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Mensagens

O Silêncio Depois do Ruído

  Há um ruído constante no mundo — discursos, bandeiras, mapas riscados a linhas duras como se fossem destinos inevitáveis. Fala-se de estratégia, de poder, de equilíbrio global. Mas raramente se fala do silêncio que fica depois. Porque no fim, quando os holofotes se apagam e os analistas passam ao próximo tema, quem permanece são as pessoas. As mesmas que acordam cedo, que levam filhos à escola — se ainda houver escola —, que fazem contas no fim do mês com números que já não chegam. Não decidiram guerras, não desenharam alianças, não assinaram tratados. Mas vivem com as consequências como quem herda uma dívida antiga que nunca contraiu. Entre o ruído e a vida real há sempre uma distância invisível. E é nessa distância que tudo pesa mais. Há algo de profundamente injusto neste ciclo. O poder move-se como se fosse eterno, jogando peças num tabuleiro vasto, enquanto a vida real é frágil, concreta, feita de dias pequenos. Um aumento no preço do combustível não é uma abstração ...

A Teia das Bênçãos e das Maldições

 A aldeia despertava sempre envolta num véu húmido, como se a noite exalasse um suspiro que ninguém ousava decifrar. Os habitantes moviam-se com cuidado, evitando certas janelas, portas que permaneciam fechadas desde sempre, como se respeitassem um pacto silencioso. Na casa mais antiga, de telhado cansado e janelas estreitas, Clara descobriu um rosário enterrado sob o soalho. Cada conta parecia conter uma gota de água presa no tempo, translúcida e fria, ou um fragmento de unha antiga que provocava arrepios. Ao tocá-lo, sentiu um calor estranho que lhe percorreu o braço. O silêncio da casa tornou-se denso, atento, carregado de uma presença que se contorcia nas sombras. Lá fora, o vento murmurava pelos campos, e dentro tudo parecia escutar-se a si mesmo. Nos dias que se seguiram, bênçãos pequenas começaram a surgir. A água do poço subiu, clara como nunca. As galinhas, antes inúteis, encheram o cesto com ovos. Até o animal gasto pelo tempo recobrou forças, movendo-se com cautela mas...

Fazer catorze anos

É estar entre duas margens: uma já conhecida, a infância que se despede devagar, e outra que ainda assusta, a juventude que se anuncia com promessas e dúvidas. É sentir o corpo crescer antes de a alma estar pronta. É olhar-se ao espelho e perceber que o rosto muda, mas os olhos continuam à procura do mesmo abrigo. O tempo começa a correr de outra forma: mais veloz, mais exigente. Já não basta sonhar, é preciso escolher, decidir e errar.   As vozes dos adultos soam mais distantes, e o coração pede liberdade, mas teme o que ela traz. Há um certo encanto em fazer catorze anos: o mundo parece mais largo, mais profundo, mais intenso. As amizades ganham peso de eternidade, os amores nascem num olhar e morrem num silêncio. Tudo é exagerado: a alegria, a dor, o riso e a lágrima. Mas também há um despertar: a consciência de que o tempo não volta, que crescer é aprender a deixar ir. É começar a caminhar sozinho, com o medo de um lado e a esperança do outro, mantendo o equ...

Outono Interior

Revista Palavrar - A Melodia das Ruínas

O Ritmo da Memória

  No largo da aldeia, o sino não apenas marca a hora — dobra o tempo sobre si mesmo. Há momentos em que parece não anunciar o presente, mas chamar o passado de volta, como se ainda estivesse disponível, intacto. As barracas do mercado abrem-se em cores e cheiros que não pertencem apenas ao dia, mas a muitos dias sobrepostos. Vozes cruzam gerações sem pedir autorização. Cada gesto — o pão amassado, o vinho servido, a fruta exposta ao sol — não é apenas comércio. É repetição. E a repetição, aqui, é forma de continuidade. O passado não está atrás. Está embutido no gesto. Nas festas populares, nada começa verdadeiramente do zero. Tudo já foi visto antes, mas nunca exatamente da mesma forma. A comunidade reconhece isso no corpo antes de o reconhecer na consciência. O ritmo da dança, a batida do tambor, o movimento coletivo das ruas: tudo isso mede pertença mais do que qualquer palavra. A festa não é interrupção da vida. É a sua reorganização simbólica. As crianças aprendem c...

Fala

Na aldeia engolida pela névoa, ninguém falava depois do pôr do sol. Dizia-se que as palavras, libertas no ar frio, ganhavam corpo e voltavam famintas a procurar quem as soltou. Helena não acreditava. O pai ensinara-lhe a chamar o vento com o nome das coisas perdidas, a sombra de um cão, o riso da mãe, o som das campainhas ao longe. Às vezes parecia ouvir resposta. Nessa noite, cansada do medo dos outros, subiu à colina e gritou o nome dele. O chamamento regressou, denso, como se tivesse atravessado a terra húmida. — Helena. Não era eco. Era retorno. O ar tremeu. Da bruma ergueu-se algo que lembrava uma boca feita de sombra e vapor. O sussurro enchia-lhe o peito, puxava-lhe o fôlego para fora. — Deixa-me entrar. As sílabas tocaram-lhe a pele, quentes, viscosas. Escorriam-lhe pelo pescoço, entravam-lhe nos ouvidos, serpentinas de som à procura de abrigo. Tentou falar, mas o ar já não lhe pertencia. Na manhã seguinte, encontraram-na junto ao poço, imóvel. Os olhos, fixos na água, ...

A Folha que Ria do Outono

Dinâmica: Com 300 palavras com titulo,1º paragrafo contém vinte e duas palavras,2º paragrafo contém nove palavras,3º paragrafo contem vinte e cinco palavras, as palavras obrigatórias Outono e folha. Tem de acabar com a palavra não. O sino da aldeia ecoava três vezes, anunciando o Outono com ares de velho farsante. Uma folha ria-se, convencida de que nunca cairia. O padeiro observava, riu, bocejou, tossiu. Espreguiçou-se. Depois sorriu. A folha, levada pelo vento maroto, girava descontrolada sobre telhados, tropeçando em chaminés, beijando janelas, mergulhando em poças barrentas, zombando do ciclo inevitável da gravidade. As crianças batiam palmas, mas não só. Uma menina tentou agarrá-la, falhando de propósito. Um rapaz imitava as piruetas, quase caindo do muro. Até o padre, que raramente se deixava corromper pelo riso, apertou o rosário com mais leveza, como se cada conta fosse aplauso secreto. O vento, vendo a multidão rendida ao espetáculo, decidiu exagerar, lançando a fo...