Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Harriet

  Harriet (2019) é um drama biográfico que retrata a vida de Harriet Tubman , uma das figuras mais importantes da luta contra a escravidão nos EUA. O filme mostra: sua fuga da escravidão em 1849, o percurso de quase 160 km até a liberdade, o retorno clandestino ao sul para resgatar familiares, e sua atuação como líder no Underground Railroad , ajudando centenas de pessoas a escapar.

Bodas de Ouro - Chico e Inha

                 Cinquenta anos não são acaso.   São casa firme, construída devagar, são mãos que nunca largaram o laço, mesmo quando o mundo parecia desabar.   São passos dados lado a lado,   no sol ardente e na noite fria. É o “sim” mantido, renovado, na força simples de cada dia.   Sempre prontos. Sem alarde.   Sempre firmes. Sem vaidade. Presentes cedo, presentes tarde, fiéis à mesma verdade.   Não foram feitos de fantasia,   mas de trabalho, riso e cansaço. Foram coluna. Foram guia. Foram abrigo. Foram abraço.   E eu, que cresci à vossa beira,   desde o início desta jornada, trago-vos como raiz primeira, como porto seguro da minha estrada.   Foram padrinhos de promessa inteira,   segundos pais no gesto e no cuidado. Amigos de vida verdadeira, amor provado e confirmado.   Cinco décadas de chão vivido,   de lu...

Entre Goa e o tempo

  Dizem que tudo começou em Goa, mas a verdade é que começou antes disso, num tempo em que as mulheres não escolhiam, eram escolhidas. O meu avô foi lá buscar a minha avó. Ela ainda era jovem quando deixou a sua casa, sem saber ao certo se partia ou se era levada. No registo da família ficou apenas uma fotografia desbotada e um casamento que ninguém questionava em voz alta. Partiram para Moçambique. O mar não era metáfora, era distância concreta. A travessia não tinha mapas emocionais, só continuidade. Vieram os filhos. A casa encheu-se de vozes pequenas e regras grandes. A vida seguia em linha reta, como um caminho que não admite desvios nem perguntas. A minha mãe cresceu nesse compasso. Era a única rapariga entre irmãos, num espaço onde se aprendia cedo a observar mais do que a decidir. A minha avó dizia, enquanto dobrava roupa ou mexia no arroz, que um dia iria “buscar um pretendente a Goa” para ela também. Não era ameaça nem plano, era apenas o que se dizia, como quem d...

Sementeira Vermelha

 

Subsolo Vivo

A semente veio escondida na terra — mas, olhando para trás, suspeito que já estivesse em mim. Antes disso, houve sinais. Uma comichão persistente nos dedos, sob as unhas. Sonhos viscosos, sem forma: terra húmida, dentes a romper no escuro. Acordava cansado. As mãos, sujas. Plantei-a na mesma. Talvez por hábito. Talvez por obediência. No primeiro dia, nada. No segundo, um rebento pálido. No terceiro, sangue — espesso, quente, familiar. Continuei a regar. Não por cuidado, mas por impulso. Um gesto antigo, automático, como se algo em mim reconhecesse o que nascia. As folhas surgiram com veias finas. Pulsavam. E eu comecei a sentir o mesmo. À noite, ouvia um som húmido. Mastigar lento. Dentro de mim, uma resposta. No quinto dia, acordei com dor. O dedo aberto, a carne exposta. A planta inclinava-se na minha direcção. Quase terna. Veio o medo. Logo depois, a raiva. Tentei arrancá-la. As raízes não eram raízes. Eram dedos — brancos, tensos, enterrados com desespero. Quando puxei, senti resis...

A Guerra e o Poder

  A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto. Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável. O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença. Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos. Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já est...

A Risada Culinária - Luz das Luzes

Eu acordei convencida de que era um génio… até tentar abrir uma lata com uma colher e quase declarar guerra à cozinha. A minha vida tem esse dom: transformar as tarefas simples em aventuras ridículas. A verdade é que acordei com aquela confiança inflamada que só dura até ao primeiro objeto doméstico se revoltar. A colher entortou como se estivesse a desistir da vida, a lata fez um som de escárnio e o gato, sentado na bancada, inclinou a cabeça com a superioridade moral de quem já viu demasiado. Ele é que lambe as paredes, e aparentemente se acha no direito de avaliar as minhas escolhas. Grécia apareceu-me no pensamento sem razão, talvez porque também lá inventaram tragédias, e eu estava prestes a protagonizar uma. Decidi cozinhar algo “sofisticado” e acabei a discutir com uma cebola, que me venceu claramente. Enquanto me fazia chorar com a crueldade de um vilão clássico, imaginei um coro grego a narrar o meu fracasso culinário. A cebola escorregava das mãos como se tivesse vida própr...

Os Pequenos que Observam o Mundo

As praças e ruas cheias de crianças são mapas invisíveis de desigualdade. Há quem corra livre entre árvores e bancos, mochila ao ombro, riso solto no ar. E há quem conheça apenas corredores estreitos de prédios, quintais vazios, ruas onde o som dos passos se repete sempre igual. O espaço não é neutro. Cada brinquedo, cada campo de jogo, cada biblioteca aberta é uma possibilidade. Cada ausência é uma decisão já tomada. Antes de saber pedir, o mundo já distribui o possível. A infância aprende cedo que nem todos os corpos ocupam o mesmo lugar. No parque, algumas crianças falam de aulas de música, viagens, atividades depois da escola. Outras ocupam o tempo com o que existe: pedras que viram jogos, muros que viram pistas, paus que desenham caminhos no chão. Nada disso aparece como injustiça imediata. Mas acumula-se como diferença. Fora da escola, a aprendizagem continua noutro registo. A rua ensina leitura de ambientes. A casa ensina responsabilidade precoce. Os irmãos mais no...

-O Rasgo para "Rasgar o Estado de Ser" - Ofélia em Poesia

 

O que nos Salva - A inutilidade do Inútil - Revista palavrar NR 10

   

O menino que guardava o mar

Era uma vez uma criança chamada Tomás, que vivia numa aldeia onde o horizonte era feito de montes suaves e campos dourados. Para ele, o mundo terminava ali — no ponto onde o céu parecia pousar sobre a terra. O avô falava-lhe muitas vezes do mar: descrevia-o como uma água sem fim, inquieta como um coração cheio de segredos. Tomás imaginava-o à noite, deitado na cama: ora um monstro azul a respirar devagar, ora um espelho gigante onde o céu se deitava para descansar. Nunca sabia ao certo se devia ter medo ou curiosidade. Um dia, a mãe disse-lhe: “Vamos viajar.” Havia um brilho diferente nos olhos dela, como se guardasse uma surpresa antiga. Partiram por estradas que pareciam não acabar, e Tomás, com uma concha pequena que o avô lhe dera — “para quando vires o mar” — apertada na mão, tentava adivinhar o que os esperava. O ar começou a mudar. Tornou-se mais salgado, mais vivo, como se tivesse memória. Tomás sentiu o coração bater mais depressa. Quando chegaram, a mãe pediu-lhe que fechasse...

Meio Século

À beira dos cinquenta caminho assim, Com histórias guardadas em mim. Algumas de riso, outras de batalha, Dias de sol, noites de falha.         Carrego no peito o que não arrefeceu, Sonhos antigos que o tempo não perdeu A vida rascunha em passos e trilhos, Entre erros, coragem e pequenos brilhos.   Não sou ainda o homem do fim da estrada, Sou ponte entre o ontem e a nova jornada. E às vezes descubro, quase sem saber, Que ainda há muito de mim para conhecer.   Se alguns fios brancos vierem pousar, Serão como neve, a chegar devagar Sobre os caminhos que a vida gravou, Marcas discretas de tudo o que sou.   Escrevo memórias em dias serenos, Da casa, da vida, dos laços pequenos. E percebo, afinal, quase sem notar, Foi isto que sempre quis guardar.   À beira dos cinquenta, não no fim, mas onde o curso abranda dentro de mim. Meio século feito, sem pedir perdão, e ainda caminho, com o resto na mão.  ...

Mistério no Mar (88 palavras)

De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.

Mar de Fundo

Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurante ...

Ecos na Mente

O mundo moderno move-se depressa demais, e a mente tenta acompanhá-lo com passos curtos, partidos, como se nunca chegassem a formar caminho inteiro. Nas ruas, nos transportes, nos cafés, os rostos parecem ocupados antes mesmo de estarem presentes. Há sempre qualquer coisa a acontecer por dentro, mesmo quando por fora nada se move. Nos ecrãs, tudo chama ao mesmo tempo. Pequenas urgências sem hierarquia. E a mente responde, uma atrás da outra, como se não pudesse recusar nenhuma. Em casa, o silêncio existe, mas não descansa. Está cheio. Cheio de pensamentos que não acabam, de repetições discretas, de coisas que voltam sem aviso. Há um peso que não se vê. Não se mede. Mas sente-se. Respirações que não chegam ao fim. Ideias interrompidas a meio. Noites em que o corpo se deita, mas a cabeça continua em pé. A ansiedade não chega como visitante. Já está. E começa a empurrar o tempo para a frente, mesmo quando ele não precisa de ser empurrado. Obriga a mente a viver em dois lugar...

O Rosto da Manhã

Desafio: E se amanhã acordasse com o rosto diferente? Acordei antes do despertador. Ainda era cedo; a luz entrava pelas separações da persiana como um sussurro antigo, tímido, quase respeitoso. Havia qualquer coisa fora do lugar, não no quarto, não nos móveis, mas no ar. Um silêncio espesso, como se a casa estivesse à espera de mim. Levantei-me. O chão estava frio. Caminhei até à casa de banho ainda meio adormecido, preso à rotina como quem se agarra a uma corda no escuro. Abri a torneira. A água correu. Levei as mãos ao rosto. Um gesto simples. De todos os dias. Levantei os olhos. Parei. Não. Afastei-me do espelho de repente, como se tivesse visto algo que não devia. O coração acelerou, seco, irregular. Voltei a olhar, devagar, quase contra a minha própria vontade. O homem no espelho não era eu. Respirei fundo. O ar parecia mais pesado. Aproximei-me. Inclinei a cabeça. Ele fez o mesmo. Passei os dedos pela face, a pele respondeu, mas não era a minha. Havia uma cica...