A gaveta estava ali havia anos. Imóvel. Fechada. Silenciosa como um funcionário público às 16h59. Pertencia à cómoda da sala, aquela que a minha mãe dizia ser “de boa qualidade”, expressão que no nosso país significa apenas que pesa o suficiente para não ser roubada.
Ninguém abria a terceira gaveta.
A primeira tinha toalhas. A segunda, documentos importantes e três carregadores de telemóvel que não pertenciam a aparelho algum. Mas a terceira… era território proibido. Sempre que alguém perguntava “O que está na gaveta?”, a resposta vinha seca: “Depois vês.”
Cresci com esse “depois vês” a ecoar na cabeça como um feitiço doméstico. Podia significar tudo, desde “há um tesouro” até “há contas por pagar”. A imaginação fazia o resto: mapas do tesouro, cartas de amor capazes de destruir casamentos, talvez o mítico ouro que o tio Patinhas jurava ter visto, mas que ninguém confirmou.
Um domingo, depois do almoço, altura sagrada em que todos dormem a sesta e até o relógio parece mastigar mais devagar, decidi que era o momento. A casa ressonava em coro: o meu pai no sofá, a minha mãe na poltrona, o cão a sonhar que corria atrás de algo que provavelmente também estava na gaveta.
Aproximei-me da cómoda com o cuidado de quem tenta desarmar uma bomba… mas que cheirava a naftalina. Puxei a gaveta.
Ela rangeu. Não um rangido qualquer. Um rangido dramático, digno de teatro municipal, como se a própria gaveta dissesse: “Tens a certeza?”
Lá dentro… caos. Mas não um caos místico. Era um caos profundamente português.
Havia elásticos ressequidos que se desfaziam só de olhar para eles, manuais de eletrodomésticos extintos — provavelmente estudados por técnicos — uma chave que já tentámos em todas as portas desde 1998, duas pilhas descarregadas, um comando de televisão que nunca vimos antes e uma colher. Uma única colher. Solitária. Com o espírito de quem já viu coisas que não devia.
Fiquei a olhar para aquilo com a sensação de que tinha aberto o cofre do banco e encontrado recibos de supermercado. Peguei num papel dobrado com cuidado excessivo. Era uma lista de compras de 2009: leite, arroz, detergente, “não esquecer o pão”.
A tragédia eterna.
No fundo da gaveta estava uma caixa pequena. O coração acelerou. Abri-a.
Botões. De todas as cores e tamanhos. Nenhum igual ao outro. Nenhum pertencente a camisa alguma existente nesta década. Ali estava a verdadeira herança familiar: o arquivo nacional de botões órfãos.
Nesse momento ouvi a voz do meu pai atrás de mim:
— Então? Encontraste o Santo Graal das tralhas?
Virei-me, apanhado em flagrante, com um botão azul na mão como se fosse prova de um delito.
— Mas… isto é lixo organizado!
Ele aproximou-se, pegou na colher e disse, com a serenidade de um filósofo da tasca:
— Não é lixo. É prevenção.
— Prevenção de quê? De uma invasão de camisas sem botões? De um apocalipse onde a única moeda de troca seriam pilhas AAA?
A minha mãe apareceu à porta, cruzou os braços e rematou:
— Se deitamos fora, no dia seguinte faz falta. É a Lei da Tralha. Não discutas.
E ali estava. A lógica antiga. A sabedoria de quem viveu tempos em que tudo custava a ganhar e nada se deitava fora. A gaveta não era mistério. Era memória compactada.
Fechei-a com respeito renovado.
Hoje, anos depois, tenho a minha própria gaveta. Terceira também. Lá dentro guardo cabos que não reconheço, parafusos soltos, uma chave misteriosa… e, claro, botões.
Se alguém pergunta “O que está na gaveta?”, respondo como manda a tradição:
— Depois vês.
Porque certas heranças não se explicam. Acumulam-se. Reproduzem-se. E um dia, sem aviso, tornam-se a tua gaveta.
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