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Fantasmas de Goya


No final do séc. XVIII, Espanha vive ainda sob o espectro da Inquisição, que tenta reprimir as ideias que chegam da Europa, em especial da França revolucionária. Francisco Goya (Skarsgard), apesar de ser um artista provocador, torna-se num pintor da corte. Entre aqueles que o procuram para um retrato estão Lorenzo Casamares (Bardem), um monge envolvido na Inquisição, e Inés Bilbatua (Portman), a sua modelo favorita. Quando Lorenzo se cruza com Inés, tem início uma trágica história de amor e engano que se prolongará até à invasão das tropas de Napoleão.

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 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...