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O medo do desconhecido…

Fui buscar o meu primeiro poema (reajustei, revisei, reli). De 2008, para o Dia da Poesia.  
 

Tenho anjos no céu e na terra,
Velam por mim, amparam-me a alma,
Sussurram promessas na brisa que berra,
E acalmam-me o medo, que esmaga.

Leio um livro em momentos de dor,
Tenho a mente desperta para o essencial,
Sei que na vida, não basta o ardor,
É preciso o justo, o real e o vital.

O corpo obedece à voz do pensar,
Dança ao compasso do que a alma ordena,
Se o coração e a razão sabem concordar,
A vida caminha, segura e serena.

Mas há um nó que me prende o peito,
Uma sombra que insiste num sopro a tremer,
E então eu respiro, recordo o perfeito,
Penso em beleza... e deixo de ter.

Tenho medo e receio do incerto,
Mesmo que o tenha já enfrentado,
Pois tudo o que é novo renasce coberto
De um véu de mistério, de um medo calado.

Mas o tempo, esse mestre, ensina e desfaz,
E até o receio dissolve-se, num suspiro profundo.
Deixa na pele as marcas que o tempo traz,
E no passado, esculpe as lições do mundo.

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