Avançar para o conteúdo principal

A Guerra e o Poder

 

A guerra não começa quando o primeiro disparo acontece. Já estava em andamento, anteriormente, escondida em linguagem, em fronteiras desenhadas com firmeza sobre papéis antigos, em decisões tomadas longe do lugar onde depois cai o impacto.

Há momentos na história em que o conflito é apenas nomeado mais tarde. Antes disso, é uma preparação lenta: alianças que se movem, economias que se reorganizam, discursos que afinam o que pode ser dito e o que passa a ser inevitável.

O poder, antes de se tornar ruído, aprende a ser silêncio. Organiza-se em salas fechadas, onde as palavras são medidas como se fossem pesos. O que ali se decide raramente tem rosto imediato. Tem consequência, não presença.

Há sempre um momento em que a tensão deixa de ser ideia e passa a ser direção. Nesse instante, o mundo começa a ajustar-se a uma lógica que não foi sentida por todos, mas que passa a afetar a todos.

Em 2003, por exemplo, antes da invasão do Iraque, a discussão pública internacional já estava dividida entre relatórios, inspeções e narrativas políticas incompatíveis. Quando os primeiros bombardeamentos começaram, grande parte da estrutura de decisão já tinha sido construída, antes do primeiro impacto visível. O acontecimento apenas tornou irreversível aquilo que já tinha sido alinhado.

A guerra aparece então como continuidade, não como rutura. É o prolongamento de decisões que já tinham alterado o equilíbrio antes de qualquer mapa se mover. Só depois disso vem o gesto visível — o avanço, a defesa e a linha que se quebra.

Os corpos entram tarde na história. Chegam quando a narrativa já estava escrita em termos que não lhes pertencem totalmente. Nessa altura, o conflito já não é pergunta. É cenário.

No entanto, o poder não se reduz ao combate. Ele permanece também depois do ruído. Reorganiza o que foi destruído, redefine o que pode ser lembrado, escolhe as palavras que ficam e as que desaparecem com a mesma naturalidade com que antes escolheu o movimento.

 

A guerra termina oficialmente, mas o poder não termina com ela. Apenas muda de forma. Torna-se administração, reconstrução, discurso e esquecimento gradual. E é talvez nesse ponto que se revela a sua natureza mais antiga: não, a de destruir, mas a de continuar.

Porque enquanto houver como organizar o que resta, haverá sempre alguém a decidir como isso deve ser feito.

E entre o início e o fim da guerra, fica uma zona longa e pouco nomeada, onde o mundo aprende novamente a parecer normal, mesmo quando já não é o mesmo.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Morte, violação ou boca de palhaço?"

Na altura do Carnaval, ouvi falar de um caso que me arrepiou imenso. Duas jovens universitárias tinham sido interpeladas por um grupo de rapazes bem parecidos, no Bairro Alto, que lhes fez uma pergunta: "Morte, violação ou boca de palhaço?" As jovens, pensando tratar-se de uma brincadeira de Carnaval, responderam prontamente "boca de palhaço". Foram esfaqueadas dos lábios às orelhas. Sei que ainda hoje estão traumatizadas e que nenhuma cirurgia plástica deixá-las-á como eram antes. No passado fim de semana, voltou a acontecer; em pleno Largo Camões, a jovem esperava por um táxi vazio que a levasse para casa. Pois quem a levou foi quatro rapazes, que lhe fizeram a mesma pergunta arrepiante e o resultado é o mesmo. Esfaqueada, com um "sorriso" de palhaço. Acho estranho que nenhum telejornal faça referência a isto, porque tenho a certeza de que já aconteceu mais vezes. Sendo assim, e como acredito no poder do passa a palavra, por favor divulguem ...