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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2026

Meio Século

À beira dos cinquenta caminho assim, Com histórias guardadas em mim. Algumas de riso, outras de batalha, Dias de sol, noites de falha.         Carrego no peito o que não arrefeceu, Sonhos antigos que o tempo não perdeu A vida rascunha em passos e trilhos, Entre erros, coragem e pequenos brilhos.   Não sou ainda o homem do fim da estrada, Sou ponte entre o ontem e a nova jornada. E às vezes descubro, quase sem saber, Que ainda há muito de mim para conhecer.   Se alguns fios brancos vierem pousar, Serão como neve, a chegar devagar Sobre os caminhos que a vida gravou, Marcas discretas de tudo o que sou.   Escrevo memórias em dias serenos, Da casa, da vida, dos laços pequenos. E percebo, afinal, quase sem notar, Foi isto que sempre quis guardar.   À beira dos cinquenta, não no fim, mas onde o curso abranda dentro de mim. Meio século feito, sem pedir perdão, e ainda caminho, com o resto na mão.  ...

Mistério no Mar (88 palavras)

De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.

Mar de Fundo

Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurante ...

Ecos na Mente

O mundo moderno move-se depressa demais, e a mente tenta acompanhá-lo com passos curtos, partidos, como se nunca chegassem a formar caminho inteiro. Nas ruas, nos transportes, nos cafés, os rostos parecem ocupados antes mesmo de estarem presentes. Há sempre qualquer coisa a acontecer por dentro, mesmo quando por fora nada se move. Nos ecrãs, tudo chama ao mesmo tempo. Pequenas urgências sem hierarquia. E a mente responde, uma atrás da outra, como se não pudesse recusar nenhuma. Em casa, o silêncio existe, mas não descansa. Está cheio. Cheio de pensamentos que não acabam, de repetições discretas, de coisas que voltam sem aviso. Há um peso que não se vê. Não se mede. Mas sente-se. Respirações que não chegam ao fim. Ideias interrompidas a meio. Noites em que o corpo se deita, mas a cabeça continua em pé. A ansiedade não chega como visitante. Já está. E começa a empurrar o tempo para a frente, mesmo quando ele não precisa de ser empurrado. Obriga a mente a viver em dois lugar...

O Rosto da Manhã

Desafio: E se amanhã acordasse com o rosto diferente? Acordei antes do despertador. Ainda era cedo; a luz entrava pelas separações da persiana como um sussurro antigo, tímido, quase respeitoso. Havia qualquer coisa fora do lugar, não no quarto, não nos móveis, mas no ar. Um silêncio espesso, como se a casa estivesse à espera de mim. Levantei-me. O chão estava frio. Caminhei até à casa de banho ainda meio adormecido, preso à rotina como quem se agarra a uma corda no escuro. Abri a torneira. A água correu. Levei as mãos ao rosto. Um gesto simples. De todos os dias. Levantei os olhos. Parei. Não. Afastei-me do espelho de repente, como se tivesse visto algo que não devia. O coração acelerou, seco, irregular. Voltei a olhar, devagar, quase contra a minha própria vontade. O homem no espelho não era eu. Respirei fundo. O ar parecia mais pesado. Aproximei-me. Inclinei a cabeça. Ele fez o mesmo. Passei os dedos pela face, a pele respondeu, mas não era a minha. Havia uma cica...

Fazer anos

Fazer anos é ganhar tempo dentro da alma. É aprender a olhar melhor as pessoas, a entender um pouco mais os silêncios do coração e os mistérios simples da vida. É descobrir que vale mais construir do que destruir, amar mais do que odiar, e viver o agora, porque é nele que a vida realmente acontece. Fazer anos é ver flores no caminho e escolher não pisá-las. É tornar-se mais paciente, mais generoso com o mundo e mais humilde consigo mesmo. É fechar ciclos antigos e abrir portas para novas experiências. É perceber que poucos amigos verdadeiros valem mais do que multidões. Hoje, dia 13, sexta-feira, um dia especial na minha vida, agradeço. Agradeço pela vida que tenho, pela família, pelos amigos que vivem no meu coração e pelos anjinhos que sempre me acompanham. Que hoje se acenda mais uma pequena luz no caminho de mais um ano de vida. Com paz, gratidão e felicidade.

A Herança das Mulheres

Hoje, as mulheres caminham com os pulsos livres. Nem sempre foi assim. O celular vibra na palma, o autocarro passa sem esperar, o dia corre antes de nós. Mas há ecos que chegam de longe, de corpos que antes suportavam tudo em silêncio, de mãos calejadas de sabão e frio, de ombros curvados pelo peso que nunca se dizia, de vozes caladas. As avós, as bisavós, as mulheres que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, conheciam outra medida do tempo. O corpo era território de comando alheio: tarefas sem fim, filhos para cuidar, trabalho sem contrato, silêncio imposto. O cansaço não era desculpa; era lei. Aprendiam cedo que obedecer era sobreviver, que sorrir era negociar dignidade. Cada gesto de resistência era mínimo: um olhar que durava, um passo que se recusava a dobrar-se, uma mão que segurava outra em segredo. Pequenos atos que, somados, criaram história. Ainda sentimos a herança no corpo. No trabalho, microagressões atravessam o dia. Elogios que escondem exigência...

Corpos e Identidades

Desde cedo, o mundo ensina mapas invisíveis: linhas que separam o que se espera de rapazes e raparigas, homens e mulheres, corpos que aprendem a caber em caixas que nunca pediram. Não são mapas desenhados em papel — são repetidos em gestos, palavras e silêncios quotidianos. Nos gestos mais simples, nas frases ditas sem reflexão, nos olhares que aprovam ou corrigem sem explicação, reproduz-se uma geografia silenciosa de direitos e limites. No recreio, as meninas aprendem cedo que ocupar demasiado espaço pode ser interpretado como excesso. Que a voz alta pode ser lida como desajuste. Que correr, disputar ou insistir não é apenas ação — é julgamento. Os rapazes aprendem outra disciplina: conter o choro, evitar a hesitação, transformar fragilidade em algo que não se mostra. A aprendizagem não é formal. É contínua. Cada gesto corrigido, cada riso interrompido, cada elogio condicionado constrói uma ideia de normalidade sem assinatura, mas amplamente reconhecida. No trabalho, a desi...

Puzzle - a peça do desafio das letras

A antiga peça apareceu sobre a mesa numa madrugada imóvel, como se tivesse sido deixada por mãos que recusavam ser lembradas.  Era redonda, do tamanho exato de uma moeda grande, discreta demais para dominar o tabuleiro, mas impossível de ignorar.  A superfície mostrava um vermelho desbotado, atravessado por uma linha dourada que não conduzia a lado nenhum. Ao toque, era fria, feita de cartão espesso, com as bordas gastas como se tivesse viajado por lugares que ninguém ousaria nomear. Em redor, quase completo revelava um céu estranho, um sol pálido, uma lua vigilante e sombras que lembravam criaturas antigas.  No centro, porém, permanecia o vazio reservado àquela peça circular, deslocada de todas as outras, como se tivesse sido criada para um enigma diferente.   Cada tentativa de encaixe falhava antes mesmo de começar.  A peça rodava, recusava, parecia antecipar o erro das mãos que a guiavam. Havia nela uma resistência silenciosa, uma recusa que não era físi...

Agarrar o sonho

 

Um obrigada a quem proporcionou uma noite maravilhosa

A Lapa não é para todos.  Casas antigas, de outro tempo, onde o pé-direito alto obriga a levantar o olhar e a baixar o tom. Sancas desenhadas à mão, portas pesadas, janelas de madeira que já viram décadas. Paredes cheias, não minimalistas, mas vividas. Quadros, pinturas, bonecos herdados, fotografias a preto e branco, pratos decorativos, livros gastos, CDs arrumados como quem ainda acredita no objeto. Tapetes de Arraiolos no chão. E, como centro moral da sala, um piano de cauda. Ali não há pressa. Há história. Jantar demorado, comida feita com intenção pelas mãos do filho, nada de invenções vazias, tudo delicioso. Conversa limpa, olhos atentos, gente que sabe estar. Encanto não se compra, constrói-se assim, camada sobre camada. E depois, silêncio. Francisco Sassetti (famoso pianista), ao piano com duas músicas e “Amélie”. As primeiras notas, delicadas, mas firmes. Não é música para impressionar, é música para tocar onde dói e onde cura. O piano respira. A sala encolhe...