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O Rosto da Manhã

Desafio: E se amanhã acordasse com o rosto diferente?

Acordei antes do despertador. Ainda era cedo; a luz entrava pelas separações da persiana como um sussurro antigo, tímido, quase respeitoso. Havia qualquer coisa fora do lugar, não no quarto, não nos móveis, mas no ar. Um silêncio espesso, como se a casa estivesse à espera de mim.

Levantei-me.

O chão estava frio.

Caminhei até à casa de banho ainda meio adormecido, preso à rotina como quem se agarra a uma corda no escuro. Abri a torneira. A água correu. Levei as mãos ao rosto.

Um gesto simples. De todos os dias. Levantei os olhos. Parei.

Não.

Afastei-me do espelho de repente, como se tivesse visto algo que não devia. O coração acelerou, seco, irregular. Voltei a olhar, devagar, quase contra a minha própria vontade.

O homem no espelho não era eu.

Respirei fundo. O ar parecia mais pesado. Aproximei-me. Inclinei a cabeça.

Ele fez o mesmo.

Passei os dedos pela face, a pele respondeu, mas não era a minha. Havia uma cicatriz fina junto ao queixo, um traço antigo que não me pertencia. A barba nascia de forma irregular. Os olhos… os olhos tinham um peso estranho, como se carregassem dias que eu não vivi.

Abri a boca.

— Isto não é real.

A voz saiu diferente. Mais grave. Senti-a vibrar no peito, descer como um eco que não reconhecia, como se viesse de um lugar mais fundo do que o meu.

Fiquei imóvel. Recuo. Olho outra vez.

Nada muda.

Voltei ao quarto. Procurei fotografias — gavetas abertas, molduras nas mãos. Ali estava eu. O meu rosto. O de sempre.

Mas no reflexo do vidro… já não.

Sentei-me na beira da cama, com a fotografia nas mãos. Veio-me à memória, sem aviso, o desejo antigo de desaparecer. Recomeçar. Ser outro. Alguém sem o peso das escolhas mal feitas.

Um pensamento que nunca levei a sério.

Até agora.

Saí de casa sem saber bem porquê. O ar da manhã cortava a pele. Caminhei entre pessoas apressadas, vidas alinhadas como relógios. Passei por uma montra e vi-o outra vez, o estranho que agora me habitava.

Uma mulher cruzou-se comigo e abrandou ligeiramente. Franziu as sobrancelhas, como se quase me reconhecesse. Os olhos demoraram-se um segundo a mais. Um quase.

Depois seguiu caminho.

Ninguém me chamou pelo nome. Ninguém me prendeu ao que eu era.

Sentei-me num banco de jardim. À minha frente, um pai ensinava o filho a andar de bicicleta. “Outra vez”, dizia. “Levanta-te outra vez.”

Fiquei a olhar. Talvez fosse isso. Levantar.

Voltei para casa ao fim de um tempo que não soube medir. A porta rangeu como sempre. Tudo permanecia no lugar, como se nada tivesse acontecido.

Na mesa da sala, repousava o caderno. O mesmo de sempre. Abri-o.

Numa das páginas, uma frase interrompida:

“Se eu pudesse começar de novo, eu…”

Fiquei a olhar para aquelas palavras como quem encontra uma versão antiga de si próprio, deixada para trás sem coragem.

Fechei o caderno com cuidado. Levei-o comigo até à casa de banho.

O espelho esperava. O homem também.

Aproximei-me. Toquei na cicatriz. Demorei o gesto, como se pudesse ler ali uma história que ainda não conhecia.

Sorri.

Estranho. Inseguro. Mas aberto.

Talvez o rosto não fosse um castigo. Talvez fosse uma pergunta.

E, pela primeira vez, não procurei reconhecer quem estava do outro lado.

Deixei que o silêncio respondesse.

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