Trabalha. Esforça-te. Não te queixes. Guarda as energias para o que vale a pena. Não desistas. Vence-te. Não queiras menos do que mereces. Se te puserem o futuro num sítio alto para que não consigas lá chegar, faz da tua vontade o maior salto. Não te esqueças de ti e não tenhas medo dos erros. Serão os necessários e os exatos. Não tenhas medo de cair. Se deres o melhor de ti, cairás de pé. Como os gatos.
O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...

Comentários