Helena acordou com o cheiro a fumo entranhado nos lençóis. Eram três da manhã. Ao fundo do corredor, uma luz tremia por baixo da porta da cozinha. Encontrou Sérgio sentado à mesa, de olhos fechados, diante de uma vela e de uma fotografia antiga. Na imagem, apareciam os dois, ainda crianças, junto à casa onde Helena crescera. — O que estás a fazer? — perguntou. Sérgio abriu os olhos e apagou a vela com os dedos. — A tentar corrigir uma coisa. No dia seguinte, Helena encontrou a fotografia na gaveta da cómoda. Havia uma mancha escura no rosto de Sérgio, embora se lembrasse perfeitamente de a ter visto limpa na noite anterior. Não lhe disse nada. Nos dias que se seguiram, começou a sentir-se melhor. As dores de cabeça desapareceram, as noites tornaram-se tranquilas e até a antiga cicatriz no peito, deixada por uma cirurgia, pareceu perder a cor. Sérgio, pelo contrário, andava cada vez mais cansado. Surgiram-lhe manchas arroxeadas na pele e, por vezes, ficava parado diante...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...