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O tempo passa..

"O tempo passa, e com ele partem para sítio nenhum os sonhos que um dia sonhamos e que chegamos a acreditar que talvez se tornassem realidade…
O tempo passa, e aqueles a quem chamávamos amigos não passam agora de nomes escritos por ordem alfabética numa velha agenda guardada no fundo de uma gaveta qualquer…
O tempo passa, e os discos que tanto ouvíamos estão agora tão riscados que foram esquecidos a um canto do móvel da sala…
O tempo passa, e o passado encerra-se num álbum de Liceu, nalgumas cartas de amor fingido, em dois ou três copos roubados num bar…
O tempo passa, e a loucura que guiava os nossos passos deu lugar a um compromisso atroz que nos impede de viver…
O tempo passa, e quando nos olhamos no espelho já nem sequer vislumbramos aquele sorriso que nos tornava os melhores do mundo…
O tempo passa, passa, até que um dia deixa de passar, se cansa simplesmente de passar e parte levando consigo o tempo… E nós onde ficamos? Nós partimos também rumo a um lugar onde o tempo tão cansado já não queira passar ou nem sequer exista…"

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 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...