No sótão da Dona Elvira, perdido entre pilhas de objetos antigos, uma meia solitária descansava, completamente desbotada. Ao seu lado, uma tampa de ‘Tupperware’ olhava para o vazio, indignada.
— Isto é um escândalo! Fui tampa de uma caixa que viu festas elegantes! Agora, sou apenas... um pedaço de plástico esquecida! — resmungava a tampa, enfurecida.
A meia olhou para ela, sem muita esperança.
— Bem, tu até tens razão. Eu já fui parte de algo maior, uma dupla de sucesso. Agora, sou... um pedaço de pano que ninguém quer!
A tampa virou-se, com um brilho alucinante nos olhos.
— Quem disse que não podemos ser mais? Talvez seja o começo de algo novo!
A meia, já um pouco desconfiada.
— Tu achas? Depois de tanto tempo amontoada aqui, ainda existe espaço para a gente brilhar?
— Claro! Olha para ti! Já pensaste em ser um avental chique, ou um travesseiro improvisado?
A meia, com uma leve animação, respondeu:
— E tu, o que farias com esse potencial todo?
A tampa sorriu, triunfante.
— Eu? Posso ser uma prateleira temporária, um guardanapo para um jantar excêntrico... ou até uma peça de arte moderna!
Sem mais esperas, ambas saltaram do sótão. Desceram pelo corredor, desviando de obstáculos e caíram na cozinha. A meia aterrou com leveza, mas a tampa bateu de forma estrondosa, a rebolar até ao prato do gato.
— Agora é que acabamos! — disse a meia, já resignada.
— Não! Apenas precisamos de mais... velocidade!
E assim, entre saltos apressados e um gato à solta, a meia e a tampa perceberam que, mesmo sem saber muito bem o que faziam, o mundo ainda tinha espaço para coisas que ninguém mais reparava… se fossem ousadas o suficiente para recomeçar.
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