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A Tradição de "Cantar as Janeiras"

"Cantar as Janeiras" é uma tradição antiquíssima bem portuguesa. Ocorrem em Janeiro, o primeiro mês do ano, daí o seu nome. Este mês era o mês do deus Jano, o deus das portas e da entrada e porteiro dos céus. Os Romanos ambicionavam que ele os protegesse e repelisse os maus espíritos e invocavam-no especialmente nas alturas de Janeiro. Então, o Imperador Caio Júlio César (13 de Julho, 100 a.C.–15 de Março, 44 a.C.) estabeleceu as datas limites deste mês e que o ano deveria começar nesta época. A partir desta altura tornou-se tradição os Romanos saudarem o início de um novo ano e aclamarem Jano com festejos, aproveitando também para se cumprimentarem uns aos outros, daí surgiu a tradição das "Janeiras". Foi esta tradição que o Cristianismo, não a conseguindo eliminar, adaptou-a acrescentando-lhe os autos pastoris que evocam a cena do nascimento de Jesus e episódios a ele ligados: Nossa Senhora e S. José; os anjos anunciadores da "Boa Nova"; a vaca e o burrinho; os pastores.

A tradição é que vizinhos, amigos, familiares, ..., normalmente jovens e daí alguns não tão jovens se agrupem e, na noite de Reis (6 de Janeiro), por vezes alastrando-se a outros dias do início do ano, andem pelas ruas da terra, cantando de «porta em porta» e desejem às pessoas um próspero ano novo. Habitualmente, alguns elementos tocam instrumentos normalmente tradicionais e folclóricos, como a pandeireta, os ferrinhos (triângulo), o tambor, a zabumba, o bombo, a flauta, a viola, o cavaquinho, o acordeão, mais raramente a gaita-de-foles, etc. As músicas utilizadas são tradicionais, embora a letra possa variar de terra para terra e também conforme o grupo. Previamente, a música e a letra são estudados, mas o grupo pode levar papéis para auxílio, nomeadamente o solista que cantará as quadras para além do refrão, enquanto que o coro o cantará. Consulta algumas letras e quadras das Janeiras no final desta página.

Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos ofereçam as chamadas janeiras: castanhas, nozes, alguns frutos, enchidos, vinho, doces da época natalícia, etc. Por comodidade, actualmente é costume dar-se chocolates e dinheiro, embora isto seja considerado uma destradicionalização. No final do percurso, o grupo reúne-se e faz um convívio onde todos juntos comem aquilo que conseguiram, ou então, divide-se por todos e cada um segue o seu caminho.

Nas aldeias mais pequenas era, e nalgumas ainda é, costume a divisão do grupo em grupos mais pequenos e como toda a gente se conhecia, em função dos moradores de determinada casa, eram escolhidas as quadras a cantar nesta.

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