Avançar para o conteúdo principal

A Risada Culinária - Luz das Luzes

Eu acordei convencida de que era um génio… até tentar abrir uma lata com uma colher e quase declarar guerra à cozinha. A minha vida tem esse dom: transformar as tarefas simples em aventuras ridículas. A verdade é que acordei com aquela confiança inflamada que só dura até ao primeiro objeto doméstico se revoltar. A colher entortou como se estivesse a desistir da vida, a lata fez um som de escárnio e o gato, sentado na bancada, inclinou a cabeça com a superioridade moral de quem já viu demasiado. Ele é que lambe as paredes, e aparentemente se acha no direito de avaliar as minhas escolhas.

Grécia apareceu-me no pensamento sem razão, talvez porque também lá inventaram tragédias, e eu estava prestes a protagonizar uma. Decidi cozinhar algo “sofisticado” e acabei a discutir com uma cebola, que me venceu claramente. Enquanto me fazia chorar com a crueldade de um vilão clássico, imaginei um coro grego a narrar o meu fracasso culinário. A cebola escorregava das mãos como se tivesse vida própria, e cada camada parecia revelar não sabor, mas humilhação. No fim, eu estava a fungar, não pelo aroma, mas pela derrota emocional.

Lisboa parecia mais distante do que nunca quando tentei sair de casa e a porta decidiu emperrar. Fiquei ali, num duelo silencioso com a maçaneta, como se fosse uma batalha medieval. Perdi, claro, e ainda pedi desculpas à porta. A maçaneta girava meio centímetro e depois travava, como um cavaleiro teimoso a bloquear a passagem. Eu puxava, empurrava, tentava técnicas de persuasão dignas de uma diplomata cansada. Quando finalmente cedi, senti-me tão ridícula que murmurei um “desculpa” à porta, como se ela tivesse sentimentos e eu fosse a culpada da tensão na relação.

Panela tornou-se a minha arqui-inimiga. Primeiro queimou-me o arroz, colou-se ao fundo como se estivesse a tentar fundar uma nova civilização carbonizada. Brilhante e inocente, parecia dizer: “não fui eu, foste tu”. Quando a levantei, libertou um estalido que soou perigosamente a gargalhada, talvez um riso metálico com ar de malandro. As bolachas, coitadas, foram o meu jantar de emergência, mastiguei-as com a resignação de quem aceita o destino.

Salsa, a planta cheirosa, foi o meu último fio de esperança culinária. Balançava entre os dedos como se estivesse prestes a ser sacrificada num altar gastronómico. Polvilhei-a com a solenidade de uma sacerdotisa cansada. O resultado foi tão dececionante que até a erva parecia arrependida de ter participado.

Tartaruga cruzou no meu caminho quando finalmente saí. Olhou-me com uma calma milenar, como quem diz: “abranda, humana desastrada”. Pela primeira vez naquele dia, alguém fazia sentido. Ela avançava devagar, com a segurança de quem nunca queimou arroz nem discutiu com portas. Quando parou e me encarou, senti que estava a receber uma lição de vida em silêncio. Aquele olhar dizia tudo: “tu corres demais para quem tropeça tanto”.

No final, aceitei: há dias em que o mundo ri de nós, e talvez esteja certo. Afinal, rir de mim própria foi a única coisa que realmente correu bem. E, no fundo, talvez seja esse o segredo: aceitar que a vida tem humor próprio, e que às vezes somos apenas a personagem secundária numa comédia improvisada. Pelo menos, neste papel, brilhei.

Comentários

Anónimo disse…
Gostei muito. És talentosa.

Mensagens populares deste blogue

Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de… Promessa

Helena tinha dez anos quando prometeu à mãe que nunca abriria a porta do quarto ao fundo do corredor. — Mesmo que ouças alguém chamar por ti — dissera-lhe, ajoelhada diante dela. — Mesmo que reconheças a voz. A mãe morreu nessa mesma semana. Durante anos, Helena evitou aquele quarto. A porta permaneceu fechada. Não tinha chave, nem fechadura visível. Sérgio nunca perguntara o que existia do outro lado. Até à noite em que começaram as pancadas. Três golpes secos. Sempre à mesma hora. Duas e treze da madrugada. Na quarta noite, Helena acordou com uma voz que não ouvia desde a infância. — Minha filha. Sentou-se na cama, com o coração a bater descompassado. Sérgio continuava a dormir ao seu lado. — Helena, abre-me a porta. A voz vinha do fundo do corredor. Era a voz da mãe. A mesma doçura cansada. A mesma forma de prolongar a última sílaba do seu nome. Levantou-se e caminhou até ao quarto proibido. Por baixo da porta, uma linha de luz tremia sobre o soalho. — Prometeste —...