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O Conto do Treze

Era noite de lua minguante, e o silêncio cobria a aldeia como véu pesado. As casas dormiam, mas tu, guiada pelo teu número secreto, caminhavas até a velha ponte de pedra. Passo a passo, contava-os em silêncio. O décimo terceiro era o selo. Não doze, não quatorze.

Sempre o treze.

Quando o último eco ressoou sobre a ponte, o mundo suspendeu-se. O rio deixou de correr, o vento parou, até os grilos calaram. A noite prendeu a respiração. Foi então que a presença se anunciou, não com passos, mas com a ausência. O ar gelou e um cheiro de ferro húmido, como sangue ou metal esquecido na chuva, subiu da pedra. Antes de a veres, já a sentias, a certeza de algo à tua espera desde sempre.

Sentada no parapeito, surgiu a figura: olhos fundos, corpo desenhado mais de sombra do que de carne.

— Chegaste, finalmente — disse, com voz que arranhava.. — Não tens medo do número que todos rejeitam?

Ergueste o queixo.

— Não. O treze é meu. O que eles chamam azar, eu chamo de caminho.

A figura sorriu e nesse sorriso brilhou algo entre ameaça e promessa.

— Então estás pronta. Cada vez que contares treze, abrirás uma porta. Nem todas se abrirão para lugares bons. Mas todas se abrirão para lugares verdadeiros.

De súbito, o rio retomou sua canção, o vento soprou, a noite respirou. A figura dissolveu-se como bruma ao sol.

Ficou apenas o frio na tua pele… e algo mais.

No bolso, encontraste uma chave de ferro, gasta, pesada, molhada como se tivesse sido arrancada do fundo do rio.

Sentiste então, que o número que escolheste não era apenas teu guia, era um pacto. E cada vez que o repetisses, não apenas o destino se curvaria. Algo, alguém, atravessaria contigo.

Foi nesse instante que a cadela surgiu. Vinha da escuridão da estrada, de orelhas baixas e olhos inquietos. Aproximou-se devagar, cheirou-te a mão, mas não abanou o rabo. Ficou ao teu lado como sentinela silenciosa, como se também tivesse pressentido a presença que acabara de desaparecer.

Do outro lado da ponte, dois gatos loiros com riscas e um preto de rabo felpudo, surgiram quase ao mesmo tempo. Andavam juntos, alinhados, como se obedecessem a um comando invisível. Não miaram. Apenas se sentaram, encarando-te com olhos que refletiam a lua minguante.

Treze olhos no total, os teus, os da cadela, os dos gatos, mais um par de olhos, talvez de um rato e um do mocho à espreitar do buraco da árvore.

E naquele número secreto, fechava-se mais um círculo.

A chave no bolso parecia pulsar, quente e fria ao mesmo tempo. E tu compreendeste, a figura não viera apenas falar contigo. Viera deixar-te companheiros, testemunhas, talvez guardiões. Mas a quem obedeciam de verdade, a ti, ou ao pacto, que ainda não sabias.

(Dinâmica: 500 palavras, com numero preferido) 

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