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Halloween!

Fiz este Miniconto mensal que intensifica o terror e o mistério, criando uma atmosfera de presságio e tensão sobrenatural, perfeita para um conto de Halloween com as palavras do Spooktober 2024 e pela a ordem de cada dia!


Lara acordou sobressaltada ao sentir algo frio a tocar na sua pele. Ao abrir os olhos, encontrou uma flor seca e negra sobre a almofada, as pétalas manchadas de um vermelho-escuro, como se tivessem sido banhadas com sangue coagulado. O quarto, antes familiar, parecia agora mais apertado, como se as sombras tivessem aumentado, observando-a com olhos invisíveis. Um cheiro metálico pairava no ar, sufocando-lhe a garganta e o nariz.

Atormentada pela visão, decidiu caminhar até ao vale verdejante, onde sempre encontrava paz. No entanto, o prado parecia irreconhecível. O arco-íris após a chuva estava agora manchado de vermelho, com gotas de sangue pingando das suas cores desbotadas. Ao seu redor, ouviu o remexer de algo rastejante e ao olhar para o chão, viu um bando de aranhas negras a escalar-lhe as pernas. Sentiu um pânico a crescer, mas por algum motivo, não conseguiu mover-se.

Um arrepio gelado percorreu-lhe o corpo quando sentiu um beijo frio e húmido no pescoço, mas, ao virar-se, o que viu foi pior do que o vazio: uma sombra feminina, com olhos vazios e a boca distorcida num sorriso cruel. Uma risada distante, rouca e penetrante, ecoou pelo vale.

O som do mar chegou-lhe aos ouvidos, mas não era o mesmo som que conhecia. As ondas não eram feitas de água, mas de um líquido escuro e espesso, que refletia a luz de uma lua sangrenta num céu pesado.

No horizonte, um templo de pedra ergueu-se onde nunca existira. Era antigo e coberto de símbolos gravados em ossos humanos. Sentiu uma presença sombria a atraí-la, puxando-lhe pelas entranhas.

Contra a sua vontade, os pés de Lara começaram a mover-se, levando-a até ao local. Ao entrar, o cheiro de carne queimada invadiu-lhe as narinas e as paredes estavam cobertas de marcas de garras e manchas de sangue fresco. No altar, uma fotografia amarelada duma mulher de olhos vazios e os lábios manchados de sangue. Ao lado da foto, uma concha quebrada que continha um anel negro pulsante, coberto por teias de aranha e pedrinhas de diamantes.

Relutante, mexeu na peça como um chamamento. Imediatamente, uma caixa de música tocou uma melodia lúgubre e distorcida, ecoando como um lamento do além. A tampa da caixa abriu-se por conta própria, revelando um pergaminho antigo, inscrito com símbolos indecifráveis e ameaçadores.

As portas do templo fecharam-se violentamente e a única luz veio de uma vela ao lado, que se acendeu sozinha e projetava as sombras grotescas que se moviam como bruxas a dançar em torno de uma fogueira. O chão começou a tremer e Lara percebeu que algo, debaixo da terra, tentava emergir.

Ao agarrar num pincel que lhe apareceu na mão, o sangue dela começou a escorrer pelas cerdas enquanto possuída, desenhava sobre um pedaço de algodão sujo. As formas que criou começaram a rastejar para fora do pano, as serpentes e os corvos de carne apodrecida, que se contorciam pelo santuário frio. Um coro de vozes fantasmagóricos ecoava pelas paredes, sufocando-a com o terror crescente.

A atmosfera tornava-se cada vez mais pesada e o chão húmido parecia escorrer orvalho das próprias paredes, encharcando o local.

Desesperada, fugiu para o jardim, mas tudo ali estava morto e desfigurado. As plantas tinham formas retorcidas e grotescas, como mãos esqueléticas que tentavam agarrá-la. Uma harpa empoeirada num canto vibrou sozinha, emitindo uma nota que parecia um grito agudo e interminável.

O céu já não continha o brilho da aurora; em vez disso, uma nuvem negra e condensada bloqueava qualquer esperança de luz. Subitamente, uma escuridão espessa, como um véu, cobriu os seus olhos.

A Lara tropeçou e caiu de joelhos, sentindo o coração a martelar no peito. Viu uma figura em trapos de bruxa emergindo da escuridão, com um rosto deformado e olhos que brilhavam como brasas. Rindo-se com uma malícia ancestral, a bruxa estendeu a mão ossuda e agarrou a Lara pelo braço, cravando as unhas afiadas na sua pele até que o sangue começasse a escorrer.

O mar, aquela massa fervente de sangue, expelia uma espuma negra e no reflexo das ondas, a Lara viu a mulher da fotografia, com o seu rosto, mas desfigurado e coberto de cortes profundos. Quando gritou, a própria água borbulhou e nas bolhas provenientes da profundeza emergiu uma criatura de carne com bichos nojentos, com mil olhos a observá-la.

Algo frio, quase etéreo como seda, deslizou sobre a sua pele, prendendo-a com correntes ocultas, enquanto os seus pés pareciam colados a uma tela invisível. O chão começou a ceder, arrastando-a para um abismo.

De repente, o som de um pêndulo a balançar soou, cada vez mais rápido. O tempo esgotava-se. Um cheiro enjoativo de alfazema invadiu-lhe os sentidos. O templo começava a desmoronar-se ao seu redor, as pedras tingidas de sangue a cair como a sentença final de um pesadelo sem escapatória.

Tudo ficou escuro. Apenas o som de um riso cruel e distante permaneceu, ecoando num vazio, enquanto a Lara desaparecia para sempre entre o véu do real e do sobrenatural.

#laritacaramela

As palavras do spooktober2024 (1-Flor, 2-Almofada, 3-Prado, 4-Arco-íris, 5-Beijo, 6-Mar, 7-Céu, 8-Templo, 9-Fotografia, 10-Concha, 11-Anel, 12-Caixa de Música, 13-Pergaminho, 14-Vela, 15-Pincel, 16-Algodão, 17-Coro, 18-Orvalho, 19-Jardim, 20-Harpa, 21-Nuvem, 22-Aurora, 23-Véu, 24-Coração, 25-Espuma, 26-Reflexo, 27-Bolha, 28-Seda, 29-Tela, 30-Pêndulo, 31-Alfazema)

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