Dinâmica da Luz das Luzes com 5 palavras à escolha: Quarto, quinze, quente, quidim, queixo.
Com o gato e cadela no colo e o tablet, ao ajustar desapareceu-me o texto. Quando fui a ler, ainda não tinha encontrado.
Encontrei hoje de manhã, como rascunho do word.
Aqui está ele:
No velho prédio onde o tempo rangia mais do que as escadas, e rangia com gosto, havia um quarto que ninguém queria alugar. Não por fantasmas. Isso ainda dava prestígio. Era pior: havia insistência… doce.
Por apenas quinze moedas e um sorriso que já tinha visto demasiadas histórias, o senhorio entregou a chave ao Artur.
— Alguma coisa que eu deva saber? — perguntou.
— Enquanto houver ploc, há futuro — disse o senhorio. — E enquanto houver futuro… há renda.
O calor lá dentro era quente de um modo quase pessoal. Não aquecia — pressionava.
Primeira noite: ploc… ploc… ploc.
Na mesa: um quidim perfeito.
— Falta alma — disse Artur, após provar, como se tivesse sido nomeado por decreto.
Segunda noite: ploc… plooc… ploc.
— Está melhor… mas ainda não emociona ninguém que pague impostos — avaliou.
Terceira noite: o encontro.
Do teto desceu o fantasma, sorriso largo, queixo determinado.
— Preciso de crítica honesta — disse.
— Encontrou o seu problema — respondeu Artur.
O fantasma confessou tudo: vida de pasteleiro, fracasso no quidim, tentativas falhadas no além.
— Fui fantasma de castelo… muito frio. Depois tentei padaria… mas o pastel de nata sempre me olhou de cima.
— Com razão — disse Artur. — Tem marketing.
Vieram noites de testes, erros e tragédias culinárias.
— Hoje é versão moderna — disse o fantasma.
— Se for “low-carb”, eu denuncio-o ao além — avisou Artur.
— …é low-carb.
— Então já morreu duas vezes — respondeu Artur, após provar.
Mas o tempo, e o açúcar, foram afinando tudo. E sem dar por isso, Artur deixou de ser apenas consumidor. Tornou-se mentor. Quase… necessário. Numa madrugada especialmente quente, o som veio perfeito: ploc… ploc… ploc.
O fantasma apareceu leve.
— Hoje é o dia.
Artur provou. Silêncio. Um segundo. Dois.
— Está perfeito.
O fantasma sorriu, emocionado.
— Se te lembrares… diz que fui eu que inventei a textura 17.
E desapareceu. O calor subiu, orgulhoso. Silêncio. Artur ficou parado. Olhou para o teto. Esperou. Nada.
Franziu o sobrolho.
— Isto agora acabou? — murmurou, ligeiramente ofendido.
Na manhã seguinte:
— Então, fica? — perguntou o senhorio.
Artur cruzou os braços, sério.
— Fico. Mas tenho uma reclamação.
— Diga.
— O serviço piorou.
— Como assim?
— Antes havia sobremesa todas as noites. Agora tenho… silêncio.
O senhorio pensou um segundo. Depois encolheu os ombros.
— Posso aumentar a renda.
Artur suspirou, resignado.
— Claro que pode.
Nesse exato momento: ploc.
Ambos olharam para a mesa. Um quidim. Perfeito. E ao lado… um papel. “Voltei. Abri consultoria.” Artur sorriu, pela primeira vez sem crítica.
— Pronto — disse. — Assim já faz sentido.
O senhorio pegou no caderno, anotou calmamente:
— Textura 18. Com espírito empreendedor.
E acrescentou, fechando-o:
— Afinal… enquanto houver ploc, há negócio.

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