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Subsolo Vivo


A semente veio escondida na terra — mas, olhando para trás, suspeito que já estivesse em mim.

Antes disso, houve sinais. Uma comichão persistente nos dedos, sob as unhas. Sonhos viscosos, sem forma: terra húmida, dentes a romper no escuro. Acordava cansado. As mãos, sujas.

Plantei-a na mesma. Talvez por hábito. Talvez por obediência.

No primeiro dia, nada. No segundo, um rebento pálido. No terceiro, sangue — espesso, quente, familiar.

Continuei a regar. Não por cuidado, mas por impulso. Um gesto antigo, automático, como se algo em mim reconhecesse o que nascia.

As folhas surgiram com veias finas. Pulsavam. E eu comecei a sentir o mesmo.

À noite, ouvia um som húmido. Mastigar lento. Dentro de mim, uma resposta.

No quinto dia, acordei com dor. O dedo aberto, a carne exposta. A planta inclinava-se na minha direcção. Quase terna.

Veio o medo. Logo depois, a raiva.

Tentei arrancá-la.

As raízes não eram raízes. Eram dedos — brancos, tensos, enterrados com desespero. Quando puxei, senti resistência. E um puxão de volta.

Parti o vaso. A terra abriu-se como algo que não devia abrir-se. As “raízes” contorceram-se à luz. Algumas tinham unhas pequenas. Iguais às minhas.

Devia ter queimado tudo. Mas o ódio já lá estava. Antigo. À espera.

Voltei com uma pá.

O chão do quintal estava inchado. Respirava.

Escavei.

Havia sementes por todo o lado. Negras. Vivas. A latejar. Algumas abertas.

Lá dentro, fragmentos. Tentativas. Um pedaço de pele. Um olho fechado. Um dente — o meu.

Toquei-lhe sem pensar, como quem confirma um reflexo.

A terra moveu-se.

As sementes abriram-se mais, como bocas famintas. E senti-as em mim — sob a pele, nos braços, no peito. Sempre estiveram.

A primeira planta ergueu-se, mais completa agora. Feita de partes que reconheci sem querer nomear. Não atacou.

Chamou-me sem som.

Inclinei-me.

Não houve surpresa. Nem erro. Fui preparado para isto. Amolecido por dentro, como solo fértil.

A terra recebeu-me sem esforço.

E então percebi: não fui eu que plantei a semente. Sempre fui o lugar onde ela quis crescer.

#FDT 

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