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Radar Humano

Ninguém sabia muito bem por quê. Talvez fosse uma questão genética, ou porque a natureza decidiu ser criativa naquele dia.

Desde sempre, Rita viveu sem orelhas e curiosamente, nunca se importou. Na verdade, ela até achava engraçado e fazia piadas sobre isso com naturalidade. "A falta das orelhas é minha superpotência", costumava dizer. Sempre com um sorriso na cara, como se tivesse descoberto um segredo do universo.

Enquanto as crianças perguntavam onde haviam ido parar as orelhas, Rita se divertia, a observar as tentativas engraçadas dos seus amigos, de adivinhar o motivo. "Será que ela foi feita por alienígenas? Ou será que foi a um salão de beleza onde tiraram as orelhas para dar aquele acabamento especial?", brincavam. 

Ela ria tanto dessas suposições que chegava a ter um acesso de gargalhadas incontroláveis. “Quem sabe? Só sei que não tenho que me preocupar com a falta de protetor auricular num dia de ventania!”, dizia. Dando uma risada contagiante que fazia todos caírem na gargalhada.

Mas, havia momentos em que a ausência de orelhas não era tão vantajosa. Quando estava na escola, Rita jamais escapava dos castigos. "Isso é para escutares melhor!", diziam, sempre a puxar as orelhas das crianças que aprontavam alguma travessura.

Ficava com a expressão confusa, enquanto os seus amigos riam e davam-lhe palmadinhas. 

Cresceu com uma habilidade extraordinária de ouvir, apesar da ausência. Os seus amigos a chamavam de "radar humano", porque ela conseguia escutar absolutamente tudo. Não só ouvia as conversas a quilómetros de distância, mas também conseguia identificar o que as pessoas pensavam, baseando-se apenas nos gestos e expressões faciais.

E assim, sem orelhas, viveu uma vida cheia de risos, os segredos revelados e o incrível poder de escutar o mundo de uma maneira que ninguém mais podia. 

Afinal, quem precisa de orelhas ao ter o coração tão afinado?

Comentários

Anónimo disse…
Gosto do que escreves. é um belo conto
Anónimo disse…
Gosto do que escreves. é um belo conto

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