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A pisciana que não se afoga

Dinâmica para Luz das Letras, sobre signo. 

Peixes, esse signo de água que parece ter nascido entre sonhos molhados e intuições que chegam antes da realidade. Diz-se que a mulher pisciana do segundo decanato — com aquela pitada extra de sensibilidade e imaginação — vive com um pé no mundo e outro algures num universo paralelo onde até as regras têm licença poética.

No papel, tudo encaixa como um horóscopo bem escrito: empatia, romantismo, criatividade, aquela tendência quase ancestral de sentir tudo antes de pensar. Na prática… contigo a história parece ter seguido outro protocolo. Ou o mapa astral foi devolvido por “endereço insuficiente”.

Dizem que Peixes chora com música triste e se dissolve em devaneios ao ver o mar. Mas há aqui uma contradição curiosa: és peixe de água, sim, mas não de águas profundas. O fundo do mar não te chama, assusta-te. E não de forma metafórica bonita… mais daquele medo silencioso que aparece só de pensar. Basta imaginar a imensidão escura por baixo e o corpo já decide sair antes da mente terminar a frase. Se fosse por ti, o oceano vinha com raso garantido e fundo visível.

Tu, provavelmente, fazes primeiro uma auditoria ao ambiente: se a música for má, desligas sem cerimónia. Se o mar estiver gelado demais, não há tragédia cósmica, há logística. Perguntas onde fica a piscina aquecida mais próxima. Porque, convenhamos, há coisas mais urgentes do que poesia involuntária: natureza verde, plantas vivas e um pouco de terra firme para equilibrar o resto.

A mulher pisciana típica é descrita como etérea, quase mística, a flutuar entre sinais do universo como se tudo fosse metáfora. Tu, pelo contrário, pedes ao mundo um manual de instruções em PDF, versão atualizada, com índice e secção de FAQ. E ainda reclamas se faltar clareza no capítulo três.

O destino até pode piscar-te o olho, mas tu devolves:

— “Preciso de contexto e condições de segurança.”

E aqui entra o detalhe interessante: Peixes deveria ser fluidez pura, mas em ti a água vem filtrada por pragmatismo moderno. Em vez de te afogares em emoções, fazes gestão emocional. Em vez de te perderes em ilusões, perguntas o custo-benefício da alucinação.

 

Ainda assim, há uma peça que o signo não consegue apagar: a tua intuição.
Contudo, não é brisa suave nem poesia líquida. É um sistema de alerta — direto, funcional, quase industrial. Não sussurra: notifica. E quando algo não parece seguro, não discutes com o instinto. Recuas. Simples.

E é aí que o universo deixa cair o seu enigma, como quem atira uma concha ao fundo raso e espera que alguém perceba:

“Se sabes nadar sem te afundar, mas recusas o que não vês no fundo, o que te salva: a água… ou o limite?”

Ninguém responde em voz alta. Peixes nunca pensa assim.

No fundo, és uma pisciana com espírito de revisão técnica e pés bem fora do abismo. O passado dar-te-ia asas de sonho, mas tu preferes chão firme e sapatos confortáveis. O futuro ainda te pertence, não como mergulho nas profundezas, mas como navegação consciente na superfície do possível, onde consegues ver o fundo… e isso, para ti, já é poesia suficiente.

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