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Desejos

Depois de 2025 ser um ano difícil, de travessias e silêncios.   Chega o 2026, um ano das mudanças, das sementes que germinam, das transformações que pedem coragem.   Que cumpra os desejos antigos e novos, meus e vossos, dos que me rodeiam.   Que traga a Paz onde houve tumulto, Amor onde faltou abraço, Tranquilidade onde reinou o cansaço.   Que sejamos sinceros, gratos e unidos. E que o “muito mais” venha com luz e com tempo.    

Desejos Natalícios

Neste Natal, não é preciso presente, é preciso estar presente. É preciso uma palavra dita no momento certo. Um gesto que conforta e a vontade simples de viver mais um pedacinho juntos. É preciso conviver entre família e amigos, sem mágoas guardadas, sem feridas abertas a pedir silêncio. É preciso olhar com honestidade, a vida é difícil para todos, cada uma à sua maneira, cada uma com o seu peso. Que este Natal nos devolva, o que nunca deixou de ser nosso: a presença que aquece, o perdão que desarma, a humanidade que acende, o amor que insiste em ficar.  

Substitutos

Quando os corpos começaram a desaparecer, ninguém parecia surpreso. Primeiro foi o cão de Mariana, depois o gato do vizinho, sempre à noite, sempre silencioso. Pela manhã, objetos novos ocupavam os lugares vazios: relógios, bonecas, vasos. Mas o ar pulsava, espesso, quente e metálico, dobrando-se à volta, como se respirasse por dentro da pele de quem olhava. Mariana começou a tentar corrigir os objetos: alinhar a cadeira, ajeitar a boneca, substituir o vaso por outro. Cada tentativa falhava. Os objetos moviam-se sozinhos, ajustando-se, melhorando, impondo uma ordem invisível. Sentiu o chão vibrar sob os pés, a brisa cheirar a ferro queimado, um som surdo reverberar nos ossos. A mudez observava, aguardava, corrigia. Numa noite, seguiu passos suaves até ao quintal. Uma figura encapuçada observava. Tentou falar, mas a voz dissolveu-se. O cão estava imóvel, olhos humanos, cabeça girando impossível. O chão ondulava, o vento tornou-se sólido, o tempo desacelerou. O substitut...

A Vida que Volta a Caber

  Há um tipo de regresso que não faz barulho. Não é fuga, nem proclamação. É ajuste. Uma mudança de escala. Começa devagar, quase sem nome, como quem baixa o volume do mundo para conseguir ouvir outra coisa. A primeira renúncia não é a cidade. É a pressa. Depois vem o resto. A terra aparece sem cerimónia. Não como ideia, mas como exigência. Fria no inverno, dura no verão, indiferente ao desejo humano de controlo. A horta não responde a intenções, responde a presença. Quem a cultiva aprende cedo uma lição antiga: nada cresce porque se quer — cresce porque se cuida. Começa-se com o simples. Couves, tomates, cebolas, ervas que sobrevivem sem narrativa. Depois vêm os coelhos, discretos, quase mecânicos na sua continuidade. Depois as galinhas, que não conhecem relógios, apenas ciclos. E, sem anúncio, o mundo estreita-se. O carro deixa de ser eixo. Às vezes nem chega a existir. Não por princípio, mas por inutilidade. O caminho passa a ser curto, concreto, repetido. O comb...

Fio escondido de esperança

No silêncio pesado da casa, onde o cansaço se agarra como sombra, o fio agora é elemental: água, fogo, vento e terra. Uma tapeçaria de forças que sustenta o mundo, que queima ao toque e ilumina ao olhar, dançando com aurora, noite e eternidade. Entre inundações de preocupações e explosões que rugem como vento, entre pedras que teimam em cair e luz que se infiltra por frestas antigas, o fio permanece, curvo, tenso, pulsando, mas intacto. Respira. Aguarda. Espera. Sobrevive. Quando o próximo ciclo acender sua luz, ele brilhará, silencioso, tecendo chão firme sob pés cansados, costurando palavras, tecendo silêncio em canto, costurando corpos em coro, entre sombra e sol, água e fogo, vento e terra, entre o que explode e o que se acalma. O fio não termina ele é chão, teto, poema, linha que percorre tudo, pulsando para além da página, no corpo, na voz, no espaço que respira.

O Silêncio Depois do Ruído

  Há um ruído constante no mundo — discursos, bandeiras, mapas riscados a linhas duras como se fossem destinos inevitáveis. Fala-se de estratégia, de poder, de equilíbrio global. Mas raramente se fala do silêncio que fica depois. Porque no fim, quando os holofotes se apagam e os analistas passam ao próximo tema, quem permanece são as pessoas. As mesmas que acordam cedo, que levam filhos à escola — se ainda houver escola —, que fazem contas no fim do mês com números que já não chegam. Não decidiram guerras, não desenharam alianças, não assinaram tratados. Mas vivem com as consequências como quem herda uma dívida antiga que nunca contraiu. Entre o ruído e a vida real há sempre uma distância invisível. E é nessa distância que tudo pesa mais. Há algo de profundamente injusto neste ciclo. O poder move-se como se fosse eterno, jogando peças num tabuleiro vasto, enquanto a vida real é frágil, concreta, feita de dias pequenos. Um aumento no preço do combustível não é uma abstração ...

A Teia das Bênçãos e das Maldições

 A aldeia despertava sempre envolta num véu húmido, como se a noite exalasse um suspiro que ninguém ousava decifrar. Os habitantes moviam-se com cuidado, evitando certas janelas, portas que permaneciam fechadas desde sempre, como se respeitassem um pacto silencioso. Na casa mais antiga, de telhado cansado e janelas estreitas, Clara descobriu um rosário enterrado sob o soalho. Cada conta parecia conter uma gota de água presa no tempo, translúcida e fria, ou um fragmento de unha antiga que provocava arrepios. Ao tocá-lo, sentiu um calor estranho que lhe percorreu o braço. O silêncio da casa tornou-se denso, atento, carregado de uma presença que se contorcia nas sombras. Lá fora, o vento murmurava pelos campos, e dentro tudo parecia escutar-se a si mesmo. Nos dias que se seguiram, bênçãos pequenas começaram a surgir. A água do poço subiu, clara como nunca. As galinhas, antes inúteis, encheram o cesto com ovos. Até o animal gasto pelo tempo recobrou forças, movendo-se com cautela mas...

A Lentidão da Cura

  Há tempos em que se aprende a medir o corpo não pelo que sente, mas pelo tempo que espera. Cada consulta, cada exame, cada ligação perdida ao hospital transforma-se num compasso silencioso, lento, pesado. O corpo pede ação. O sistema responde com intervalo. As listas de espera têm um som próprio: o murmúrio de nomes, números e datas que nunca coincidem com o relógio interno de quem sofre. A vulnerabilidade cresce com cada adiamento. A paciência deixa de ser virtude e torna-se território de resistência involuntária. O corpo aprende a ouvir-se sem resposta. Passei por salas frias, corredores longos, paredes brancas que parecem absorver qualquer emoção. A frase dita sem hesitação — “Vai correr bem” — não aquece nem arrefece; apenas acompanha o tempo suspenso. Cada gesto clínico, cada decisão administrativa, revela a densidade de um sistema onde a vida individual precisa de caber em procedimentos. A vida nunca se ajusta completamente ao sistema. É o sistema que exige adaptaçã...