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HISTÓRIA DAS RABANADAS

Pão Velho, Povo Sábio 

O que é uma rabanada? Não, a sério, vamos lá desmontar isto como deve ser. 
A rabanada é um monumento gastronómico ao génio humano, ou, mais concretamente, ao génio português. 
Enquanto o restito do mundo olha para pão duro e pensa: "Lixo..." O português olha para o mesmo pedaço de pão e diz: "Huummm... que bela sobremesa."

Isto diz muito sobre o valente e imortal povo lusitano. 
Somos um povo que transforma dificuldades em iguarias, o que não é surpreendente se considerarmos que também transformamos bacalhau seco em mil e uma receitas, numa verdadeira religião dedicada à gastronomia, e chamamos “sopa” a uma mistura de água, couves e meia batata.
Ora, as rabanadas nasceram, como tudo o que é bom em Portugal, da necessidade acutilante em sobreviver e ser feliz com o que a vida nos dá. 

Antigamente, nas nossas maravilhosas aldeias, pão era coisa séria. Fazia-se em grandes quantidades, porque ir ao forno comunitário dava muito trabalho. 
E o que não se comia fresco ficava para o dia seguinte, ou para o outro, ou para quando tivesse idade para votar. Deitar fora!? Nunca!!!
Pão velho fora é quase um crime em terras lusitanas. Assim, um daqueles portugueses mais audazes, num daqueles rasgos de criatividade que só a fome aguça, pensou: “E se mergulhasse este pão seco em leite quente, levasse a fritar e ainda apanhasse com açúcar e canela?” 

E pronto, assim nasceram as rabanadas.
Uma receita que é simultaneamente uma declaração de amor ao pão e uma afronta à dieta. Por isso se comem só no Natal, habitualmente...
A receita tradicional, que ainda hoje se faz pelas nossas aldeias, não mudou muito. Porque, sejamos honestos, quem é que quer mexer numa obra-prima? 

Primeiro, pega-se no pão de forma ou, idealmente, no pão caseiro, daqueles que parecem ter sido feitos com o esforço de um lenhador e o carinho de uma avó. 
Depois, cortam-se fatias generosas. Nada de modernices nem fosquices, nada de fatias finas. Aqui, a generosidade é uma virtude. 
A seguir, ferve-se o leite com casca de limão e um pau de canela, porque até o leite em Portugal tem direito a um pouco de luxuosidade. 

O pão mergulha no leite, mas só o suficiente para ficar ensopado, não queremos rabanadas a dissolverem-se como sonhos desfeitos pelo exagero. 
Passa-se pelo ovo batido e, então, vai à frigideira, onde encontra o seu destino glorioso: óleo a ferver. 
Uma vez douradas, as rabanadas apanham com uma mistura de açúcar e canela que até sorriem, porque o português acredita que o açúcar melhora qualquer coisa, incluindo o colesterol.

E pronto. As rabanadas estão prontas e a cozinha agora cheira a Natal, a aldeia, a infância, às nossas avós. 
Sentamo-nos à mesa, de faca e garfo em punho, para fazer justiça a esta obra de arte culinária. 
E enquanto as saboreamos, lembramo-nos de que somos um povo que, com pão velho e umas migalhas de imaginação, conseguiu criar um símbolo que traduz a arte de ser feliz com o que a vida nos oferece. 
Um símbolo que diz: “Não importa o quão duro esteja o pão da vida. Com açúcar e canela, tudo se aguenta.”

Texto: Manuel Muralhas

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