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Fama


Lúcia sempre sonhara com a fama. Desde criança, encantava-se com os aplausos e os holofotes. Aos vinte e cinco anos, o sonho tornou-se real, uma estrela de cinema adorada por milhões. Mas a fama trouxe mais do que imaginara.

Certa noite, ao regressar do set de filmagens, encontrou uma carta na sua mansão, selada com cera preta. Não havia remetente, apenas uma mensagem perturbadora: "Tudo o que brilha tem uma sombra. Estás preparada para a tua?"

Lúcia tentou ignorar o aviso. Mas algo mudou. Sempre que passava pelo enorme espelho da sala, notava uma figura que não correspondia aos seus movimentos. Ao posar para as fotografias, um vulto indistinto aparecia ao fundo. Nos dias seguintes, os sonhos tornaram-se pesadelos, um murmúrio constante ecoava no escuro, como uma plateia invisível aplaudindo freneticamente.

Com o tempo, Lúcia começou a sentir-se observada, mesmo quando estava sozinha. O vulto no espelho ganhou contornos, um rosto pálido, com olhos vazios e um sorriso largo, que parecia sussurrar algo inaudível. Lúcia gritava, mas ninguém ouvia.

Uma noite, enquanto descia para a cozinha, ouviu passos atrás de si. Ao virar-se, viu a sombra, agora completamente sólida. Era ela mesma, mas mais alta, mais esguia, com uma expressão distorcida de prazer.
— Quem és tu? — perguntou Lúcia, tremendo.
— Eu sou aquilo que criaste — respondeu à sombra, com uma voz seca. — A fome por aplausos. A máscara que usaste. Eu sou o preço da tua fama.

Lúcia tentou fugir, mas a sombra perseguiu-a. Cada canto da casa estava ocupado por imagens suas: cartazes, prémios, capas de revistas. A sombra crescia com cada memória de glória.

Quando a manhã chegou, Lúcia desaparecera. No espelho, uma única frase escrita a sangue: "A fama tem um custo. Eu sou o teu."

As luzes apagaram-se, e o mundo esqueceu o nome de Lúcia. Afinal, uma nova estrela surgia, pronta para pagar o mesmo preço.

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