Vivemos
convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela
tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e
manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à
corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência
com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.
Até
ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que
escurece o céu e pesa por dentro.
A
luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não
acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha
vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica
muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.
Na
rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão
está ali, ainda quente. A água também. Mas não há internet, não há multibanco,
não há “aproxima e segue”. Ninguém tem dinheiro na mão. O comerciante encolhe
os ombros, os pais baixam os olhos, a criança segura uma moeda antiga como se
fosse um achado arqueológico.
Somos
a geração mais equipada e a menos preparada.
Os
estragos acumulam-se em silêncio. Sem frigorífico, a comida perde-se. Sem
bombas elétricas, falta água. Sem sistemas automáticos, ninguém sabe abrir
manualmente, ajustar, improvisar. Não há velas, não há rádio a pilhas, não há
fogão a gás, não há reservas.
Não
há kit de sobrevivência, porque fomos ensinados que prever o pior era falta de
fé no progresso.
Confiámos
tudo à corrente e Puff, falhou. E quando tempo?
A
tecnologia não é o problema. A dificuldade é o progresso sem alternativas. O
verdadeiro avanço não elimina o básico, sustenta-o. Mas preferimos casas cheias
de sensores a mãos que saibam acender um fogo, optamos por números invisíveis a
notas que pesam no bolso, elegemos promessas a opções reais.
E
quando tudo falha, a fragilidade não é só material.
O
apagão de fora encontra o vazio de dentro.
Antigamente,
palavra hoje tratada como defeito, as coisas eram mais lentas e mais sólidas.
Havia fogo que ardia sem fios, dinheiro que passava de mão em mão, comida
guardada para dias maus, vizinhos que sabiam ajudar sem precisar de sinal. Não
era romantismo. Era prudência. O passado tinha falhas, mas possuía memória. E a
lembrança é uma forma de energia que não se apaga.
Não
é um apelo ao regresso. É uma súplica à responsabilidade.
Porque
um futuro que elimina as alternativas não é evolução é amnésia. E o amanhã que
vale a pena não é o que brilha nem o que promete tudo.
É
o que resiste.

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