra da cidade, sentia um peso no peito, um arrepio constante na espinha. De noite, ouvia as batidas na porta do quarto do hotel, mas nunca via ninguém. Começou a ter pesadelos com rostos distorcidos, olhares vazios e mãos que tentavam agarrá-lo das sombras.
Certa madrugada, ao abrir o e-mail, encontrou uma mensagem sem remetente: "Sabemos quem és. Estamos à tua espera." O coração acelerou, os dedos tremiam sobre o ecrã. Saiu apressado, mas na receção do hotel, a recepcionista entregou-lhe um envelope. Dentro, havia uma fotografia sua, capturada no momento exacto em que enganava o casal Henriques. No verso, uma única frase escrita a vermelho: "A tua dívida será paga em sangue."
Pedro tentou fugir, mas em cada cidade para onde se escondia, os sinais tornavam-se mais evidentes. Reflexos distorcidos nos espelhos, sombras que se moviam sem explicação, vozes sussurradas ao pé do ouvido.
 O caçador tornara-se presa.
Na última noite, antes de desaparecer por completo, Pedro trancou-se no quarto e escreveu uma única mensagem para Miguel, o primo que lhe emprestara dinheiro para iniciar os golpes, sem ele saber: "Perdoa-me. Não queria ser assim. Mas agora… agora é tarde demais."
Depois disso, ninguém nunca mais o viu.

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