Todas as noites, antes de adormecer, Helena repetia a oração que a avó lhe ensinara em criança. Fazia o sinal da cruz, apertava o terço entre os dedos e murmurava as palavras que sabia de cor. A velha nunca lhe explicara o significado, mas deixara-lhe um aviso que repetia sempre no final. — Reza antes da meia-noite. Depois da última badalada, não pronuncies uma única palavra da oração. Durante anos, Helena cumprira a promessa. Até à noite em que Sérgio não regressou a casa. Esperou junto à janela, vendo a chuva escorrer pelos vidros e consultando o relógio de poucos em poucos minutos. Quando faltavam apenas segundos para a meia-noite, abriu a gaveta da sala e retirou o terço da avó. Queria terminar a oração antes das doze. Não conseguiu. O relógio começou a bater quando ainda lhe faltavam as últimas palavras. — Senhor, guarda os que partiram, acolhe os que sofrem e não deixes que os esquecidos se percam no escuro. Que encontrem o caminho de volta, mas não se esqueçam ...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...