As estradas podem ser boas ou más. Há as novas, lisas, confiantes. Há as gastas, cheias de remendos e memória. Mas nenhuma estrada corrige a distração de quem conduz. O que decide nunca é apenas o piso, é o gesto. Um olhar que falha. Um segundo a mais. Um segundo basta.
Conduz-se hoje como se o carro pensasse por nós. Entra-se, roda-se a chave, e parte-se. Poucos verificam pneus, óleo, travões. Confia-se que tudo funcione porque ontem funcionou. A máquina anda, logo está segura. Mas a segurança não é automática. É um hábito consciente que se renova todos os dias e que muitos deixaram cair.
Na chuva e no nevoeiro, a estrada enche-se de sombras em movimento. Carros sem luzes. Outros apenas com mínimos, invisíveis atrás, como se não existissem. Avançam a velocidades incompatíveis com o que os olhos conseguem realmente captar. Pergunto-me se veem o caminho ou conduzem-se por memória, como quem atravessa um quarto escuro de olhos fechados, convencido de que nada mudou desde ontem.
Os autocarros passam, grandes, pesados, cheios de gente. Avançam muitas vezes como se o tamanho lhes conferisse autoridade. Como se transportar dezenas de vidas diminuísse o risco em vez de o multiplicar. Curvas feitas depressa, paragens tardias, acelerações desnecessárias. Conduzir não é apenas deslocar um veículo. É sustentar um peso que não é só mecânico.
A estrada parece rotina. Sempre o mesmo percurso, as mesmas passadeiras. Afinal são os mesmos semáforos. É isso que engana. Porque a estrada também é o lugar da rutura súbita. Um instante deslocado. Um gesto banal fora do tempo.
Lembro-me de um condutor de autocarro que se suicidou após atropelar mortalmente uma criança numa passadeira. Tinha deixado o veículo descair enquanto dava o troco. Um gesto automático. Uma atenção dividida. O autocarro avançou centímetros suficientes. O corpo pequeno não teve tempo. A vida interrompeu-se ali. Duas, afinal.
A estrada não esquece esse tipo de coisa. Fica o som seco do impacto que ninguém consegue apagar. Fica a passadeira pintada de novo, como se isso resolvesse. Permanece o volante seguro por mãos que nunca mais serão as mesmas. Persiste um silêncio pesado que atravessa todas as outras passadeiras, mesmo as que parecem tranquilas. Cada travagem tardia carrega esse eco.
Falta civismo. Falta a ideia elementar de que a estrada é espaço comum. Passa-se à frente porque se pode. Porque se tem pressa. Porque se acha que o lugar social protege do acidente. Mas o asfalto não reconhece cargos. O impacto não pergunta quem somos. O código da estrada é igual para todos — ou deixa de ser código e passa a ser sorte.
Há um momento perigoso em quem conduz há muitos anos: aquele em que a experiência se confunde com imunidade. “Nunca tive um acidente.” “Conheço bem este caminho.” “Sei o que estou a fazer.” É aí que o cuidado começa a falhar. A confiança excessiva afrouxa a atenção. E a estrada não corrige excessos de confiança.
Talvez por isso a formação rodoviária não devesse acabar com a carta. A partir de certa idade, ou de certo tempo ao volante, devia voltar. Não como punição, mas como lembrança. Para atualizar regras, corrigir vícios, desmontar certezas. Para mostrar, com números e simulações, o que um corpo não aguenta, o que um segundo provoca, o que uma travagem tardia decide.
As estatísticas não são frias para quem as entende. São relatos comprimidos. As simulações não são exageros, são traduções. Mostram aquilo que ninguém quer imaginar até ser tarde. Mudam comportamentos porque retiram a ilusão de controlo.
Conduzir é um acordo silencioso entre desconhecidos. Eu cuido, porque tu estás aí. Eu abrando, porque alguém pode atravessar. Ligo as luzes, porque alguém precisa de me ver. Quando esse acordo se rompe, a estrada deixa de ser circulação e passa a ser risco.
A estrada não exige heroísmo. Requer atenção. Procura luzes ligadas quando a visibilidade falha. Pede velocidade ajustada ao que se vê e ao que não se vê. Quer manutenção básica, paciência, respeito. Solicita civismo, essa palavra antiga que continua a separar o trânsito da tragédia.
No fim, é raramente a estrada que falha primeiro. Somos nós, quando confundimos hábito com competência, quando chamamos pressa à imprudência, quando esquecemos que cada volante, agarra ou tira vidas que não conhecemos.
A minha mãe diz-me para conduzir com cuidado. Não por medo de mim, mas da condução dos outros.
A estrada não perdoa. Ver e ser visto salva vidas.
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