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A mostrar mensagens com a etiqueta Observações do Quotidiano

A Estrada Não Perdoa

As estradas podem ser boas ou más. Há as novas, lisas, confiantes. Há as gastas, cheias de remendos e memória. Mas nenhuma estrada corrige a distração de quem conduz. O que decide nunca é apenas o piso, é o gesto. Um olhar que falha. Um segundo a mais. Um segundo basta. Conduz-se hoje como se o carro pensasse por nós. Entra-se, roda-se a chave, e parte-se. Poucos verificam pneus, óleo, travões. Confia-se que tudo funcione porque ontem funcionou. A máquina anda, logo está segura. Mas a segurança não é automática. É um hábito consciente que se renova todos os dias e que muitos deixaram cair. Na chuva e no nevoeiro, a estrada enche-se de sombras em movimento. Carros sem luzes. Outros apenas com mínimos, invisíveis atrás, como se não existissem. Avançam a velocidades incompatíveis com o que os olhos conseguem realmente captar. Pergunto-me se veem o caminho ou se conduzem por memória, como quem atravessa um quarto escuro de olhos fechados, convencido de que nada mudou desde ontem. Os ...

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...

O Segundo Apagão

       Vivemos convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.      Até ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que escurece o céu e pesa por dentro.      A luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.      Na rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão está ali, ainda quente. A água também. Mas não h...