Avançar para o conteúdo principal

Mudança

Abri os olhos e achei que ainda era cedo
E o despertador tocou sem cessar
Acordou-me de um sono tão pouco aproveitado
Senti um enorme vazio dentro de mim
Profundo, sentido e eterno
Que me deixava perturbada
Que me consumia ardentemente.

Tinha passado uns bons momentos,
Com calor, amor e muita energia
E agora foi-se, esfumou-se
Como se tudo o que existisse dentro
Tivesse sido varrido
Como se tivessem deixado a janela e a porta abertas
E tudo o vento levou.

Será a nostalgia, será a monotonia
Da estação que aproxima sem perdão
Sem aviso e em tudo muda
Muda-se o tempo, muda-se a natureza
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Talvez mude o nosso pequeno interior.

Acabaram os amores de verão
Chegou o aconchego do calor.
Que venha a mudança
A esperança que tudo ser melhor
O olhar mais sereno para o nosso redor
Novas vidas, novos tempos, novos amores…

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Hora em Que a Casa Respira

 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...