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Mensagens

Meu conto "O Silêncio de Vridavan"

A venda na Amazon.com.  uma obra que aborde a violência doméstica de forma abrangente — mulheres, homens, crianças e também a violência contra animais (que muitas vezes é o primeiro sinal de alerta dentro de uma casa). Porque a verdade é esta: há casas onde o amor deixou de ser amor e passou a ser medo — e alguém precisa de o escrever sem desviar o olhar. Com doar e ajudar as pessoas que estão na APAV.

Feridas Abertas

     A gaze húmida colava-se à pele, morna como se guardasse um resto de sonho. No quarto, o cheiro a desinfetante velho misturava-se com algo mais antigo. 03:17. Ela não dormia havia dias, mas não era bem insónia. Era outra coisa. Uma vigília involuntária, alguém dentro dela precisava que ela ficasse acordada. Os pontos puxavam devagar, num ritmo que não era o do seu corpo. Às vezes pousava os dedos sobre a cicatriz para sentir o calor dali. Não era febre. Era presença. Lembrou-se da enfermeira antes da anestesia. “Vai correr bem.” Mas a voz soava agora como eco dum corredor que nunca existiu. Naquela noite, acordou com a sensação de que o quarto respirava. As cortinas não se mexiam. O roupeiro não se mexia. A cadeira no canto não se mexia. Mas o ar tinha pulso. Depois sentiu o húmido. A cicatriz abrira um pouco. Uma linha fina. Escura. Mas não sangrava, parecia mais uma fenda no tecido de qualquer coisa maior. Ela não gritou. O silêncio do quarto era tão den...

O poder da Escrita Criativa

Primeiro exercício: Pegar no livro que esteja à mão, ir à página com o número da minha idade: Nome do livro: "Cartas a um jovem escritor" Capitulo: Moldar a verdade: "Diga o que pensa. Deverá escrever para não cair no silêncio. É essa a verdade, ou o mais próximo que conseguiremos chegar dela." Em 100 palavras: Para usar para desbloquear ideias e evitar plágio, transforma a história ou nega o conteúdo ou muda a personagem de feminino/masculino.   Diga o que não pensa, porque às vezes o pensamento nasce cansado e prefere esconder-se atrás das sombras. Não deverei escrever para cair no silêncio, como quem atira palavras ao fundo de um poço sem eco. Há frases que mentem devagar, outras que apenas se afastam da verdade, até já não reconhecerem o próprio rosto. Talvez seja essa a mentira: a distância crescente entre aquilo que sentimos e aquilo que queremos dizer. Ou talvez seja apenas o mais longe que conseguimos chegar dela, antes de regressarmos ao medo antigo de...

A Sobrevivência em Silêncio

  Há dias em que o mundo não desaba. Apenas perde peso. Acorda-se e tudo parece igual: a luz entra pela janela com a mesma inclinação, o ruído da rua mantém a sua rotina, o telemóvel acende com notificações que poderiam ser importantes noutro estado qualquer. Mas algo muda sem aviso — não no exterior, mas na forma como tudo chega. Chega longe. Chega fraco. Chega como se atravessasse água. E há quem se levante mesmo assim. Não por força nem esperança. Levanta-se porque o corpo ainda conhece o caminho quando a mente já não acompanha. A depressão não entra como evento. Não parte portas. Não anuncia chegada. Instala-se como alteração da distância entre a pessoa e o mundo. O mundo continua perto, mas já não toca. E esse intervalo não é visto. Nas ruas, tudo parece funcional. Pessoas entram e saem de transportes, trabalham, conversam, discutem preços, fazem planos. O mundo mantém disciplina exterior. Mas há quem caminhe dentro dele como se estivesse ligeiramente atrasado rela...

Palavrar - "A Arte de Largar" nesta Revista

A revista literária PALAVRAR – Ler e escrever é resistir vai estar novamente na Feira do Livro de Lisboa e não podíamos estar mais entusiasmados. Para projetos literários independentes como a PALAVRAR, chegar aos leitores não é apenas um objetivo: é uma necessidade. É assim que as novas vozes ganham espaço e o panorama literário nacional se renova. 🗓️ Sexta-feira, 12 de junho | 20h00 | Praça Azul Venha PALAVRAR connosco e apoiar os autores nacionais!

A Carteira

O homem abre a carteira… e o silêncio da tasca muda de temperatura. Foi como se alguém tivesse aberto o túmulo de um faraó. Até o ventilador velho, preso ao tecto com fé e ferrugem, pareceu abrandar para assistir ao acontecimento. A carteira era castanha, grossa, veterana das guerras fiscais e balcões de cafés. Tinha marcas de uso tão profundas que parecia um mapa topográfico da miséria nacional. O homem abriu-a devagar, com solenidade, como quem revela os segredos do universo. Lá dentro havia: um talão de combustível de 2009, uma fotografia desfocada de um cão triste, três moedas de um cêntimo, um botão e um papel dobrado que dizia: “Não esquecer de comprar pescada.” Dinheiro? Nem o cheiro dele. O empregado aproximou-se cauteloso. — Vai pagar em numerário ou em lágrimas? O homem ergueu os olhos, cansados, húmidos de dignidade. — Amigo… se eu tivesse dinheiro, achas que andava a comer tremoços ao jantar há três semanas? A tasca inteira assentiu em respeito. Aquilo j...

A pisciana que não se afoga

Dinâmica para Luz das Letras, sobre signo.   Peixes, esse signo de água que parece ter nascido entre sonhos molhados e intuições que chegam antes da realidade. Diz-se que a mulher pisciana do segundo decanato — com aquela pitada extra de sensibilidade e imaginação — vive com um pé no mundo e outro algures num universo paralelo onde até as regras têm licença poética. No papel, tudo encaixa como um horóscopo bem escrito: empatia, romantismo, criatividade, aquela tendência quase ancestral de sentir tudo antes de pensar. Na prática… contigo a história parece ter seguido outro protocolo. Ou o mapa astral foi devolvido por “endereço insuficiente”. Dizem que Peixes chora com música triste e se dissolve em devaneios ao ver o mar. Mas há aqui uma contradição curiosa: és peixe de água, sim, mas não de águas profundas. O fundo do mar não te chama, assusta-te. E não de forma metafórica bonita… mais daquele medo silencioso que aparece só de pensar. Basta imaginar a imensidão escura por ba...

Golpes Curtos

  Na aldeia, a procissão surgia ao crepúsculo, pés nus no pó frio. As caretas de cortiça rangiam, cheirando a resina e hálito velho. Segui a avó; a mão ossuda fechou-se no meu pulso. Os sinos chamavam quem não devia ouvir. No adro, a fogueira arquejava, cuspindo fagulhas. Os cânticos torciam-se como lã molhada a ser espremida. Em vez de um animal, trouxeram um boneco de centeio, entranhas de espinhos, boca cosida a fio negro. A lâmina abriu-lhe o ventre seco. O vento engasgou-se. A cinza correu e o chão estalou como barro antigo a ceder ao sol. A avó inclinou-se. Cheirava a fumo e hortelã morta. Os olhos, vazios, não me reconheceram. Empurrou-me e as caretas viraram-se. As pernas falharam, o estômago subiu. A fogueira rasgou-se num túnel. Atravessei-o a tropeçar. Ao amanhecer, a aldeia respirava intacta. As caretas dormiam nas arcas. Os sinos morderam-me o som, afinaram-no. Desde então carrego o ritual nos ossos, à espera da lua que me chamará outra vez. Publicado num livro apresen...