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O Último Manuscrito

Dinâmicas luz das letras: 300 palavras, meta literatura, de um livro que li Quando Lisboa tremeu de Domingos Amaral:

A tinta escorria lenta sobre o papel, enquanto Sebastião traçava palavras febris. A pena tremia nos dedos, mas não pelo esforço. Era Lisboa que estremecia debaixo dos seus pés.

O candeeiro balançava. Lá fora, gritos cortavam a noite. Prédios cederam num estrondo de pedra e madeira. A cidade afundava-se em poeira e cinza, mas Sebastião não largava a pena.

A história precisava ser escrita.

As linhas corriam, desesperadas. O terramoto devorava a cidade, tal como as suas palavras devoravam o tempo. Ele escrevia sobre homens e mulheres que fugiam entre as ruínas, sobre um padre que rezava diante de um altar desabado, sobre uma mulher que, de joelhos, procurava o filho perdido. Mas, à medida que a pena riscava o papel, os ecos da realidade transformavam-se.

A mulher encontrava o filho nos escombros, são e salvo. O padre erguia-se entre as chamas, guiando os fiéis para fora da igreja. Alguns edifícios, que há instantes ruíam, mantinham-se intactos, como se a narrativa os sustentasse.

Sebastião sentiu o coração acelerar. As suas palavras moldavam Lisboa.

Inspirou fundo. Um último parágrafo.

No instante em que escreveu que a terra serenava e que a cidade renasceria das cinzas, o chão parou de tremer. O silêncio invadiu o quarto. Apenas o crepitar distante dos incêndios lembrava o desastre.

Sebastião pousou a pena, as mãos suadas. O papel, agora completo, pulsava sob a luz do candeeiro. Olhou pela janela: a Lisboa destruída ainda respirava.

Dobrou o manuscrito com dedos hesitantes e murmurou:

— Nem todas as histórias podem ser mudadas… mas algumas, talvez.

Lá fora, a cidade ferida esperava.

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