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A Última Face


No dia em que Clara se esqueceu do rosto, o espelho da entrada estilhaçou-se sozinho.

O sol nascente iluminava a casa antiga, revelando o pó a dançar no ar como espectros silenciosos. Ela desceu as escadas lentamente, os pés descalços tocando a madeira fria, mas não sentia nada. Estendeu a mão para o espelho, onde costumava ver o sorriso treinado, a simetria artificial que tanto praticara. Agora, só vidro partido como se o reflexo tivesse tentado fugir.

Na vila, evitavam-na. Sussurravam quando passava, como se o silêncio tivesse peso e forma. O padre benzia-se três vezes ao vê-la. As crianças choravam. E Clara, que outrora vivera do olhar dos outros, vestia lenços escuros e mantinha a cabeça baixa, tentando prender o que quer que restasse de si.

Certa noite, guiada por um pressentimento húmido e denso, desceu à cave. As paredes transpiravam memória. No fundo, uma caixa de madeira — não se lembrava de a ter guardado ali. Dentro, máscaras de vidro, todas com feições diferentes. Reconheceu uma: os olhos largos, a boca que sorria só com um lado. A sua, antes do esquecimento. Ergueu-a com mãos trémulas.

O vidro estava quente. E por dentro algo movia-se. Reflexos sem dono, memórias a flutuar como peixes em formol.

Com dedos trémulos, Clara percorreu a linha da boca da máscara. Um gesto antigo, íntimo. Talvez uma lembrança. Depois, colocou-a no rosto.

O vidro respirou contra a pele, e ela deixou de ser fronteira.

Primeiro, um suspiro. Depois, gritos. A máscara apertava-lhe a carne como um crânio a crescer por dentro. As feições antigas tornaram-se cárcere. Lembrou-se, então, não do que era, mas do que fizera. De como moldara rostos alheios até se esquecer do seu. Cirurgiã de vaidades, artesã de espelhos falsos.

A casa começou a ranger. O ar tornava-se espesso. No espelho da entrada, agora recomposto, surgia um desfile de faces a chorarem sangue pacientes? Vítimas?

Quando Clara tentou arrancar a máscara, os dedos estavam fundidos ao vidro. A fronteira era já memória.

No dia seguinte ou anos depois, a casa estava vazia. No espelho intacto, pendia uma nova máscara: olhos abertos demais, boca num silêncio que gritava por dentro. Dentro dela, flutuavam imagens. A infância de alguém. Um parto. Uma lâmina. O reflexo recusava-se a devolver uma só verdade.

Esperava quem ousasse olhar.

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