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A mostrar mensagens com a etiqueta Luz das Letras

A Escolha

  Quando regressou a casa, a caixa de veludo esperava-a sobre a cama. Dentro, um colar de diamantes capturava a luz da janela e espalhava-a pelas paredes vazias. Ela pousou a tampa e foi até à cozinha, sem pressa. No centro da mesa, num frasco antigo, três rosas inclinavam-se umas para as outras, com gotas a tremer à beira das pétalas. Passou a mão pelo vidro frio, onde a água turva deixava ver os caules cruzados. A casa guardava o cheiro húmido e doce das flores. Sentou-se e deixou os dedos perderem-se na delicadeza amarrotada das pétalas, onde a infância cheirava a terra e às mãos da avó. O colar ficou a brilhar sozinho, perdido no quarto distante. As flores respiravam com o ar da casa, as pedras permaneciam imóveis. Levou a mão ao peito, num gesto assertivo, firme. E foi às rosas que o corpo lhe respondeu. Nada mais pediu.   No instagram: #aluzdasletras.a.outrasartes   

Meu conto "O Silêncio de Vridavan"

A venda na Amazon.com.  uma obra que aborde a violência doméstica de forma abrangente — mulheres, homens, crianças e também a violência contra animais (que muitas vezes é o primeiro sinal de alerta dentro de uma casa). Porque a verdade é esta: há casas onde o amor deixou de ser amor e passou a ser medo — e alguém precisa de o escrever sem desviar o olhar. Com doar e ajudar as pessoas que estão na APAV.

O poder da Escrita Criativa

Primeiro exercício: Pegar no livro que esteja à mão, ir à página com o número da minha idade: Nome do livro: "Cartas a um jovem escritor" Capitulo: Moldar a verdade: "Diga o que pensa. Deverá escrever para não cair no silêncio. É essa a verdade, ou o mais próximo que conseguiremos chegar dela." Em 100 palavras: Para usar para desbloquear ideias e evitar plágio, transforma a história ou nega o conteúdo ou muda a personagem de feminino/masculino.   Diga o que não pensa, porque às vezes o pensamento nasce cansado e prefere esconder-se atrás das sombras. Não deverei escrever para cair no silêncio, como quem atira palavras ao fundo de um poço sem eco. Há frases que mentem devagar, outras que apenas se afastam da verdade, até já não reconhecerem o próprio rosto. Talvez seja essa a mentira: a distância crescente entre aquilo que sentimos e aquilo que queremos dizer. Ou talvez seja apenas o mais longe que conseguimos chegar dela, antes de regressarmos ao medo antigo de...

Palavrar - "A Arte de Largar" nesta Revista

A revista literária PALAVRAR – Ler e escrever é resistir vai estar novamente na Feira do Livro de Lisboa e não podíamos estar mais entusiasmados. Para projetos literários independentes como a PALAVRAR, chegar aos leitores não é apenas um objetivo: é uma necessidade. É assim que as novas vozes ganham espaço e o panorama literário nacional se renova. 🗓️ Sexta-feira, 12 de junho | 20h00 | Praça Azul Venha PALAVRAR connosco e apoiar os autores nacionais!

A pisciana que não se afoga

Dinâmica para Luz das Letras, sobre signo.   Peixes, esse signo de água que parece ter nascido entre sonhos molhados e intuições que chegam antes da realidade. Diz-se que a mulher pisciana do segundo decanato — com aquela pitada extra de sensibilidade e imaginação — vive com um pé no mundo e outro algures num universo paralelo onde até as regras têm licença poética. No papel, tudo encaixa como um horóscopo bem escrito: empatia, romantismo, criatividade, aquela tendência quase ancestral de sentir tudo antes de pensar. Na prática… contigo a história parece ter seguido outro protocolo. Ou o mapa astral foi devolvido por “endereço insuficiente”. Dizem que Peixes chora com música triste e se dissolve em devaneios ao ver o mar. Mas há aqui uma contradição curiosa: és peixe de água, sim, mas não de águas profundas. O fundo do mar não te chama, assusta-te. E não de forma metafórica bonita… mais daquele medo silencioso que aparece só de pensar. Basta imaginar a imensidão escura por ba...

A Prova Doce

Dinâmica da Luz das Luzes com 5 palavras à escolha: Quarto, quinze, quente, quidim, queixo.  Com o gato e cadela no colo e o tablet, ao ajustar desapareceu-me o texto. Quando fui a ler, ainda não tinha encontrado.  Encontrei hoje de manhã, como rascunho do word.  Aqui está ele:     No velho prédio onde o tempo rangia mais do que as escadas, e rangia com gosto, havia um quarto que ninguém queria alugar. Não por fantasmas. Isso ainda dava prestígio. Era pior: havia insistência… doce. Por apenas quinze moedas e um sorriso que já tinha visto demasiadas histórias, o senhorio entregou a chave ao Artur. — Alguma coisa que eu deva saber? — perguntou. — Enquanto houver ploc , há futuro — disse o senhorio. — E enquanto houver futuro… há renda. O calor lá dentro era quente de um modo quase pessoal. Não aquecia — pressionava. Primeira noite: ploc… ploc… ploc . Na mesa: um quidim perfeito. — Falta alma — disse Artur, após provar, como se tivesse sido nomead...

A Risada Culinária - Luz das Luzes

Eu acordei convencida de que era um génio… até tentar abrir uma lata com uma colher e quase declarar guerra à cozinha. A minha vida tem esse dom: transformar as tarefas simples em aventuras ridículas. A verdade é que acordei com aquela confiança inflamada que só dura até ao primeiro objeto doméstico se revoltar. A colher entortou como se estivesse a desistir da vida, a lata fez um som de escárnio e o gato, sentado na bancada, inclinou a cabeça com a superioridade moral de quem já viu demasiado. Ele é que lambe as paredes, e aparentemente se acha no direito de avaliar as minhas escolhas. Grécia apareceu-me no pensamento sem razão, talvez porque também lá inventaram tragédias, e eu estava prestes a protagonizar uma. Decidi cozinhar algo “sofisticado” e acabei a discutir com uma cebola, que me venceu claramente. Enquanto me fazia chorar com a crueldade de um vilão clássico, imaginei um coro grego a narrar o meu fracasso culinário. A cebola escorregava das mãos como se tivesse vida própr...

O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10

   

O menino que guardava o mar

Era uma vez uma criança chamada Tomás, que vivia numa aldeia onde o horizonte era feito de montes suaves e campos dourados. Para ele, o mundo terminava ali — no ponto onde o céu parecia pousar sobre a terra. O avô falava-lhe muitas vezes do mar: descrevia-o como uma água sem fim, inquieta como um coração cheio de segredos. Tomás imaginava-o à noite, deitado na cama: ora um monstro azul a respirar devagar, ora um espelho gigante onde o céu se deitava para descansar. Nunca sabia ao certo se devia ter medo ou curiosidade. Um dia, a mãe disse-lhe: “Vamos viajar.” Havia um brilho diferente nos olhos dela, como se guardasse uma surpresa antiga. Partiram por estradas que pareciam não acabar, e Tomás, com uma concha pequena que o avô lhe dera — “para quando vires o mar” — apertada na mão, tentava adivinhar o que os esperava. O ar começou a mudar. Tornou-se mais salgado, mais vivo, como se tivesse memória. Tomás sentiu o coração bater mais depressa. Quando chegaram, a mãe pediu-lhe que fechasse...

Mar de Fundo

Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurante ...

O Rosto da Manhã

Desafio: E se amanhã acordasse com o rosto diferente? Acordei antes do despertador. Ainda era cedo; a luz entrava pelas separações da persiana como um sussurro antigo, tímido, quase respeitoso. Havia qualquer coisa fora do lugar, não no quarto, não nos móveis, mas no ar. Um silêncio espesso, como se a casa estivesse à espera de mim. Levantei-me. O chão estava frio. Caminhei até à casa de banho ainda meio adormecido, preso à rotina como quem se agarra a uma corda no escuro. Abri a torneira. A água correu. Levei as mãos ao rosto. Um gesto simples. De todos os dias. Levantei os olhos. Parei. Não. Afastei-me do espelho de repente, como se tivesse visto algo que não devia. O coração acelerou, seco, irregular. Voltei a olhar, devagar, quase contra a minha própria vontade. O homem no espelho não era eu. Respirei fundo. O ar parecia mais pesado. Aproximei-me. Inclinei a cabeça. Ele fez o mesmo. Passei os dedos pela face, a pele respondeu, mas não era a minha. Havia uma cica...