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Mensagens

O Segundo Apagão

       Vivemos convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.      Até ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que escurece o céu e pesa por dentro.      A luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.      Na rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão está ali, ainda quente. A água também. Mas não h...

A Hora em Que a Casa Respira

 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...

Abraçar o desassossego

 

Desejos

Depois de 2025 ser um ano difícil, de travessias e silêncios.   Chega o 2026, um ano das mudanças, das sementes que germinam, das transformações que pedem coragem.   Que cumpra os desejos antigos e novos, meus e vossos, dos que me rodeiam.   Que traga a Paz onde houve tumulto, Amor onde faltou abraço, Tranquilidade onde reinou o cansaço.   Que sejamos sinceros, gratos e unidos. E que o “muito mais” venha com luz e com tempo.    

Desejos Natalícios

Neste Natal, não é preciso presente, é preciso estar presente. É preciso uma palavra dita no momento certo. Um gesto que conforta e a vontade simples de viver mais um pedacinho juntos. É preciso conviver entre família e amigos, sem mágoas guardadas, sem feridas abertas a pedir silêncio. É preciso olhar com honestidade, a vida é difícil para todos, cada uma à sua maneira, cada uma com o seu peso. Que este Natal nos devolva, o que nunca deixou de ser nosso: a presença que aquece, o perdão que desarma, a humanidade que acende, o amor que insiste em ficar.  

Substitutos

Quando os corpos começaram a desaparecer, ninguém parecia surpreso. Primeiro foi o cão de Mariana, depois o gato do vizinho, sempre à noite, sempre silencioso. Pela manhã, objetos novos ocupavam os lugares vazios: relógios, bonecas, vasos. Mas o ar pulsava, espesso, quente e metálico, dobrando-se à volta, como se respirasse por dentro da pele de quem olhava. Mariana começou a tentar corrigir os objetos: alinhar a cadeira, ajeitar a boneca, substituir o vaso por outro. Cada tentativa falhava. Os objetos moviam-se sozinhos, ajustando-se, melhorando, impondo uma ordem invisível. Sentiu o chão vibrar sob os pés, a brisa cheirar a ferro queimado, um som surdo reverberar nos ossos. A mudez observava, aguardava, corrigia. Numa noite, seguiu passos suaves até ao quintal. Uma figura encapuçada observava. Tentou falar, mas a voz dissolveu-se. O cão estava imóvel, olhos humanos, cabeça girando impossível. O chão ondulava, o vento tornou-se sólido, o tempo desacelerou. O substitut...

A Vida que Volta a Caber

  Há um tipo de regresso que não faz barulho. Não é fuga, nem proclamação. É ajuste. Uma mudança de escala. Começa devagar, quase sem nome, como quem baixa o volume do mundo para conseguir ouvir outra coisa. A primeira renúncia não é a cidade. É a pressa. Depois vem o resto. A terra aparece sem cerimónia. Não como ideia, mas como exigência. Fria no inverno, dura no verão, indiferente ao desejo humano de controlo. A horta não responde a intenções, responde a presença. Quem a cultiva aprende cedo uma lição antiga: nada cresce porque se quer — cresce porque se cuida. Começa-se com o simples. Couves, tomates, cebolas, ervas que sobrevivem sem narrativa. Depois vêm os coelhos, discretos, quase mecânicos na sua continuidade. Depois as galinhas, que não conhecem relógios, apenas ciclos. E, sem anúncio, o mundo estreita-se. O carro deixa de ser eixo. Às vezes nem chega a existir. Não por princípio, mas por inutilidade. O caminho passa a ser curto, concreto, repetido. O comb...

Fio escondido de esperança

No silêncio pesado da casa, onde o cansaço se agarra como sombra, o fio agora é elemental: água, fogo, vento e terra. Uma tapeçaria de forças que sustenta o mundo, que queima ao toque e ilumina ao olhar, dançando com aurora, noite e eternidade. Entre inundações de preocupações e explosões que rugem como vento, entre pedras que teimam em cair e luz que se infiltra por frestas antigas, o fio permanece, curvo, tenso, pulsando, mas intacto. Respira. Aguarda. Espera. Sobrevive. Quando o próximo ciclo acender sua luz, ele brilhará, silencioso, tecendo chão firme sob pés cansados, costurando palavras, tecendo silêncio em canto, costurando corpos em coro, entre sombra e sol, água e fogo, vento e terra, entre o que explode e o que se acalma. O fio não termina ele é chão, teto, poema, linha que percorre tudo, pulsando para além da página, no corpo, na voz, no espaço que respira.

O Silêncio Depois do Ruído

  Há um ruído constante no mundo — discursos, bandeiras, mapas riscados a linhas duras como se fossem destinos inevitáveis. Fala-se de estratégia, de poder, de equilíbrio global. Mas raramente se fala do silêncio que fica depois. Porque no fim, quando os holofotes se apagam e os analistas passam ao próximo tema, quem permanece são as pessoas. As mesmas que acordam cedo, que levam filhos à escola — se ainda houver escola —, que fazem contas no fim do mês com números que já não chegam. Não decidiram guerras, não desenharam alianças, não assinaram tratados. Mas vivem com as consequências como quem herda uma dívida antiga que nunca contraiu. Entre o ruído e a vida real há sempre uma distância invisível. E é nessa distância que tudo pesa mais. Há algo de profundamente injusto neste ciclo. O poder move-se como se fosse eterno, jogando peças num tabuleiro vasto, enquanto a vida real é frágil, concreta, feita de dias pequenos. Um aumento no preço do combustível não é uma abstração ...