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Obrigada a mim

 O sol nascia no quarto creme. A luz filtrava-se pelas persianas, desenhando sombras no chão.

O ar cheirava a desinfetante e silêncio.

O lençol, áspero contra a pele marcada, colava-se à carne como se quisesse lembrar onde doía.

E eu, presa entre tubos e cicatrizes frescas, olhava o tecto como quem olha um céu escuro.

O silêncio era denso.

Só quebrado pelo bip das máquinas, esse compasso metálico da sobrevivência. Ali, o tempo não era tempo. Era espera. Era dor com nome e hora marcada. Não me lembro da última vez que respirei sem dor.

O meu corpo era um campo de batalha. A pele, trincheira. Os músculos, soldados exaustos. E as cicatrizes… As cicatrizes eram fronteiras. Terreno conquistado.

Cada linha na carne contava o avanço de uma ofensiva vencida a custo. Uma emboscada superada. Um regresso possível.

 Lutei. Sozinha. Mas não como nos filmes.

Sem música. Sem frases de efeito. Lutei em silêncio. Com o maxilar cerrado. Com a raiva sussurrada para dentro.

Com os olhos abertos no escuro, a negociar com a dor: só mais um dia. Depois logo se vê.

Lutei quando comia sem vontade. Quando forcei o corpo a levantar-se. Quando, na casa de banho do hospital, limpei o sangue e murmurei: não acabou.

E os dias vieram. Cansados, repetidos, sem glamour. Mas vieram. E eu permaneci.

No espelho, agora, vejo outra. Os olhos, mais fundos. A pele, mais dura. Mas há uma força que nasce do que perdi.

Porque perdi. Perdi leveza. Perdi inocência. Perdi o luxo de viver sem pensar no corpo.

Mas ganhei qualquer coisa mais funda. Ganhei atenção. Ganhei presença. Ganhei o peso exacto do instante, a densidade plena de estar viva, sem distração.

E isso não se ensina. Aprende-se com o que arde.

Não fujo das cicatrizes. Toco-as. São o mapa da minha resistência. As linhas que desenham quem me tornei.

Hoje agradeço. Não aos deuses. Nem ao destino. A mim.

Por não ter desistido quando tudo me empurrava para o fim. Por ter ficado, mesmo a tremer. Por ter dito sim ao futuro, sem promessas, sem garantias. Por me ter resgatado.

Não preciso de medalhas. Nem de reconhecimento.

Apenas isto, passo a mão devagar sobre a pele marcada, não como quem procura o que foi, mas como quem reconhece quem sou.

Fecho os olhos. Suspiro. E sorrio, com tudo o que ficou.

Obrigada, a mim. Por ter morrido um pouco. Para poder viver inteira.

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