Helena chegou ao velório ao fim da tarde, com a chuva a bater nos vidros altos da sala. As gotas escorriam pelas janelas, desfazendo as luzes da rua. As lâmpadas do tecto deixavam os rostos pálidos e faziam brilhar a cera das velas. Havia coroas encostadas às paredes, fitas negras pendendo dos vasos e um cheiro doce a lírios misturado com madeira encerada. Uma vela estalou baixinho. Depois, voltou a ouvir-se apenas a chuva e o tic-tac do relógio. Helena aproximou-se do caixão. O homem lá dentro parecia tranquilo. Ela não o conhecia. Tinha vindo por insistência de uma amiga. Sentou-se no fundo da sala, ouvindo o murmúrio de duas mulheres junto à porta. — Helena. Virou-se. As mulheres continuavam de cabeça baixa. O corredor estava vazio. Quando voltou a olhar para o caixão, pareceu-lhe que o morto sorria. Piscou os olhos. O rosto estava imóvel. Pouco depois, uma das mulheres aproximou-se. — É estranho vê-la aqui. — Porquê? — Pensei que fosse da família. — Não con...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...