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Convite para o Abismo


 A caixa chegou sem aviso, repousando na soleira como se sempre lá tivesse estado. Pequena, de madeira escura, com corda vermelha quase desfeita. Leonor hesitou, uma sensação estranha, quase de déjà vu, dominando-a. Algo nela se agitava, mas a sensação era familiar demais, como uma lembrança que ela tentava fugir.

Dentro, um envelope negro com letras douradas: "Para ti, que não esqueceste."

Quinta dos Olmos. O nome cortou-lhe a mente como uma lâmina. Algo que ela tentara esquecer, mas que agora surgia com o peso de um pacto antigo. O convite não era apenas um chamado.

Chegou à quinta ao entardecer, o portão rangendo como uma advertência. O cheiro a madeira podre e fumo de algo queimado preenchia o ar. A casa erguia-se diante dela, observando-a em silêncio. Dentro, o ar parecia vivo, espesso, como se a própria casa estivesse à espera.

"Leonor", a voz do tio, ecoou. Ela reconheceu-o imediatamente, mas o sorriso estava vazio e frio. Ao lado dele, a tia, com os olhos mortos. "A casa esperava-te", disse ele com uma frieza que a fez estremecer.

Na mesa, a criança estava sentada. O seu sorriso era uma réplica exata do seu, mas havia algo de errado. Os olhos eram grandes demais, vazios, como se não pertencessem a um ser vivo. O olhar dela atravessava Leonor como uma faca.

"Por que voltei?" O som da sua própria voz soou distante. A resposta foi um sussurro da tia: "A escolha já foi feita."

O tio ergueu um cálice, o vinho dentro espesso, quase negro, refletindo a luz tremeluzente. Leonor hesitou. O líquido parecia pulsar, quase vivo. Ao tocar os lábios, o gosto era de ferrugem, denso, como o sabor de um segredo enterrado. A garganta queimou. O peso no ar aumentou, as paredes da casa pareciam se fechar lentamente.

A criança levantou-se. O sorriso continuava, mas os olhos agora pareciam observá-la de maneira possessiva, como se estivesse a aguardar algo. O silêncio fez-se opressor. As sombras na parede começaram-se a alongar, deformando-se, como se as próprias paredes quisessem engolir o espaço.

Leonor sentiu algo. Algo que já não estava mais ali, mas a observava de algum lugar profundo da casa, talvez do espelho. Algo que a seguiu ao longo dos corredores, deslizando por entre as sombras. O ar estava mais denso, como se carregasse consigo um peso que nunca deveria ser levantado.

"Agora, não há volta", disse o tio. As palavras flutuavam no ar, distorcidas.

Quando ela se virou para sair, algo a fez parar. No espelho da entrada, viu a sua própria imagem. Mas não estava só. No fundo, uma silhueta escura a observava, sorrindo.

A casa, a criança, o cálice, tudo parecia estar ligado por um fio invisível e Leonor sabia que a sombra, nunca a deixaria, se moveria com ela. Sempre.

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