Eu sei que não sinto a tua dor. Sei que não sinto a tua tristeza. Ninguém sente mais do que a sua própria mágoa. Ninguém pode sofrer a dor do outro. Se pudesse, sofreria mil vezes por ti, oferecer-me-ia no teu lugar. Mas não posso. Cada um tem o seu caminho a fazer. Cada um tem de construir a pessoa que lhe cabe ser. Só serás forte depois de fraquejares. A vida não cobra aos fracos, só aos fortes. Mas fico triste ao saber-te triste e o meu coração fica pequenino de tanto amor que te tem. A minha tristeza não é a tua, mas junta-se à tua. Duas tristezas juntas conseguem separar o desespero da esperança, o desânimo da confiança. E quando te digo que o tempo repõe a verdade, é porque sei que os enganos, todos eles, fazem sentido. Agora levanta a cabeça e agarra a pessoa que queres ser. Eu vou estar aqui.
Helena estava doente há quase um ano quando o médico lhe disse que existia uma cura. Não fez perguntas. Agarrou-lhe as mãos por cima da secretária e chorou em silêncio. O tratamento começou nessa mesma semana. As dores desapareceram primeiro. Depois vieram as noites tranquilas, o apetite, a cor no rosto. Ao fim de um mês, Helena já conseguia subir as escadas sem parar a meio. — Está a resultar — disse o médico. Ela sorriu. Nessa noite, dormiu profundamente pela primeira vez em muitos meses. Acordou pouco depois das três da manhã. Alguém estava sentado aos pés da cama. Ficou imóvel. A figura não se mexia. Helena acendeu o candeeiro. Não havia ninguém. Na manhã seguinte encontrou uma mancha escura sobre o lençol, exatamente onde julgara ver a silhueta. Convenceu-se de que tinha sonhado. Até começar a ouvir a voz. Primeiro no corredor. Depois na cozinha. Depois atrás da porta do quarto. Sempre durante a madrugada. Sempre a chamar por ela. — Helena... Quando perguntou ao...

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